"Vasco conservou-se calado. Ouviu o amigo com uma atenção ansiosa, fixando-lhe os olhos. Depois, com uma voz tão baixa que parece dirigir-se apenas a si próprio, murmura: Conhecer-te foi a maior felicidade da minha vida... podes crer, eu esperava por ti, sabia que, em qualquer parte do mundo, tu existias... e foi bom ver-te chegar, com a tua amizade total, com o teu riso aberto, com os teus livros dentro da camisa, com a tua timidez exposta, com as tuas convicções fortes, com essa força interior que conforta todos os que te conhecem. Quando te vi chegar, soube que tinha chegado o meu amigo, aquele em quem eu confio mais do que em mim próprio, a quem confidenciarei tudo o que jamais direi seja a quem for...
Interrompe-o Francisco, procurando disfarçar a comoção: Se continuas assim, fazes-me chorar. Vasco põe um sorriso terno: Chora, então, porque eu vou continuar..."
O Caminho das Aves, de José Casanova
quarta-feira, 22 de agosto de 2012
Terrorismo social
O governo PSD/CDS pratica o terrorismo social tão do agrado de todas as direitas. Precariza vínculos laborais, facilita e promove milhares de despedimentos, retira prestações sociais elementares, caustica os que mais sofrem com o aumento de preços de produtos essenciais,
aumenta as rendas e facilita os despejos, dificulta o acesso ao crédito para aquisição de habitação própria, cerceia o acesso à saúde, educação, justiça e cultura a crescente número de portugueses; rouba e aliena património nacional apostado em imitar o governo do dotador Pinochet.
Enquanto impávido, hipócrita e cruel desenvolve estas malfeitorias, rouba salários e subsídios de férias e de Natal e entrega o produto do seu ofício criminoso aos bancos e especuladores financeiros. Destrói, na senda de Mário Soares e Cavaco Silva, o potencial produtivo nacional e mima com desvelo os empresários de vão de escada.
Se é verdade que adquiriu legitimidade para governar através de eleições - profundamente viciadas por vigaristas que, ao serviço da troika ps/psd/cds, vendem por atacado a banha da cobra do pensamento único - tendo feito dos resultados eleitorais um uso manifestamente reprovável, não só incumprindo o que prometeram como fazendo o que não submeteram a sufrágio, tal legitimidade eclipsou-se rapidamente.
É pois um governo mentiroso, vigarista e ilegítimo, cuja substituição se impõe. Aos que tanto têm resistido à corja governamental, de sindicalistas a estudantes, de gente sem partido aos militantes do PCP, devemos estar gratos. Sem o seu abnegado esforço, sem a sua consequente coragem e sacrifício estaríamos bem pior.
terça-feira, 7 de agosto de 2012
Sobre a moral
"O confronto entre os princípios dos grandes grupos morais tem particular interesse. E este processo (o processo em que Álvaro Cunhal estava a ser julgado) oferece um exemplo vivo dessas divergências e contrastes. entre a defesa e a acusação neste processo chocam-se na verdade dois mundos morais. O nosso dita-nos as seguintes regras: "Não trair os amigos nem quem em nós confiou"; "ser devotado na defesa das próprias ideias"; "sobrepor sempre o bem colectivo à sorte pessoal". Mas, na acusação, na intimidação que está por detrás da acusação, estão implícitas outras regras morais: aquela que indica e incita à traição dos próprios amigos e ideias; aquela que indica e incita a pôr no mercado, como qualquer outra mercadoria, as acções e os princípios. Deixamos para os nossos adversários tais regras morais. A nossa moral é incomparavelmente superior.
Deste processo e deste julgamento sairemos moralmente vitoriosos. Isso nos basta."
Álvaro Cunhal, in Obras Escolhidas, Tomo II, pp 213, ed. Avante!
segunda-feira, 23 de julho de 2012
Devota e ordeira, a comunicação social dominante noticia, até à exaustão, a morte de um mercenário cubano, num acidente de viação, quando viajava na companhia de um dirigente do PP espanhol. Que terrível e inepta deve ser a ditadura cubana: não apenas permite que estes facínoras se movimentem à vontade, como aceita que o façam concertadamente com os que lhes pagam o trabalho sujo. A não ser que seja apenas pérfida. E que tal permissão sirva afinal para que entendamos o que o povo traduz de forma simples: diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és. Por mim, que não desejo a morte a ninguém, diria à guisa de epitáfio: morreu um grande filho de puta!
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