segunda-feira, 18 de abril de 2005

Bolero do coronel sensível que fez amor em Monsanto

Eu que me comovo
Por tudo e por nada
Deixei-te parada
Na berma da estrada
Usei o teu corpo
Paguei o teu preço
Esqueci o teu nome
Limpei-me com o lenço
Olhei-te a cintura
De pé no alcatrão
Levantei-te as saias
Deitei-te no banco
Num bosque de faias
De mala na mão
Nem sequer falaste
Nem sequer beijaste
Nem sequer gemeste,
Mordeste, abraçaste
Quinhentos escudos
Foi o que disseste
Tinhas quinze anos
Dezasseis, dezassete
Cheiravas a mato
À sopa dos pobres
A infância sem quarto
A suor, a chiclete
Saíste do carro
Alisando a blusa
Espiei da janela
Rosto de aguarela
Coxa em semifusa
Soltei o travão
Voltei para casa
De chaves na mão
Sobrancelha em asa
Disse: fiz serão
Ao filho e à mulher
Repeti a fruta
Acabei a ceia
Larguei o talher
Estendi-me na cama
De ouvido à escuta
E perna cruzada
Que de olhos em chama
Só tinha na ideia
Teu corpo parado
Na berma da estrada
Eu que me comovo
Por tudo e por nada.

António Lobo Antunes

3 comentários:

Evaristo disse...

Muito bem contextualido, este poema de Lobo Antunes. Obrigado por dar a conhecer o outro lado da obra de ALA: a poesia, que eu não conhecia.

Anónimo disse...

Conheço Dr Lobo Antunes, como escritor ,não imaginava que também fazia poesia .Este que o Pedro pulbicou é lindo

Zenite disse...

sim, quinze anos tinha
no seu corpo em brasa
a tal senhorinha
que não tinha casa.
tinha tranças d’oiro
e a pele alvacenta
tu foste o primeiro
a arrastar-lhe a asa
naquele janeiro
dos anos setenta.

ela pai não teve
sequer tinha mãe
não tinha sapatos
não tinha vestidos
não tinha ninguém
só dias sofridos.

não havia lua
não havia estrelas
e não tinha abrigo,
a casa era a rua
da pobre donzela
que não tinha amigos.

o seu corpo grácil
de pele de alabastro
jamais resvalado
não tinha cadastro
mas foi presa fácil
dum lobo esfaimado.

se um dia voltares
à estrada velha
no negrume agreste,
detém-te e descobre-te,
acende uma vela:

verás numa faia
- ou “feral cipreste”? -
a seta-coração
bem como a mensagem
que a bela catraia
em aflito pranto
no tronco entalhou
nessa noite túmulo
do seu corpo espanto.
verás, para cúmulo,
que foste o primeiro
e também o último
a dar-lhe dinheiro.