sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

O Direito à vida acaba a partir do nascimento?

"O Direito à vida é compatível com o desemprego , com o trabalho sem direitos, com a miséria, com os bairros de lata, com os baixos salários, com a subserviência, com a doença para quem não tiver dinheiro, com a velhice sem dinheiro, com o aumento da pobreza? Será?

Recebi um dia destes pela NET uma carta subscrita por Adriano Moreira, Paulo Portas e Ribeiro e Castro,apelando ao Não. Adriano Moreira, Ministro do Ultramar no tempo de Salazar e da Guerra Colonial, não se preocupou nessa altura com a morte ou traumatismo psicológico de milhares de jovens que durante treze anos foram forçados a chacinar os guerrilheiros dos movimentos de libertação e as populações negras, designadamente na Guiné, Angola e Moçambique? Que autoridade tem Adriano Moreira membro dum Governo de Salazar que nunca denunciou os massacres como os de Wiriamu ou da Baixa do Cassanje e foi conivente com a censura e a PIDE?

De que lado estava a maioria dos Bispos e dos padres que abençoavam as tropas em desfile e lhes «davam» conforto moral no dramático teatro de guerra? Quem são estes senhores que se apresentam como democrata cristãos ou «populistas»? Que Igreja é esta que ficou silenciosa perante o desterro do Bispo do Porto D. António Ferreira Gomes por se opor a Salazar ou «expulsou» padres como o de Vieira da Lixa (Mário de Oliveira) ou Felicidade Alves?

A política destes senhores, travestidos de Sócrates, Melo e Castro, Mendes, Durães e quejandos, obedientes à batuta do grande capital e dos senhores do dinheiro, é a de criar condições de riqueza e boa-vida para um punhado de homens e mulheres baseadas no crescimento da miséria, da ignorância, da repressão, da insegurança, do «medo» face ao futuro e da capacidade de autodeterminação pessoal, para que tudo continue na mesma. Tal como no antigamente, que persiste ou ressuscita nos dias de hoje?

A 11 de Fevereiro, votar é um direito. A 11 de Fevereiro VOTAR SIM é um dever, o dever de votar contra o medo e contra a repressão das consciências, é votar pela capacidade de auto-determinação pessoal dos homens e das mulheres."


Vitor Nogueira

2 comentários:

GR disse...

Revolta-me a hipocrisia do Não, sobretudo da igreja.
Assisti no passado a histórias cruéis, onde os padres inquisidores abusavam de jovens raparigas, “abençoando-as” quando as enviavam para fazer os desmanchos.
Frente à minha casa tinha eu oito anos, havia um casal (classe média alta) com dois filhos meninos e uma jovem criada (como era denominada na altura, quando Salazar dizia que Portugal era um país de brandos costumes). Esta família mantinha uma ligação bastante íntima, com um padre que lá morava. O padre pregava à bofetada, a “moral” e os “bons costumes”, como director de um colégio feminino.
Durante vários anos fomos ouvindo gritos de desespero e vendo nódoas negras na cara da “criada”. Rapariga de baixa estatura, magríssima de olhar amedrontado, gestos rápidos e nervosos. Estava proibida de falar com os vizinhos.
Certo dia estando eu na minha varanda, vi o padre bater-lhe, baixando-a e esfregar-lhe a cara nas fezes do cão (pastor-alemão de grande porte), pertencendo à dita vivenda.
Durante muito tempo, a pobre jovem serviçal deixou de ser vista, porém, os gritos da senhora e do padre misturavam-se, com altos gemidos. A rapariga tinha dores, tão grandes, como a sua barriga dilatada. Aconteceu talvez três vezes. Quando novamente começava a fazer uma vida “normal de escrava”, dizia para quem a queria ouvir através das grades que muravam a vivenda: -“Fui a Fátima, desta vez não fiz o desmancho, deixei lá o menino, acreditem! Tive mais um filho mas, ele (padre) não me deixa ficar com o bebé.”Chorava muito e ria às gargalhadas!
O tempo foi passando, os filhos saíram de casa, o marido da senhora faleceu muito idoso, talvez com noventa anos, a viúva continuou com a criada e o padre. Homem novo, forte, vermelhusco, ar autoritário, sempre de batina preta.
A senhora presentemente não mora na vivenda. Com mais de oitenta anos continua a ser vista, com aspecto sempre altivo. Vi há pouco tempo a criada, reconheceu-me, com ar envergonhado, cumprimentou-me. Fixei-a, observei-a com espanto e um grande sorriso. Como gostava de ter falado com ela, de cumprimentar aquela senhora de cabelos grisalhos, magra, mal vestida, talvez mais velha do que eu, quatro? cinco anos? Como ela era menina, quando lhe faziam os filhos.
Em 2006 na secção de necrologia do JN, vi a foto do padre. Faleceu no Verão.
Foi enterrado na terra natal, Fátima!

Também por isto, eu voto SIM! No dia 11 de Fevereiro!

Parabéns ao magnífico texto de Victor Nogueira.

GR

filipelamas disse...

Parabéns pela qualidade do blog!