quarta-feira, 17 de agosto de 2005

SOMOS TODOS NETOS DE ABRIL!


O Álvaro regressa ao Portugal que ajudou a libertar

Aos meus filhos:
Ontem adormeci tarde, mas feliz. Descobri "Somos Todos Netos de Abril", uma forma belíssima de narrar o que foi a epopeia da resistência ao fascismo. E a alegria incomensurável da libertação. O autor é o Sérgio Ribeiro - um amigo que desejo muito apresentar-vos -, e o livro tinha sido referido neste blogue pela GR, combatente que infelizmente ainda não conheço. Fiquei feliz porque o livro é um monumento, mais um, na luta contra a tentativa que os senhores do passado tecem para reescrever a história.
Agora vai ser-me mais fácil falar-vos desse tempo absurdo, de medo e sofrimento, que não queremos de novo determinando os destinos das nossas gentes. Mas também da alegria pelas mãos entrelaçadas (mesmo que separadas pelos vidros frios do parlatório fascista) em torno do ideal libertador.
O livro do Sérgio, obra teatral em que um avô conta ao neto o que foi o 25 de Abril, "e o que o antecedeu e o provocou", é aventura, magia, ternura, resistência, carinho, saudade, compromisso, determinação e heroísmo. E acreditem, ao lê-lo pude ver-vos escutando embevecidos o avô Cácá, narrando as aventuras de uma vida pejada de abnegação e coragem.
Sim, os netos devoram enleados os tesouros que a memória dos avós dedicados lhes lega. Também por isso adorava mostrar-vos a representação desta obra ao vivo. Mas porque neste país vai rareando o respeito por Abril e os censores retomaram a actividade, parece que só se muitos lutarmos isso será possível. Prometo-vos que vou tentar. Ah, já me esquecia: a editora é a Som da Tinta

4 comentários:

Sérgio Ribeiro disse...

Obrigado, Pedro.
Este texto teatral foi quase todo escrito no Tarrafal, na passagem do ano de 2002 para 2003. Foi representado, em 2003, 5 vezes - Ourém, Abrantes, Castelo Branco, Bragança, Torre de Moncorvo - por um grupo chamado JCP&VCF, "jovens com passado e velhos com futuro".
Foi uma "aventura" que cada vez sinto mais maravilhosa.
E ler o que escreveste dá-me uma grande alegria porque traduz o que queria que provocasse como reacção em pessoas como tu.
É que o que foi escrito foi mesmo em intenção dos nossos netos, dos meus, dos teus, dos netos dos nossos filhos!

GR disse...

É sem duvida um bonito livro, um depoimento histórico marcante!
Hoje, mais que nunca é importante os nossos jovens, saberem o que foi o fascismo!
Como é também importante que todo o povo português não esqueça a repressão da Ditadura Fascista!

Se hoje podemos fazer tão naturalmente actos banais como; falar, ler, escrever, votar, protestar, antes de 25 de Abril, há 32 anos, era impensável estas “banalidades”!
Para atingirmos a Democracia, homens como o autor deste ensaio (Sérgio Ribeiro), foram barbaramente torturados, nas mãos selvagem de uma polícia política – PIDE.
Pelo bem mais precioso que conquistaram, e nos ofereceram a LIBERDADE! deveremos estar imensamente e reconhecidamente gratos!

Pedro,

Agradeço as suas palavras, sempre amáveis!

GR

Sérgio Ribeiro disse...

Toda a tortura é bárbara!
Tenho, no entanto, algum pudor, eu que fui barbaramente torturado (porque toda a tortura é bárbara), em aceitar que o digam porque logo me lembro de como foram muito mais barbaramente torturados (como se para a barbaridade houvesse gradações...) tantos camaradas, e de como suportaram todas as torturas (nalguns casos até à morte) com se a resistência à tortura fosse natural, fosse um episódio, uma mera consequência da luta. Contra a barbárie. Pela liberdade. Por uma sociedade humanizada.
Obrigado pelas vossas palavras e por me terem obrigados a esta lembrança e homenagem.

Duarte disse...

Já lá vão mais de dez anos, isto desde que nasceram estes comentarios, mas como acabo de chegar, espero que a tempo, quero expressar o que estou, estamos a sentir.
Como já é do conhecimento do Amigo Sérgio, nas Aulas de la Generalitat Valenciana, estamos a ler e a traduzir este magnífico livro do Sergio. A todos gosta, sem excepção, e os comentarios que vão surgindo com a leitura e a tradução agradam-me, e muito. A ideia é acabar a tradução, fazer um livro, se o Sérgio aceita, e depois a obra de teatro, representada aqui, em Valência, em língua espanhola, para que a entendam os assistentes. Estou convencido de que vai ser um êxito, o tema ajuda, e muito, a conseguir esses fins.
A maioria ficam surpreendidos, espantados, pois muito do que escreve o amigo Sérgio aqui não se conhecia. Foi muito o que algum deles passou com outro ditador, mas desconheciam o que estava a passar ao lado.
Um grande abraço e que não decaia nunca esse espirito de divulgação e de boa narrativa.