quinta-feira, 25 de maio de 2006

A pedagogia do abraço

" Há muitos, mesmo muitos anos, conheci um professor que me afiançou nunca ter defrontado problemas de indisciplina. Confidenciou-me que, no primeiro dia de aulas de cada ano lectivo, "dava toda a corda à turma" (sic), esperava que a desordem se instalasse e que o líder da desordem se revelasse. Então, "parava a romaria e aplicava no mariola uma sova monumental, que era remédio santo para todo o ano" (sic).

Recentemente, foi-me concedido o privilégio de reconhecer a distância que vai da violência "disciplinadora" desse professor de antanho à ternura dos braços de uma Ana (Joana de nome próprio, mas esse é um segredo que fica entre nós...).
A Ana viveu, por dentro, o quotidiano de um bairro degradado. Entre outros dramas, conheceu o de uma criança por todos considerada "violenta", hóspede quase permanente de um "quarto escuro", onde cumpria longas horas "de castigo". Porém, nem o negro isolamento domava a juvenil fúria. Em sucessivas vagas, a soco, a pontapé, à dentada, forçava a fuga das companheiras, e abreviava o regresso ao "quarto escuro".

Recém-chegada, a Ana depressa se apercebeu daquele círculo vicioso de violência, "crime e castigo". Poucos dias decorridos, aproveitando um momento de distracção da endiabrada rapariga, prendeu-a nos seus braços. A pequena ainda esperneou, mas sem conseguir escapar ao amplexo. Resignada, julgou chegado mais um momento de recolher à punitiva escuridão. Tremeu quando a Ana a beijou na face. Correu para novas tropelias, logo que a Ana a largou.

Não levou muito tempo a regressar. Ia direita ao "quarto escuro", de orelha pendurada, quase arrastada pela vigilante que a surpreendera em flagrante delito. De novo, a Ana intercedeu por ela. A vigilante largou-a nos seus braços. A pequena já quase não opôs resistência. Sentiu o abraço como abraço e recebeu o beijo sem frémito aparente. Mas, sem demora, foi procurar mais sarilhos e voltou – qual pássaro há muito sem ninho – ao aconchego dos braços e ao afago dos lábios da paciente Ana. Algumas idas e vindas depois, o íman do afecto prendeu-a definitivamente. A pedagogia do abraço vencera a da punição.

A vida dos professores está recheada de acontecimentos dignos de narrar e, como não há duas sem três, aqui deixo registo de outra peculiar experiência. O primeiro dia de escola começou num vaivém entre vinte e tal fedelhos a chorar baba e ranho e meia dúzia de ansiosas e renitentes mães, coladas ao umbral da porta, ora espreitando a descendência pelos interstícios, ora penetrando para assoar o nariz do herdeiro ou dar-lhe um beijo de despedida.

Respeitosamente, o professor encaminhou as ansiosas progenitoras no sentido da saída. Ao cabo de uma longuíssima meia hora, logrou encostar a porta: "com licença, desculpe, faz favor, minha senhora, sim, sim, pode ficar descansada, claro, pois, é natural, coitaditos, não é? As gotas, pois, não me esquecerei, pois, dá-me licença, se fazem favor, não custa nada, daqui a pouco já vão ao recreio, sim, minha senhora, não me esquecerei, concerteza..." Com mão firme e jeitinho conseguiu fazer descolar da porta os dedos da última mão da última mãe, deitou um olhar àquela que seria a sua primeira "primeira classe" e respirou tão profundamente quanto a ansiedade lho permitia.

Cuidou de acalmar os pequenitos que, a todo o momento, ameaçavam retomar o choro. Depois da tempestade, parecia ter chegado o merecido sossego. Contou os gaiatos. Faltava um.
- O senhor professor dá licença? - e logo algumas das já aquietadas mães aproveitaram para ensaiar um retorno e lançar ansiosos olhares sobre a prole, que retomava o ritmo do soluçar e desembocava numa nova e ruidosa choradeira.

Apercebendo-se de que a frente de batalha não se encontrava lá dentro mas fora de muros, o professor alterou a estratégia. Saiu da sala, fechou a porta atrás de si e a ela resolutamente se encostou, qual Mem Martins ao invés. O que viu fez com que o seu semblante não reflectisse tanta amabilidade como há meia hora atrás. Uma suposta mãe debatia-se impotente perante investidas e pontapés do seu rebento, acompanhadas de tais imprecações que fariam corar de vergonha um surdo.

- O senhor doutor do posto disse-me que ele tem sistema nervoso. O meu marido até ouviu – não foi, ó Quim? – que a gente não o pode contrariar. Eu ainda pensei em levá-lo ao especialista dos nervos, mas tenho lá posses! ‘Inda se a Caixa me desse um suicídio! Já entreguei a papelada há que tempos... e nada!
- O garoto é levado do diabo – comentavam, entre dentes, alguns dos presentes.
Metê-lo assim na sala, nem pensar! – pensou o professor. Pegou no puto ao colo e, a custo, foi com ele até ao alpendre das traseiras.

Quando se encontrou a sós com o miúdo, sentou-o na beira do muro e falou-lhe baixinho e ao coração. Disse-lhe tudo o que é possível dizer-se para sossegar o espírito de uma criança. E o infante presenteou-o com um chorrilho de impropérios:
- Deixa-me, filho da p...! Deixa-me!
O professor respirou fundo, contou até vinte, voltou a respirar mais fundo e contou mais uma vez. O professor não era dos que acreditava no ditado popular que diz que "moço que não é castigado não será cortesão nem letrado", mas já começava a desesperar. O fedelho esperneava e gritava:
- Deixa-me, filho da p...! Larga-me!

A mão do professor foi mais lesta que o pensamento e só parou na face do pequeno. Mas foi a mesma mão que a acariciou e enxugou as últimas lágrimas, enquanto os seus braços envolveram a criança num abraço penitente. O miúdo percebeu que a sua performance tinha acabado e que com aquele adulto – a seus olhos bruto e terno – a cena do grito e da canelada não surtia efeito. Por receio de novo tabefe ou por razões que a razão desconhece, o pequeno lá foi, a par do novo mestre, sala adentro, como se nada de especial tivesse sucedido.

à sua passagem, uma mãe ainda comentou:
- Este professor é que tem jeito para as crianças!
Equidistante dos outros dois episódios, este confirma o que já dizia um poeta: as mãos " são a guerra e são a paz" . Apercebo-me de que o texto já vai longo e de que ainda não lhe juntei palavras por detrás das palavras. Juntar-lhe-ei apenas uma recomendação bibliográfica. Se é verdade que bater numa criança é um acto de cobardia, também sabemos o que Anton Makarenko escreveu no seu "Poema Pedagógico". Quem ainda o não leu, não sabe o que perde. Está lá tudo. "

José Pacheco
Escola da Ponte / Vila das Aves

2 comentários:

GR disse...

Um tema complexo, a educação na escola, a família e a criança.
Claro, para o (des)governo de Sócrates, um tema indiferente.
Vai fechando escola, fazendo ouvidos surdos às reivindicações dos professores, destabilizando o agregado familiar, com o desemprego, salários baixíssimos, flexibilidade de horários, etc..
Não sou apologista que se bata nas crianças, seja em casa ou na escola. È uma das atitudes mais covardes que um adulto pode ter. Para mim, a educação terá que ser feita através dos pais ou os encarregados de educação. Porém reconheço que hoje é muito difícil, educar com disciplina as crianças mesmo as de tenra idade, quer em casa ou na escola. Vários factores levam a criança a ter comportamentos de indisciplina e irreverência, destabilizando o normal funcionamento escolar. O factor família, está muito longe do que estávamos habituados. Cada vez mais a estrutura familiar está a ser alterada, pelas famílias monoparentais, levando as crianças a ter duas ou mais casas, com diferentes atitudes de aprendizagem, perdendo a criança (normalmente) os laços de família. A flexibilidade do horário laboral, imposto pelo governo com o novo Código de Trabalho, conduz a uma destabilização entre a criança e os pais. Hoje, não há tempo nem paciência para o diálogo, para o divertimento, os carinhos, em suma para uma normal educação. As crianças passam muitas horas sem o contacto dos pais. Estes por sua vez chegam a posturas de extremos, ou deixam os filhos fazerem o que querem, ou descarregam neles todo um dia de trabalho cheio de contrariedades, batendo-lhes, gritando e quantas vezes a pobre criança, não sabe o porquê de tanta violência. Descarregando esta, toda a sua fúria na escola.
Escola que tem professores, a leccionar vários graus de ensino com idades diferentes, na mesma sala. Alguns não conhecendo a turma, pois vão mudando de escola várias vezes no ano lectivo. Os professores, têm problemas enormes, estando distantes de casa e da família, muitas vezes com graves problemas económicos, tendo que pagar a casa onde leccionam e ainda a casa (com as inerentes despesas), no local da sua residência.
Há também cada vez mais crianças com fome na escola, esperando que lhes seja dado o pacote de leite escolar. É um tema muito sério, com um grande conjunto de factores sociais, políticos e económicos.

Adorei o texto.
Pequenas histórias, com grande mensagem!

GR

zoltrix disse...

O Makarenko? Mas há alguém que o tenha lido sem ser eu?
Tou a brincar, mas na verdade.....às 3 da matina encontrar alguém que leu Makarenko é de facto o máximo!!Vai um copo para comemorar?
POis...! Quem mais terá lido Makarenko?