sexta-feira, 3 de março de 2006

Os palhaços também choram!

"Fevereiro, quadra de Carnaval, temporada de Circos!
Carnaval, palhaços, cor, música, alegria, crianças, pais e Coliseu!
Nunca entendi a relação entre o Circo e o Carnaval! O Carnaval é correr na rua! As crianças viam os palhaços naquele Circo, ano após ano! No Coliseu!
O espectáculo obrigava que o palhaço fizesse rir e as crianças riam! O palhaço pobre, inocente, quantas vezes solidário, “mal” vestido, transmitia a nostalgia nuns olhos “mal” pintados! Como detestava aquele Circo! Obrigatoriamente tinha que rir! Imperiosamente tinha que assistir! No verão, nas vilas e aldeias, proliferavam Circos de parcas condições. Deslocavam-se em velhas roulotes com animais esquálidos e trabalhadores circenses com fome e muita miséria!

Certo dia numa tarde de verão, um Circo muito pobre instalou-se num descampado perto de minha casa. Ouvindo o rugido dos leões, fui lá para me mostrarem os animais! Atendeu-me um senhor, nada simpático. Falou na perigosidade dos animais, pedindo-me para que eu fosse embora! Impossível, teria que ver os ditos bichos. O perigo estava em casa, ninguém sabia que eu tinha ido ao Circo e era quase hora do lanche. Devido à minha insistência o senhor chamou alguém que logo trouxe uma cobra. Disse-lhe que nunca tinha estado com uma, talvez tivesse medo! Rindo, novamente pediu que os deixasse em paz! Quando eu me agarrei à longa cobra, acarinhando-a com beijos, prontamente decidiu que me mostraria todos os animais, não sem que eu lhe prometesse que nunca tocaria neles!
Fiquei deslumbrada! Leões, cobras, cães e macacos. Eram lindos! Magríssimos, mal tratados, mas lindos! Despedi-me agradecendo. Ainda presenciei o treino da “bailarina voadora”. Ela voava em altos baloiços dando grandes cambalhotas, saltava para outro baloiço ininterruptamente, até que caiu! Todos os trabalhadores acorreram, minutos depois foi levada por uma ambulância. Quando vinha embora, estava um palhaço, sentado (talvez num caixote), chorando compulsivamente! A pintura misturava-se com as lágrimas, que um lenço multicor ajudava a esborratar.

Corri até casa, coloquei num prato bolos e pudim, sobras da sobremesa do almoço. Aproximei-me do palhaço e ofereci-lhe o prato com os doces, dizendo-lhe que nunca tinha visto um palhaço chorar! Com um olhar que ainda hoje recordo, de surpresa mas tão meigo e triste, agradeceu com a cabeça, esboçando um sorriso forçado!
Ao longe, alguém gritava que tudo estava bem, só tinha uma perna partida! O palhaço levantando-se, tirou do bolso um pequeno papel com a foto da bailarina voadora e autografou dizendo: -“ Volte amanhã e assiste ao ensaio! Com este bilhete entra no espectáculo à noite. Obrigado, pelos bolos”, correndo. Talvez para ouvir notícias trazidas do hospital.

Cheguei a casa felicíssima, tinha como amigo um palhaço! Fiquei de castigo prolongado! Com oito anos, tive a ousadia de sair de casa e ter entrado num circo sozinha!!!
Nunca mais vi o palhaço. Nunca fui àquele circo! Continuei a ir ao Coliseu. Ano após ano!
Adoro o olhar dos palhaços, mas entristecem-me! "
Guida Rodrigues

2 comentários:

Sérgio Ribeiro disse...

Parabéns pelo texto. Obrigado pela tua sensibilidade.
É pena o Pedro não ter mais tempo para dar a este blog.
Abraços

zemanel disse...

sonhar,imaginar...ilusão. Criar, transformar, dar o melhor de nós. Um abraço