sexta-feira, 22 de dezembro de 2006

Ferreira Gullar



Traduzir-se


Uma parte de mim é todo mundo,

outra parte é ninguém, fundo sem fundo.

Uma parte de mim é multidão,

outra parte estranheza e solidão.

Uma parte de mim pesa e pondera,

outra parte delira.

Uma parte de mim almoça e janta,

outra parte se espanta.

Uma parte de mim é permanente,

outra parte se sabe de repente.

Uma parte de mim é só vertigem,

outra parte linguagem.

Traduzir uma parte na outra parte

- que é uma questão de vida e morte -

Será arte?

1 comentário:

GR disse...

Não conhecia este poema.
Há um nítido inconformismo no poeta.
Ou talvez uma reflexão, no interior de muitos de nós!
Um bom poema, para meditar.
Como sempre, uma boa escolha!

Bjs,

GR