segunda-feira, 11 de junho de 2007

Pelas crianças



Um professor de música de Armamar foi detido há dias por suspeita de ter abusado sexualmente de crianças com idades entre os cinco e os dez anos. Ouvido no Tribunal da Régua ficou, felizmente, em prisão preventiva. Segundo a comunicação social,A notícia da detenção do professor deixou a população da vila de Armamar em estado de choque. “Era daquelas pessoas por que eu punha a mão no fogo”, desabafou um morador.”

Estas reacções demonstram bem as consequências da inacção governamental na prevenção do abuso sexual. Mesmo tendo acontecido o processo Casa Pia, a generalidade da população desconhece que neste tipo de crimes ninguém pode colocar a “mão no fogo” seja por quem for.

Como assinala ANNA C. Salter no seu livro “PEDOFILIA E OUTRAS AGRESSÕES SEXUAIS”:

"Compre as armas que comprar, dificilmente elas lhe serão úteis. São muito raras as ocasiões em que um criminoso sexual entre furtivamente numa casa durante a noite. É mais frequente ele entrar pela porta da frente durante o dia, como amigo ou vizinho, chefe de um grupo de escuteiros, sacerdote, director de escola, professor, médico ou treinador. Convidamo-los a entrar nas nossas casas repetidas vezes, e damos-lhes autorização para levarem os nossos filhos para o acampamento nocturno, ao jogo do basquetebol ou ao posto do exército de salvação para tomarem parte em actividades para os jovens.

Damos-lhes autorização porque não reconhecemos estes indivíduos como predadores, porque acreditamos que os criminosos sexuais são monstros e certamente não deixaríamos de reconhecer um se o víssemos, pois não? Aquele jovem pastor tão simpático que organiza tantas actividades para jovens, aquele com o sorriso à banda e o cabelo castanho a cair-lhe sobre a testa, aquele que visita os idosos e ajuda os pobres do seu próprio dinheiro – seguramente, não. É impossível que ele seja um molestador de crianças, e que conte já com noventa vítimas apesar de ainda não ter completado os trinta anos. (…) A simpatia é uma arma poderosa ao ponto de ser susceptível de proteger os predadores durante longos períodos de tempo e não obstante um número quase inimaginável de vítimas."

O nosso povo precisa de saber - e sem esse conhecimento as nossas crianças nunca estarão seguras - que é impossível depreender o comportamento em privado a partir da conduta pública dos indivíduos.



8 comentários:

Clara Sottomayor disse...

Explicar à sociedade e aos tribunais que os abusadores são individuos com um comportamento social simpático e correcto, é muito importante.Lembrem-se do acórdão do stj que atenuou a pena do pedófilo de celorico pelo seu bom comportamento social e familiar... acho, pelo contrário,que quem se sabe portar bem socialmente e ao mesmo tempo abusa de crianças, tem ainda mais responsabilidade por isso. O que eu acho estranho é a ignorância dos Tribunais nestas questões!A minha esperança é que as novas gerações de juizes sejam mais esclarecidas.

GR disse...

O processo Casa Pia retirou o véu que escondia um tabu, segredado por uns e desconhecido pela maioria (!).
Pelo protagonismo dos réus, pelo desgaste na informação quantas vezes especulativa, levando a que o cidadão menosprezasse a Vítima em benefício dos arguidos. Porque a moral também pode ser desvirtuada. Muitos órgãos de comunicação social tudo fizeram (fazem) para que isso tenha acontecido. Banalizaram o problema. O que era tabu, pudor, medo tornou-se num tema trivial e porque a população não está esclarecida (nem mesmo alguns Magistrados) os disparates são contínuos. Quando acontecem horrores, como este que aqui colocas ou da criança de Celorico da Beira e tantos outros, as pessoas ficam incrédulas, muito mais quando as conhecem. Tudo desaba!
Pior ainda quando o arguido é da classe média alta ou alta. Convém esconder a cara e o nome. Se for socialmente um desgraçado, todos “por acaso” já desconfiavam!
Ao longo destes anos (desde processo CP), não houve nenhum programa televisivo criado por pedopsiquiatras, psicólogos em suma, técnicos de saúde credenciados e competentes. Não só para esclarecimento dos pais, encarregados de educação, professores, médicos e magistrados, público em geral, como para adolescentes e até (se possível) crianças. Nada se fez!
A culpa? É claro que começa sempre no Governo!
Ao Governo nunca interessou esclarecer…beneficiam mais com o “tabu”!

GR

GR disse...
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GR disse...

«ALMAS CINZENTAS”
Philippe Claudel
Edições Asa (romance) 2004

Um romance denso, útil e belíssimo!
Belos momentos de grande narração poética!

Este romance (para mim) está alicerçado em seis pontos fundamentais.
- Uma Guerra.
- Um homicídio, para esconder abusos sexuais de menores.
- Uma vítima condenada. Injustamente executada.
- Um Procurador, homem poderoso e insuspeito.
- Uma testemunha, silenciada.
- Uma população pobre, fustigada. Alguns com a consciência pesada, com atitudes do passado.

Enquanto lia este livro (reportando-se a 1917), não deixei de fazer um paralelismo, entre a narração e os dias de hoje.
Há no romance um Procurador cruel. Com a conivência de um seu colega, sonegam a verdade.
Procurador = Justiça, símbolo da opulência económica, do poder social. Um poder prepotente capaz das maiores atrocidades, de uma Justiça vingativa, calando a verdade, amedrontando os mais indefesos, ridicularizando testemunhas, humilhando todos aqueles que lutam pela verdade! Basta uma palavra ou um só olhar!

A narração é tão perfeita que incomoda. Entre o romance e o processo Casa Pia, há uma realidade desconcertante!
(os personagens)
Eles sabiam a verdade, quem cometeu o homicídio!
(a nossa população)
Nós sabemos a verdade, quem são os reais arguidos!
Eles sabiam quem os tinha ajudado a ocultar as atrocidades!
Nós sabemos quem os ajudam, a inventar as mentiras!
Ambos, “eles” e “nós” silenciamos, acomodamo-nos, aceitamos, “tem que ser assim”!
Como uma paralisia colectiva, um emudecimento geral.
Sei que há grandes lutadores, a favor das vítimas, mas refiro-me à generalidade da população!

No romance o narrador com a consciência perturbada, tenta abrir o caso, para repor a verdade. É tarde! Tarde demais! Duas décadas passaram.
Deu tempo para esconder muita maldade, calar a verdade, sacrificar inocentes, agrilhoar os poucos que queriam Justiça!
Será, que as nossas Vítimas terão que esperar vinte anos!
A nossa Justiça é lenta e nem sempre justa!
O nosso governo é incompetente, indecente!
Numa só palavra DESUMANO!

(desculpa ter escrito tanto, mas é um romance muito actual)

GR

Alberta Manso disse...

Os lobos com pele de cordeiro espreitam em qualquer floresta.
Temos que estar atentos e não deixar que os nossos capuchinhos vermelhos caiam nas armadilhas.

Bem escolhido o cravo vermelho, símbolo eterno de uma luta empreendida e que irá ser ganha.

Bem hajam Mestre Américo, Pedro Namora e restantes lutadores contra esta chaga da pedofilia.

Mar Arável disse...

CONTINUA - É NOBRE LUTAR COM AMOR-
MESMO QUE SEJA POR CIMA DAS PEDRAS.

mel disse...

olha sou de Armamar,conhecia perfeitamente o autor dos crimes bem como as crianças..acreditem era daquelas pessoas mesmo amigos,super porreira muito brincalhona,sempre pronta ajudar,á cerca de uma semana poderia afirmar mesmo que ele era espectacular,era um grande amigo...é imcompreencivel como se tornou numa pessoa assim...mas apesar de ja o tr considerado um amigo agora acho que deve pagar bem caro por aquilo que fez..nenhuma criança tem o direito de se sujeitar a actos nojentos e imorais..e como dizes aí ele tem mais responsabilidades porque era conhecido por toda a gente,era muito sociavel, e sem duvida toda a gente que o conhecia inclusive eu ponha as maos no fogo por ele, mas prontos ele ja confessou e decrto que ira apanhar uns valentes aninhos a ver o sol aos quadadrinhos o que havia de ser aplicado a todos os pedofilos...
fica bem

Alexandra Caracol disse...

Vim aqui parar por acaso e achei muito interessantes os temas tratados.

Em especial este tema toca-me pois como podem reparar em

http://violada_mas_nao_vencida.blogs.sapo.pt/49001.html

e

http://www.alexandracaracol.com/ficheiros/Revista%20Sabado.PDF

eu conheço de perto o horror das vítimas de abusos sexuais.

Normalmente o abusador é aquele que menos aparenta ser.

Infelizmente ainda se julga pela aparência e as penas são injustamente dadas de acordo com a posição social do abusador e sua aparência.

Será que a vítima do abusador sem posição de destaque na sociedade não sofre tanto como aquela que foi abusada por um "desconhecido"?

Porque se preocupam tanto com os direitos dos abusadores e se deixa as vítimas ao "abandono"?

Por muito que eu apele para o bom senso, e seja contra a vingança devo confessar que é revoltante a forma como grande parte deste casos de abusos são tratados tanto pela sociedade e opinião publica como pelas as instituições competentes para tratar destes assuntos.

Bem hajam

Alexandra Caracol