segunda-feira, 9 de janeiro de 2006

Às Mulheres


"Hoje, como ontem, como sempre, levantou-se ainda o Sol não tinha nascido. Adiantou o jantar, tirou roupa da máquina de lavar, sempre a correr sem parar. Arrumou as roupas, preparou o pequeno-almoço para o marido e os filhos, um beijo rápido de despedida aos meninos. Mete na sacola um pão duro p’ra almoçar e em jejum corre porta fora, até à paragem mais próxima! Num gesto diário e automático pica o cartão, veste a bata, colocando-se frente à pesada e barulhenta máquina. O pó dos fios das lãs, enchem-na de cabelos brancos! Os pulmões ficam obstruídos! Corre sem parar, o encarregado está sempre a olhar! Almoça rapidamente, comendo a sandes do resto do jantar de ontem, faz tricote para vender, sempre é mais algum que entra no parco ordenado que recebe, trezentos e vinte euros é muito pouco, para as oito horas de tanto trabalho.
Transporta pesados tabuleiros. De passo acelerado, percorre longos corredores até à tinturaria. Como a fábrica é fria! Pica o cartão, correndo até ao transporte que está de partida! Chega a casa, beija os filhos. O marido sentado, há tanto desempregado, pede-lhe o jantar! Vai passando a ferro, vê os cadernos escolares, ajuda as crianças no banho, deitando-as na cama sem histórias p’ra contar! Coloca a roupa na máquina de lavar, arruma outras prontas para utilizar, o marido aborrecido manda-a para a cama, só para a usar! Grita-lhe mais alto, ela vai, não pode evitar!
Devagar levanta-se, vai até à sala, desvia a cortina encosta a cara no vidro frio da janela. Afasta as lágrimas, olha para o céu, pede a uma estrela que a venha buscar!Hoje, lembrei-me dela, não tem nome, nem rosto, nem querer, nem sonhos, nem amor!
Ela!
Sei que trabalha, corre, trabalha, tem filhos, trabalha, tem homem que a usa sem desejo, é o hábito de querer! Hoje, lembrei-me dela! Operária, mãe, sacrificada, amargurada, pobre, violentada, doente, explorada, esquecida, maltratada! Hoje saúdo a Operária, a MULHER!
No Mundo:
•Uma em cada três mulheres foram espancadas, forçadas a ter relações sexuais ou abusadas, nas suas vidas;
•51% da população mundial infectada com HIV/SIDA são mulheres;
•70% das mulheres vítimas de assassínio foram mortas pelo seu parceiro.
Em Portugal, Os dados conhecidos em relação à violência doméstica, referem: •85% das vítimas são mulheres;
•85% dos crimes são contra a integridade física;
•89% dos crimes são cometidos pelo cônjuge ou pelo companheiro.
(DIF/CGTP-IN)"
(O texto é da Guida Rodrigues, o quadro, "Cansada", é de Hebert Román. Obrigado a ambos.)

1 comentário:

GR disse...

Hoje infelizmente, podemos dedicar esta belíssima pintura e o modesto texto, às 369 Operárias da fábrica Ecco (Stª Maria da Feira), que irão ficar desempregadas!

UM beijo sempre solidário,

GR