segunda-feira, 25 de junho de 2007

A lógica da sarjeta

Os senhores deputados do PS aprovaram esta semana o Estatuto do Jornalista. Sozinhos. Está assim completo o processo de cerco, pressão, ameaça e castigo a quem se portar mal no mundo da Comunicação Social. Num gesto de extrema boa vontade, os senhores que neste momento representam os interesses do senhor presidente do Conselho no Parlamento retiraram do diploma as coimas para quem não siga a cartilha imposta pelo poder para se escreverem notícias, grandes ou pequenas, reportagens, entrevistas, crónicas ou outra matéria qualquer.

Uma caridadezinha de um poder cobarde para comprar uma classe que por actos, omissões, silêncios, preconceitos e ideologia permitiu que um Governo de esquerda desferisse um dos mais graves golpes na sua autonomia e liberdade.


A procissão, obviamente, ainda não saiu da igreja. Mas os exemplos já estão aí, bem à vista, e não vale a pena esconder nada debaixo da areia. Verdade se diga que este Governo de esquerda não tem sequer a preocupação de esconder o rabo, como na velha história do gato. É tudo transparente, com avisos prévios, muitos, e declarações públicas que já eram sentenças transitadas em julgado para os que ainda pensavam resistir ao medo de ficar sem emprego, às pressões económicas, à autocensura e à propaganda socialista.

O Estatuto do Jornalista, como afirmou a este jornal o senhor ministro da Comunicação Social, é a cereja em cima do bolo da repressão ao jornalismo incómodo para o poder socialista, ao jornalismo de sarjeta, como na altura o classificou Augusto Santos Silva. Não foi por falta de avisos que a classe nada fez, para além de alguns gemidos e gritinhos de indignação. E enquanto não chegam os primeiros castigos aplicados pela inenarrável Comissão da Carteira e pelos coronéis da democracia socialista em curso, o poder, mais concretamente o senhor presidente do Conselho, decidiu pôr um processo ao titular de um blogue que desde 2005 questiona a licenciatura de José Sócrates na Universidade Independente.

É evidente que o mundo da blogosfera é vasto e ninguém acredita que a senha persecutória chegue a esse espaço de liberdade, cheio de defeitos e virtudes. Mas o aviso está lançado. Para já começa-se por um simples professor, sem peso político, anónimo até há pouco tempo. Mais tarde chegará a vez de outras vozes, mais mediáticas, mais incómodas, mais poderosas. É tudo uma questão de tempo e de oportunidade.

A liberdade começa a ser uma ficção neste sítio cada vez mais mal frequentado e cada vez mais perigoso para os que teimam em resistir.

António Ribeiro Ferreira, Jornalista

5 comentários:

GR disse...

(Na SIC)
Sobre este assunto dizia Mário Crespo: “…a situação é perigosa. Os jovens jornalistas, já nem sindicalizados são. Muitos por medo! Como poderemos continuar a escrever, sem a garantia do sigilo profissional?...”
Odete Santos indignava-se com Estatuto do Jornalista aprovado pelo PS, dizendo;”no tempo do fascismo havia o lápis azul. Agora, não riscam! Pedem ao jornalista para alterar o texto, caso contrário, não o editam! Considero esta CENSURA, muito pior!”
Sobre o Blog do professor constituído arguido, é também uma forma de censura? Apreensivo, perguntava afirmativamente Mário Crespo.
Odete Santos corroborava com a mesma preocupação. Indignava-se perante o estatuto de arguido atribuído ao professor do Blog do Portugal Profundo; “Não conhecia. Dei uma vista de olhos pelo blog e não vi nada de mais, para além de FACTOS. Não há matéria para o condenar”!

Se os profissionais da SIC, temem!
A censura está a chegar, com todos os seus perigos!

GR

leprechaun disse...

Neste artigo é que não há mesmo nada a apontar!!!

Inteirissimamente de acordo, se bem que nada disto até possa constituir surpresa de maior, face aos indícios que já se vinham acumulando e às intervenções... ou pressões!... directas do governo nos órgãos de comunicação.

Estranhíssimo é o facto de o alarido que o caso Marcelo/TVI outrora provocou - e que me parece de gravidade bem inferior, diga-se! - não ter, nem de longe, a mesma repercussão que os sucessivos atropelos do governo pseudo-socialista deveriam merecer por parte da mesma imprensa que assim se vai vendo cerceada de algumas liberdades fundamentais!

Lá há um ou outro que tuge e muge, mas muito de mansinho e fazendo poucas ondas, como se por descargo de consciência e pouco mais.

Em conclusão, parece que a informação livre e sem peias está cada vez mais confinada ao espaço cibernético, esse tão mal amado... e ignorado!... daqueles que bem podem ter motivos para o temer, até porque a Net é utilizada por uma faixa da população mais culta e que não se deixa ludibriar com duas tretas.

Por fim, este tipo de medidas reflecte o simples medo da verdade e o consequente desejo de controlar as consciências, algo sempre impossível mas tentador para os pusilânimes que se querem fazer passar por corajosos.

Mais um tiro pela culatra cujos efeitos nem devem tardar muito. É que "quem com ferro mata com ferro morre" e o funeral dos governos fracos e sem rumo nunca se faz tardar!

Anónimo disse...

O sr. António Ribeiro Ferreira não me merece qualquer credibilidade.
Ainda me lembro do editorial do DN, de sua autoria, no início da guerra do Iraque, em que classificou o sr. G. W. Bush como "notável homem de paz", entre outras "pérolas jornalísticas" do mesmo género.
Leia-se o que tem escrito no seu blog, com insultos a tudo que cheire a esquerda e liberdade de opinião e manifestação.
Roberto

Victor Nogueira disse...

Também transcrevi este texto, mas com uma nota final que reproduzo
NOTA - Liberdade de informação é o que não existe na esmagadora maioria dos jornais portugueses, diários, semanários, nacionais ou regionais, cada vez mais sujeitos a serem a voz do dono, quer este seja o poder das classes dominantes, quer seja o da Santa Igreja Católica, Apostólica e Romana. E o poder político está dependente e ao serviço das Classes dominantes. Elementar, meu caro Watson, perdão, meu caro Ferreira. Quanto a apelidar de esquerda o Governo PS/Sócrates, o mais à direita desde o 25 de Abril, só demonstra, «distração», ignorância ou má fé, para abrir ou aplanar caminho ao irmão gémeo PSD.
VN

Eduardo Pereira disse...

Pois...