domingo, 12 de novembro de 2006

A DEMOCRACIA DELES

"No domingo passado, sensivelmente à mesma hora em que o presidente dos Estados Unidos da América, Georges Bush, declarava, em Washington, falando a sério, que a condenação à morte de Saddam Hussein era a comprovação de que a democracia tinha chegado ao Iraque, o primeiro-ministro português, José Sócrates, afirmava, em Montevideu, presume-se que também falando a sério, que «em matéria de visão humanista e respeito pelos direitos humanos, não encontro melhor exemplo do que os Estados Unidos» - e sublinhava que, para confirmação do que dizia, bastava olhar para a «política externa norte-americana».


Trata-se de declarações complementares no seu sombrio significado, gémeas siamesas, pode dizer-se, ligadas pelo cordão umbilical de um arrogante e cínico desprezo pela democracia e pelos valores democráticos – ao fim e ao cabo a democracia deles. Na declaração do presidente dos EUA transparece o conceito de democracia adoptado pelo mais poderoso país do mundo. Dar como exemplo da chegada da democracia a um país a condenação a morte de uma pessoa – seja ela quem for – diz tudo sobre o entendimento de democracia de quem recorre a tal exemplo.

Na declaração de José Sócrates – presume-se que feita de livre vontade – o que sobressai é a precisão cirúrgica do primeiro-ministro português na escolha das qualidades que, em seu entender, são atributos louváveis dos Estados Unidos da América. Considerar a prática terrorista do imperialismo norte-americano como uma «política externa» caracterizada por uma «visão humanista» e pelo «respeito dos direitos humanos», constitui, não apenas um insulto à democracia, mas igualmente uma brutal ofensa à memória de centenas de milhares de homens, mulheres, jovens, crianças vítimas dessa «visão humanista» e desse «respeito pelos direitos humanos».

Esta exibição de pró-americanismo primário de José Sócrates – expressa na valorização absoluta daquilo que aos EUA mais interessa que seja valorizado – significa que o primeiro-ministro português apoia e aplaude com fervor democrático as invasões e ocupações de países, os massacres, as prisões arbitrárias de milhares de cidadãos de dezenas de países, o encarceramento desses cidadãos em situação de total isolamento e sem possibilidades de acesso a qualquer tipo de defesa, a sujeição desses cidadãos às mais bárbaras torturas, etc., etc.

O conceito de democracia de Georges Bush, tão apreciado por Sócrates, rege-se pelos interesses dos EUA e é simples e primário, como não podia deixar de ser, numa pessoa com a sua mediocridade humana, mental e intelectual. Para ele, as coisas são simples: a democracia é o regime que, em qualquer país do mundo e em cada momento, melhor sirva os interesses do imperialismo norte-americano; se esse regime for alcançado através de «eleições», óptimo; no caso de as eleições não serem manipuladas e de os candidatos do império saírem derrotados, então as eleições são declaradas sem efeito e passa-se ao plano B: a democracia é imposta pela força das armas, com a brutalidade, o terror, a barbárie consideradas necessárias para que o objectivo seja alcançado. Como aconteceu no Iraque. Como aconteceu centenas de vezes, ao longo da história, em múltiplos países.
Daí a sem surpresa da alegria esfuziante de Georges Bush face à condenação à morte de Saddam Hussein. Daí a conclusão tirada e difundida para todo o planeta que aquilo é que era democracia.
Saddam Hussein foi um tirano, um facínora, responsável directo por muitos horrorosos crimes. Lembremos, no entanto, o que não pode ficar esquecido: nos períodos mais sanguinários do seu regime de terror, Saddam foi um homem de mão da CIA e dos respectivos governos norte-americanos. Pelo que, o seu julgamento e condenação pelos crimes então cometidos só seria justo e só faria sentido se, a seu lado, no banco dos réus, estivessem sentados os responsáveis norte-americanos, no mínimo tão culpados como ele por todos esses crimes.

É conhecida a posição do PCP contrária à pena de morte seja qual for o país que a autorize e aplique; é conhecida a nossa posição em relação ao regime ditatorial de Saddam Hussein, cujos crimes fomos o único partido nacional a condenar – todos os crimes, registe-se, desde o assassinato de mais de seis mil militantes comunistas, cometido sob a orientação da CIA (que forneceu a Saddam Hussein os nomes e moradas desses militantes), até aos assassinatos (sempre com o apoio dos Estados Unidos da América) de milhares de outros cidadãos, homens mulheres e jovens progressistas, curdos, etc; é conhecida a nossa posição de condenação e denúncia dos objectivos e da selvajaria da invasão do Iraque pelos EUA em 1991 - a tal da carnificina da estrada de Bassorá, a tal em que as forças do bem (o exército norte-americano) enterraram vivos centenas de soldados das forças do mal (o exército iraquiano) que se haviam rendido; é conhecida a nossa posição outra vez de condenação e denúncia dos objectivos e da selvajaria da segunda invasão, destruição e ocupação do Iraque – e que, somada com a primeira, fez daquele país um imenso cemitério com centenas de milhares de vítimas inocentes; é conhecida, ainda, a nossa posição solidária com a heróica resistência do povo iraquiano à ocupação do seu país – solidariedade que aqui se reafirma inequivocamente.
Estamos, pois, à vontade – e com uma autoridade moral singular - para nos pronunciarmos contra a condenação à morte de Saddam Hussein e para sublinhar a farsa que foi o seu julgamento e a sua condenação, executados pelos títeres dos EUA no Iraque."

José Casanova, in Jornal «Avante!»

2 comentários:

GR disse...

Há uns anos atrás, vi uma jovem com um longuíssimo cabelo (quase chegava ao chão), vestia uma túnica de renda branca, andava com passos leves e delicados e sorria sem olhar de frente para as pessoas. Rodeada por vários homens, também eles esboçando um sorriso, atrás um grupo de mulheres sorridentes, sussurravam uma lengalenga musical.
Ninguém podia abordar a jovem. Pela rua, este grupo de pessoas sorridentes, com aspecto desorientado e uma postura superior, como se o mundo fosse só deles e todos que por eles passavam, eram subalternos, seguiram sorridentemente sós!
Talvez para lado nenhum!

Estando a ver o congresso socialista, lembrei-me do episódio patológico acima citado!
Troquemos a jovem pelo sr. bacharel, 1º ministro e presidente do PS.
A histeria colectiva de todos os oradores que gritaram, gesticularam, cegos com o poder, na ânsia perturbada de enganar, confundir, na palavra segura de Mentir!
É pois natural para Sócrates a sua alienada obediência, a um país governado por um louco que invade países, matando milhares de civis, subjugando e torturando povos, defraudando eleições, mantendo em Guantânamo centenas de presos sem acusação, nem julgamento, num país onde a pena de morte é uma prática usada, em alguns Estados a pena de morte é aplicada a jovens menores de 17 anos e doentes mentais.
Sócrates sem despudor, di-lo com um sorriso, não encontrando melhor exemplo de respeito pelos Direitos Humanos que os EUA. Di-lo com a mesma arrogância que declara: “Não tenho medo de manifestações”, com a mesma prepotência, no seu púlpito ORGULHOSAMENTE SÓ para ele, dizendo “… é compensador …. verificar o sólido apoio popular”.
Enquanto isso ele apoia sorridente, a pena de morte, assassinos, a corrupção, o caos económico do nosso país, a fome, a falta de protecção a menores, a falta de cuidados de saúde, a degradação da cultura!
Restará alguma coisa no país, quando este prepotente, desumano, deixar de ser 1º ministro?
Este grupo de pessoas sorridentes, com aspecto desorientado e uma postura superior, como se o mundo fosse só deles e todos que por eles passam são subalternos, levam-nos,
Talvez para lado nenhum!
Talvez para o abismo!

GR

Manuel Neves Bancaleiro disse...

Tem um Blog interessante....
Hoje em dia a transmissão de conhecimentos e de opiniões através da blogosfera é algo que os poderes instituídos jamais conseguirão controlar.
Força...não nos deixemos manipular...independentemente de divergências ideológicas ...credos ou religiões.
Podem ler Manuel Bancaleiro - Algumas Verdades em:

http://manuel-bancaleiro.blogspot.com

Manuel Bancaleiro