sexta-feira, 4 de março de 2011

UM PARTIDO DIFERENTE


Comemoramos o 90.º aniversário do PCP. Em luta, como é próprio de um partido que fez das suas nove décadas de existência um tempo de luta constante, travada em todas as circunstâncias e enfrentando todos os obstáculos – assim se afirmando como um caso ímpar no quadro partidário nacional.

Na verdade, com a fundação, em 6 de Março de 1921, do Partido Comunista Português – correspondendo a uma necessidade histórica da sociedade portuguesa – nascia um partido de novo tipo, com características específicas, diferente de todos os existentes à altura.

Diferente, desde logo, pelo seu objectivo supremo – a construção de uma sociedade sem exploradores nem explorados, a sociedade socialista e comunista – e, por isso mesmo, diferente no assumir das exigências que tão ambicioso objectivo comporta.

Diferente, sempre, na prática e na postura em todos os momentos e situações – e de forma inequívoca quando, face à ordem salazarista de dissolução de todos os partidos políticos, foi o único a dizer «não» e a optar pela resistência ao fascismo, vindo a sagrar-se como o grande partido da resistência e da unidade antifascistas.

Diferente quando, no tempo novo de Abril, foi força motriz do processo revolucionário que, com as suas grandes conquistas, viria a transformar profunda e positivamente a realidade nacional.
Diferente – nestes 35 anos de contra-revolução – na sua postura face à política de direita: no seu empenho na mobilização para a luta pela ruptura e por um novo rumo para Portugal; na apresentação de propostas visando combater as consequências dessa política de desastre nacional nas condições de trabalho e de vida da imensa maioria dos portugueses; na sua intervenção em defesa da soberania e da independência nacionais; na luta por uma democracia avançada inspirada nos valores e nos ideais de Abril.

E se sublinhar esta diferença é sempre importante – mais ainda o é quando, como acontece actualmente, se desenvolve uma intensa operação visando a aceitação da ideia de que «os partidos são todos iguais», com isso se pretendendo ocultar a singularidade do PCP, o facto por demais evidente de ele ser, como os seus 90 anos de vida e de luta mostram, um partido diferente dos que são todos iguais.
Comemoramos o 90.º aniversário do PCP num tempo em que aos militantes comunistas se coloca um conjunto de importantes e incontornáveis tarefas, respeitantes quer à necessidade de dar resposta firme à política de direita e aos danos que provoca aos trabalhadores, ao povo e ao País; quer no que respeita à necessidade de reforço do Partido da classe operária e de todos os trabalhadores.

Num tempo, também, em que, como a experiência tem vindo a demonstrar, a luta organizada dos trabalhadores se apresenta como o único caminho para dar a volta a isto e para construir a mudança.
Às importantes e poderosas lutas dos últimos meses – das quais emerge como momento maior a histórica Greve Geral de 24 de Novembro, erguida por mais de três milhões de trabalhadores – há que dar a continuidade necessária, prosseguindo-as, intensificando-as e atraindo a elas novos segmentos das massas trabalhadoras, de modo a torná-las mais eficazes com vista à concretização dos objectivos desejados.

Nesse sentido, é fundamental fazer da jornada de luta de 19 de Março uma muito grande manifestação, fazendo desse dia o dia da indignação e do protesto, da convergência de todos os descontentamentos e insatisfações, da exigência de mudança e de um novo rumo para Portugal – uma muito grande manifestação que será possível com um intenso e amplo trabalho preparatório, esclarecendo e mobilizando os trabalhadores e as populações, demonstrando-lhes que, ao contrário do que dizem os propagandistas do grande capital, a luta não só vale a pena como é indispensável para travar o declínio e o afundamento do País.

E hoje, como ao longo dos últimos noventa anos, os militantes comunistas ocupam a primeira fila da luta – com isso marcando a diferença em relação a todos os outros partidos.

Comemoramos o 90.º aniversário do PCP no momento em que o nosso grande colectivo partidário leva por diante a importante acção «Avante! Por um PCP mais forte!», visando o reforço orgânico, interventivo e ideológico do Partido. Com a consciência de que quanto mais forte for o Partido, mais forte será a luta – da mesma forma que o reforço da luta conduz ao reforço do Partido.

E o Partido reforça-se juntando mais e mais militantes ao nosso grande colectivo partidário – designadamente jovens militantes; ampliando e tornando mais estreita a sua ligação às massas – reforçando as células já existentes nas empresas e locais de trabalho e criando-as ali onde elas não existem; assegurando a actividade dos organismos partidários, no quadro do seu funcionamento democrático e do trabalho colectivo; elevando a consciência política e ideológica dos militantes e dos quadros; dando continuidade à luta levada a cabo por sucessivas gerações de comunistas ao longo das últimas nove décadas e que, no momento actual, tem como objectivo primeiro pôr fim à política de direita e construir a alternativa, sempre tendo no horizonte o socialismo e o comunismo – enfim, afirmando e defendendo a identidade comunista do Partido, sua fonte de força essencial e sua marca distintiva.

Muitas são as razões para nos sentirmos orgulhosos por estes noventa anos de vida e de luta que agora comemoramos – e para assumirmos o compromisso de, honrando o exemplo das gerações de comunistas que nos antecederam, sermos seus dignos continuadores.

José Casanova, in Avante! de 3 de Março de 2011



quarta-feira, 2 de março de 2011

Historiadores?

Estado Novo foi o rótulo que o fascismo escolheu para esconder as suas actividades criminosas. Que, em democracia, tal expressão mentirosa e laudatória da ditadura fascista seja empregue pela generalidade dos historiadores, diz bem do estado a que chegou a bicharada que tanto gosta de se declarar imparcial.

Há-de ser essa imparcialidade que leva os historiadores que escrevem sobre o fascismo – que piamente perdoarão a minha incapacidade de chamar novo ao Estado velho do terror Salazarista – a constantemente escamotear e deturpar o papel do PCP durante esses anos.

Tarrafal? Chamem aí a Irene Pimentel que tratará do assunto e de forma versátil: fidedigno só o Edmundo Pedro e os arquivos da Fundação Soares, pois então. Mais o Fernando Rosas. E se alguma dúvida for levantada sobre algo, a Pimentel não hesitará em recorrer a um qualquer enfermeiro informador da pide para garantir que não, o PCP não tem razão.

Militão Ribeiro, assassinado no EPL? A Pimentel convocada não deixará de assegurar que no PCP isso foi polémico, porque se falou em suicídio. Mesmo que o Avante! da época a desminta, Irene persistirá na sua. Porque a anima um ódio visceral ao PCP, familiar de ódio similar de Pacheco Pereira e Fernando Rosas e tantos outros.


sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Mártires caídos na luta

Como se assinala no magnífico livro das edições Avante! que comemora o 60º aniversário do PCP:

"Dezenas de militantes comunistas, homens e mulheres filhos do povo trabalhador, intelectuais e artistas, caíram na luta assassinados pela ditadura fascista. Lutaram pela defesa dos interesses da classe operária e de todo o povo. Lutaram contra a opressão e o terror e pela liberdade de todos os portugueses. Mártires antifascistas. Legaram-nos sementes de liberdade. O seu exemplo e o seu sacríficio jamais serão esquecidos."

Destaco hoje Militão Ribeiro, através de um texto de José Dias Coelho, também assassinado pela pide:

"Militão Bessa Ribeiro, preso juntamente com Álvaro Cunhal em 25 de Março de 1949 (a sua quarta prisão) já se encontrava então com a saúde muito abalada por longos anos de prisão e duas deportações no Campo de Concentração do Tarrafal. O rigoroso regime prisional, a alimentação imprópria e a falta de tratamento começaram por agravar-lhe os padecimentos. Esteve semanas inteiras sem evacuar, sendo-lhe inclusivamente recusado um clister. Cada vez mais abatido, acabou por adoecer gravemente e resolveu fazer a greve da fome como protesto contra a falta de assistência médica e de uma dieta adequada.
Foi mudado para uma cela da enfermaria da penitenciária, mas a situação manteve-se praticamente a mesma, no mais rigoroso isolamento, sem visitas da família nem mesmo correspondência. Um doloroso calvário de padecimentos físicos e grandes perturbações nervosas fazia-lhe por vezes soçobrar a razão, mas não lhe roubou nunca o entranhado amor ao Partido e ao Povo, nem a confiança num futuro melhor, que já não partilharia.

Durante a greve de fome passava as noites a cantar uma canção revolucionária que então inventou: "Avante! Avante!/Não podemos parar/Nem recuar na luta..."
A voz quebrada e rouca ressoava estranhamente lúgubre no silêncio sepulcral das alas da Penitenciária. Na escuridão apenas os postigos iluminados das quatro celas afastadas ao longo do interminável corredor, quatro vigílias e aquela voz esgotada, numa mensagem de angústia.
Até às vésperas da morte, Militão manteve a preocupação de comunicar ao Partido a sua fidelidade e confiança. Escreveu várias cartas à Direcção do Partido, que foram interceptadas pelos carcereiros, só tendo chegado duas ao seu destino, uma das quais escrita com o seu próprio sangue.
A PIDE assassinou-o cruelmente, um crime lento, dos que não deixam vestígios. Militão morreu de inanição em 2 de Fevereiro de 1950."
                                            José Dias Coelho, A Resistência em Portugal.

domingo, 23 de janeiro de 2011

EU VOTO FRANCISCO LOPES


Amanhã, o nosso candidato vai submeter-se a sufrágio. Julgo que das pessoas sérias nenhuma contestará a verdade elementar: Francisco Lopes fez uma campanha fenomenal. Falou verdade, como é timbre do PCP, e com a legitimidade dos que sempre lutaram contra os ladrões que nos desgovernam e têm desgovernado, apontou os responsáveis pelo estábulo em que nos encerraram. E a solução para mudar este estado de coisas.

Pessoalmente, sinto-me honrado e orgulhoso pelo desempenho do Francisco Lopes e de todo o colectivo partidário. Mais orgulhoso ainda por constatar que esta campanha, feita por homens e mulheres – apetece-me evocar uma parte de O Caminho das Aves em que se descreve a chegada de pessoas para dizer os nomes todos – chegou a muita gente honrada que, com filiação partidária diferente decidiu apoiar o nosso candidato. Obrigado, por todos, à Isabel e ao pai…

Mas, queridos amigos e sobretudo, camaradas, não nos iludamos: estas eleições não são livres, nem democráticas. Formalmente, concerteza. Mas na substância, o tratamento que a comunicação social deu às diferentes candidaturas apenas reiterou o que têm sido as antecedentes disputas eleitorais. Todo o tempo de antena para favorecer e consolidar a bipolarização. Toda a discriminação, ódio e perseguição à candidatura comunista.

Para mim, a disputa eleitoral é apenas mais uma frente de luta e nem sequer a mais importante. O eleitorado está envenenado por anos de políticas executadas por ladrões diplomados e tende a considerar todos iguais. Embora de forma boçal e masoquista continue a votar sempre nos mesmos.

Não tenho dúvidas quanto à impossibilidade de eleições justas e democráticas em Portugal. Se não fosse a magnífica campanha que desenvolvemos, em que cada voto conquistado custa imensamente mais do que aos outros, talvez obtivéssemos um resultado eleitoral desagradável. Por isso considero tão importantes termos a noção do terreno em que nos movemos: movediço, liderado por ladrões e mafiosos do pior, que usam a política para mascarar os seus propósitos criminosos. Ladrões, traficantes de droga, pedófilos, eis o grosso da manada, habilitada sem dúvida a perorar longamente sobre os excelsos princípios democráticos.

Mas no fundo, se pudessem, o que não nos fariam. Considero que já ganhámos: o nosso Francisco Lopes, que conheço como honrado combatente há mais de trinta anos, foi um mensageiro excelente das nossas propostas e da crítica frontal que fazemos aos vendilhões da pátria.

Por isso, independentemente de percentagens redutoras, ou talvez por elas, deixo aqui a minha saudação:
Viva o candidato Francisco Lopes!
Viva o Partido Comunista Português!

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Obrigado, CUBA!



O Dr. Marcus Dutra, médico brasileiro licenciado na Escuela Latinoamericana de Medicina (ELAM), a prestar serviço numa comunidade indígena chamada Nabasanuka, na Venezuela, escreveu o seguinte comentário, que é importante partilhar porque ilumina a dimensão humanista da Revolução Cubana

Arleen querida,
No había visto el texto que escribiste por Cubadebate, gracias por las palabras que me dedicas. Seguro que si no fuera por la Revolución cubana y la Revolución bolivariana jamás sería posible nada de eso. Y qué casualidad que me hayas enviado el correo hoy; ayer por la noche, a las 4 de la mañana en punto, yo había realizado un parto a una señora con eclampsia, convulsionó, le apliqué todo el tratamiento y las medidas en lo posible, pues yo no cuento aquí con todos los recursos de un hospital, ni tenía tiempo para trasladarla a otro centro porque era de madrugada.

La lancha del ambulatorio no tenía una sola gota de gasolina, y ya ella había empezado a parir. El hecho es que después de todo el estrés de la situación, donde era posible que ella no viviera, bueno, al final nació bien el niño, un varón, gordito. La madre comenzó a mejorar, estuve toda la noche a su lado, pendiente de cualquier cosa. Ella se mejoró, no convulsionó, la presión se normalizó, ya no tenía dolor, estaba tranquila, el medicamento iba bajando lentamente junto al suero… Todo se calmó.

Cuando ella se durmió y yo pude salir afuera a tomar aire, eran como dije las 4 de la mañana. Caminé por el pequeño muelle que hay frente al ambulatorio, hecho de tablas semipodridas, un silencio tomaba cuenta de la comunidad, algunas casitas con las luces prendidas brillando solo lo suficiente que permiten las velas, un perro acostado sobre las tablas, y el silencio profundo de todo ese pueblo. No podia dejar de sentirme feliz por haber ayudado a la madre y a su hijo. Un orgullo sano tomó cuenta de mi alma, y al sentir eso no podia dejar de preguntar:
 
coño, ¿sabrá Fidel la exacta dimensión del bien que ha hecho a la humanidad? ¿Acaso imaginará que en una pequeñísima comunidad del estado más pobre de Venezuela frente al Orinoco, a las 4 de la mañana hay un médico hijo de la ELAM salvando a la gente que había sido olvidada por todos? ¿Podrá él comprender cuánto lo necesitan, cuánto se necesitan hombres como él para hacer la felicidad de los seres humanos? ¿Entenderá que no hay palabras suficientes para calificarlo? Y acaso, ¿sabrá el niño algún día que si no fuera por Fidel Castro él mismo no tendría vida?

Es decir, sin Revolución no habría ELAM, sin ELAM yo no habría sido medico, y si yo no estuviera acá, en el momento que convulsionó la madre y hubiera actuado a tiempo el niño probablemente iba a morir, o quizás la madre. Fue entonces, Arleen, que sentí más que nunca el orgullo de todos los internacionalistas cubanos, los que partieron a Argelia en el 60, los que fueron al Congo, los que estuvieron con el Che en Bolivia, los que pelearon en Angola, y sentí un frío en la barriga, Arleen, cuando me enteré de que ahora yo soy un internacionalista cubano también… un soldado, un revolucionario, a la orden de la Revolución cubana, y de este increíble gigante, Fidel Castro.

Si algo no se entiende de esto que escribo de manera apurada, es que el deseo de compartir eso contigo es muy fuerte, y no puedo dejar para después. Además ya tocan a la puerta, llamando por el médico, parece que viene un niño con deshidratación. Tengo que ir. Cuídate mucho por allá, gracias por las palabras tan bellas,  y sí, claro que puedes compartir mi correo, no hay problema, un beso grande.
 
Marcus

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Mário Castrim - Poemas do Avante!



Ser comunista, hoje

Esperança:
é a maneira
como o futuro fala
ao nosso ouvido.
Depois
há que saber
organiza-lo.
Então
os comunistas entram em acção.


Versos muito pessoais

III

És livre?
Isto é:
quem amas?

IV

Realizo-me no acto de pagar
as quotas do Partido.
Não tem nada de heróico.
Nada mais natural
como beijar o filho
na hora de deitar.

V

Leio
o AVANTE!
devagar
e com toda a atenção
como se o escrevesse.

domingo, 16 de janeiro de 2011

DESAFIO


Não afianço que a solução
ideal
para a Humanidade
fosse aquela da URSS
(aliás nunca pensei
que fosse o ideal
embora não andasse
longe de o pensar
e paguei caro
pela avaliação
que depois fiz de mim)

Portanto, não digo.
Mas digo que
com todos os erros
e todos os desvios
(e até se quiserem
alguns crimes)
jamais houve na História
sistema que estivesse
mais perto da justiça.
Achas que não?
Então diz-me qual foi.
Mas diz.
Não abanes apenas a cabeça.

Mário Castrim, in Poemas do Avante!

A SEITA GUINCHA!


Prometi que não escrevia sobre isto. Prometi, mas apesar de fazer um esforço para me conter, não consigo cumprir. O assassinato de Castro – que em vida sempre considerei um ser desprezível - forneceu à seita pedófila a oportunidade para, de forma repugnante, esgrimir os mesmos argumentos que usara contra as vítimas do designado Processo Casa Pia.
Ratazanas abjectas, guinchando impropérios contra o homicida, cada um deles exigindo a punição mais severa do que o antecedente e esforçando-se por demonstrar que o jovem é o único responsável pelo que sucedeu.
Assim se entende a posição que durante anos assumiram em defesa dos arguidos condenados por abuso sexual de crianças. No fundo, nem se suportam, mas estão amarrados, uns aos outros, pelo conhecimento recíproco dos abusos que cometeram e continuam a perpetrar e pela detenção de meios de prova que usam como elemento de obtenção de preeminências e mordomias.   
E muitos deles estarão certamente aliviados: afinal, vivências idênticas, muitas consubstanciando crimes de abuso sexual de crianças, poderiam ter tido o mesmo desfecho. Talvez os portugueses percebam que o mundo cor-de-rosa que lhes é servido se funda em excrementos perfumados, bem vestidos e idolatrados, mas sem pinga de dignidade ou princípios. 

sábado, 15 de janeiro de 2011

As mãos do cartaz

Pedindo desculpa pelo asco que a mera visão do símbolo abaixo por certo provocará em quantos, como eu, considerem a respectiva agremiação um pérfido clube de traidores, gostaria de saber de quem é a autoria do poema que encontrei no blogue Aldeia Olímpica.




As mãos do cartaz


São mãos apertadas
Cruzadas
Tratadas
Gravadas
Na grelha.
São mãos bajulantes
Pedantes
Tratantes
São mãos de Gonelha.
São mãos de verniz
De gente feliz
Que pousa pra telas.
São mãos de água e sal
São mãos de cristal
São mãos amarelas.
São mãos de pecebe
De quem nunca teve
Canseiras nem lidas.
São mãos indolentes
São mãos repelentes
São mãos corrompidas.
São mãos que recebem
Que esmolam
Que pedem
Favores do patrão.
São mãos ordinárias
De chulos de párias
Do povo é que não.
São mãos de labregos
São mãos de carrego
De jóias brilhantes.
São mãos de vadio
De gente sem brio
São mãos de moinantes.
São mãos de perfume
São lepra são estrume
Do pão da intriga.
São mãos de arrivistas
Tartufos golpistas
De faca na liga.
São mãos desenhadas
Limpinhas peladas
Limadas sem dor.
São mãos ascorosas
Cheirosas vaidosas
São mãos de estupor.
São mãos de melaço
De por ao regaço
Na hora do chá.
São mãos de canalha
São mãos de navalha
Como outras não há.
São mãos de algodão
Veludo aldrabão
Tecido incapaz.
São mãos da traição
E da corrupção
As mãos do cartaz.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Não surpreende



É um facto que o comício da candidatura de Francisco Lopes, no Porto, foi a maior iniciativa de massas até agora realizada por qualquer das candidaturas, no âmbito da pré-campanha e da campanha das presidenciais.
Que esse facto, incontestável, não tenha sido assinalado em nenhum jornal diário, não surpreende, antes confirma a prática dos média dominantes em relação a tudo o que se relaciona com esta candidatura: foi assim na pré-campanha, assim será na campanha – e na noite das eleições e nos dias que se lhe seguirão…

E no entanto, se quisessem cumprir o seu papel de órgãos de informação, eles tinham muito que informar acerca desta candidatura e do que a distingue de todas as outras.
Por exemplo: que outro candidato, além de Francisco Lopes, pode dizer – dizendo a verdade – que a sua candidatura nasceu da luta das massas trabalhadoras contra a política de direita e que nela não há lugar para qualquer comprometimento com a política de direita?; que outro candidato, além de Francisco Lopes, pode dizer – dizendo a verdade – que a sua candidatura é patriótica e de esquerda e tem nos valores e nos ideais de Abril uma referência fundamental?; que outro candidato, além de Francisco Lopes, pode dizer – dizendo a verdade – que a sua candidatura tomou «a posição necessária e corajosa» de dizer «não» ao OE de flagelação dos interesses dos trabalhadores, do povo e do País?; que outro candidato, além de Francisco Lopes, pode dizer – dizendo a verdade – que assume um compromisso claro quanto ao futuro: ruptura e mudança de política e afirmação de uma alternativa e de um novo rumo para Portugal?

Trata-se, como se vê, de diferenças que espelham as singularidades desta candidatura, os seus traços distintivos em relação a qualquer das outras – enfim, diferenças que, em princípio, seriam notícia...

Mas não. O que não surpreende, sendo os jornais de quem são...
E já agora acrescento uma outra característica única nesta candidatura: no dia 24 de Janeiro e seguintes, seja qual for o resultado eleitoral que tiver obtido, ela vai continuar na luta ao lado dos trabalhadores.
Porque a luta continua – o que também não surpreende...

José Casanova, in Avante! de 13 de Janeiro de 2011

Como é digna a diplomacia de um país revolucionário


                             Réplica del Ministro de Relaciones Exteriores de Cuba, Bruno Rodríguez, a los Estados Unidos y la Unión Europea en la sesión de la Asamblea General bajo el tema “Necesidad de poner fin el bloqueo económico, comercial y financiero impuesto por los Estados Unidos de América contra Cuba”. Nueva York, 26 de octubre del 2010.

Señor Presidente:

Agradezco mucho sus palabras a los trece oradores y a las delegaciones presentes en esta imprevista sesión vespertina.

Sobre lo dicho por Estados Unidos y la Unión Europea:

Esta es la décimo novena ocasión en que la delegación de Estados Unidos nos repite lo mismo.
El bloqueo es un acto de guerra económica y un acto de genocidio. ¿Será que el Departamento de Estado no ha hecho la tarea, no ha estudiado el asunto? El año pasado leí aquí los artículos de las Convenciones correspondientes.  Leo otra vez:
“Artículo II: (…) Se entiende por genocidio cualquiera de los actos mencionados a continuación:
“Inciso b) Lesión grave a la integridad física o mental de los miembros del grupo;
“Inciso c) Sometimiento intencional del grupo a condiciones de existencia que hayan de acarrear su destrucción física total o parcial.”

Ya leí hoy aquí el famoso Memorandum del señor Mallory.
No son “argumentos ideológicos” del pasado. El bloqueo es un viejo témpano que queda de la Guerra Fría. El asunto no es la retórica, sino el acto de agresión a Cuba.
El propósito de Estados Unidos no es ayudar  ni apoyar al pueblo cubano. Se sabe que el bloqueo provoca privaciones y sufrimientos. No provoca muertes porque la Revolución cubana lo impide. ¿Cómo podría explicarse que se castigue a los niños cubanos como se ha descrito aquí? Si se quisiera ayudar o apoyar al pueblo cubano, lo único que habría que hacer es levantar el bloqueo de inmediato.

¿Por qué impiden a los norteamericanos visitar Cuba y recibir información de primera mano? ¿Por qué restringen los llamados contactos “pueblo a pueblo”? Los pretextos para el bloqueo han ido cambiando. Primero la supuesta  pertenencia al eje sino-soviético, después la llamada exportación de la Revolución a América Latina, luego la presencia de tropas cubanas en África para ayudar a derrotar al apartheid, a preservar la independencia de Angola y lograr la de Namibia.

Después, la manipulación sobre los derechos humanos. Pero el bloqueo es una violación brutal de los derechos humanos de los cubanos. Estamos dispuestos a discutir sobre violaciones de derechos humanos. Podemos empezar por el campo de concentración de Guantánamo, donde se tortura y no existe el hábeas corpus. Es el reino de las “Comisiones Militares”, fuera del Estado de derecho. ¿Podría la delegación norteamericana explicar qué pasó en los campos de Abu Ghraib, Bagram y Nama?

¿Se instruyó cargos a los responsables? ¿Se instruyó de cargos a quienes autorizaron en los gobiernos europeos las cárceles secretas en Europa y los vuelos secretos de la CIA con personas secuestradas? ¿Podría aclararlo el representante de la Unión Europea?
Podemos hablar de Wikileaks. ¿por qué no nos cuentan algo sobre las atrocidades que recogen los 75 mil documentos sobre crímenes en Afganistán y los 400 mil sobre Iraq?



¿Qué pueden decirnos sobre las ejecuciones extrajudiciales que proclamó Bush en su famoso discurso del “Estado de la Unión” del 2003 bajo el aplauso del Congreso? ¿Qué ha hecho el actual gobierno con los responsables? ¿Acaso el Comando Conjunto de Operaciones Especiales fue disuelto? ¿Las órdenes y autorizaciones ejecutivas fueron revocadas o están en vigor? ¿Es verdad que el Jefe de ese Comando, el General McChrystal, reportaba directamente al vicepresidente Cheney? Podemos discutir también sobre la violencia brutal y con alta tecnología que llaman “contrainsurgencia”.


Los cambios en Cuba son asunto de los cubanos. Cambiaremos todo lo que deba ser cambiado, para bien de los cubanos, pero no le pediremos opinión al gobierno de Estados Unidos. Escogimos libremente nuestro destino. Para eso hicimos una Revolución. Serán cambios soberanos, no “gestos”. Sabemos que para Estados Unidos lo único suficiente sería instaurar en Cuba un gobierno pro-yanqui. Pero eso no va a ocurrir.

¿Quieren avanzar en telecomunicaciones? Levanten las medidas de bloqueo que hacen imposibles los negocios en ese campo y cesen el robo de fondos cubanos. Eliminen las medidas de bloqueo que restringen severamente el acceso a internet de los cubanos.
¿Quieren cooperación entre nuestras universidades? Eliminen las restricciones a los intercambios académicos, estudiantiles, científicos y culturales y permitan establecer acuerdos entre esas instituciones.

¿Quieren cooperación contra el narcotráfico, el terrorismo, el tráfico de personas, los desastres naturales, el correo postal? Respondan, al menos, las propuestas que hemos presentado hace más de un año, sin condición alguna. El gobierno de Estados Unidos ha cambiado, pero el financiamiento a la subversión interna en Cuba se mantiene igual. Un alto funcionario de la USAID confirmó ayer al periodista Tracey Eaton que, en el último período, han hecho llegar 15,6 millones de dólares a (cito) “individuos en el terreno en Cuba”. Así llaman a sus mercenarios.
Las transmisiones ilegales de radio y televisión siguen.

Los Cinco antiterroristas cubanos siguen en injusta prisión. Recientemente se ha sometido, sin motivo, a Gerardo Hernández Nordelo a confinamiento solitario y se le ha denegado atención médica. Terroristas internacionales confesos como Orlando Bosh y Posada Carriles se pasean libremente en Miami e incluso hacen allí actividad política. Hay conversaciones migratorias, pero la manipulación política de la migración continua con la Ley de Ajuste Cubano y la política de “Pies secos-Pies mojados”.

Otra vez: es totalmente falso que Estados Unidos y Cuba seamos “socios económicos”. Las ventas agrícolas violan todas las normas y prácticas del comercio internacional y libertad de navegación. Se miente en esta sala sobre  supuestas donaciones de ONGs a Cuba por valor de 237 millones de dólares. El bloqueo es abusivamente extraterritorial y afecta a todos los aquí presentes. No es un hecho bilateral.

Señor Presidente: A lo ya dicho sobre la Unión Europea tengo poco que añadir. No le reconocemos autoridad moral ni política alguna para criticar en materia de derechos humanos.
Haría mejor en ocuparse de su brutal política anti-inmigrantes, de la deportación de minorías, de la violenta represión contra los manifestantes y de la creciente exclusión social de sus desempleados y sectores de menos ingresos.

El Parlamento Europeo, con toda desvergüenza y de manera infame, se dedica a premiar a los agentes pagados del gobierno de Estados Unidos en Cuba. Ahora se dice que la llamada Posición Común quedó superada. Ya veremos. Los hechos dirán. Pero, la Unión Europea sueña si cree que podrá normalizar las relaciones con Cuba, existiendo la llamada Posición Común.
Muchas gracias

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

A força da verdade!


"Quando as forças reaccionárias dispõem e abusam do Poder, dos recursos e do aparelho do Estado, dos órgãos de comunicação social, nem sempre falar verdade conduz ao êxito imediato. Exemplo flagrante no tempo da ditadura fascista foram as perseguições, as torturas, as condenações, os assassínios de comunistas pela suprema razão que os comunistas diziam a verdade ao povo.
Exemplos flagrantes depois do 25 de Abril é o sistemático silêncio ou a grosseira deturpação das posições do PCP pelos grandes meios de comunicação social controlados pelo governo e a incriminação e condenação como caluniadores daqueles que com inteira verdade desvendam casos gravíssimos de
corrupção nas mais altas esferas. O amor pela verdade pode temporariamente custar caro a quem o exercita. Mas a verdade acaba por triunfar da mentira. A política da mentira está condenada à derrota final. É à política da verdade que o futuro pertence."


Álvaro Cunhal, in O Partido com Paredes de Vidro

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Mais PCP!




Em 2010, sei-o bem, de todos os becos, das ruelas de cidades sitiadas, foi teu o eco rubro das bandeiras e as mãos nodosas que persistiram no caminho. Por saberes que a raiva isolada não mata a fome das crianças, nem salva os postos de trabalho, nem evita que desviem o dinheiro para a Suíça, nem incomoda os bandidos que nos querem exangues, preferiste organizar os deserdados, insistir no clamor dos passos firmes, resistir, recusando o ancestral conformismo, a penitência.
Por isso, o meu desejo: em 2011, mais Partido, mais gente descobrindo o inigualável prazer de lutar, menos preconceitos contra a única organização política que sempre cumpriu o que se comprometeu a fazer. Mais honra e dignidade, mais PCP.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Poema Pedagógico: eis como salvar as crianças!

Por Eduardo E. S. Prado, em 12 de Maio de 2008


Recentemente eu li "Poema Pedagógico" de Anton Makarenko (S. Paulo, 2005 _ Editora 34). O livro é resultado do diário pessoal que o autor manteve quando foi diretor de um reformatório ucraniano, a Colônia Gorki, entre 1920 e 1928. Makarenko era um adimirador do celebre escritor russo Máxim Gorki, por isso batizou a colônia com seu nome. Gorki se correspondeu com Makarenko e seus internos por vários anos e chegou a visitar a colônia em 1928.
A história se passa logo após a Revolução Russa e no final da Guerra Civil. Esses dois eventos, somados à Primeira Guerra Mundial , entre 1914 e 1917 e à Guerra contra o Japão, em 1905, deixaram a economia do país praticamente arruinada. Assim que o Governo Revolucionário conseguiu certa estabilidade política tratou de reconstruir o país. Mas não se tratava apenas de reconstruir a economia, a nova ordem econômica e social, baseada no Socialismo, não tinha precedentes na História.


Era preciso construir, também, uma nova sociedade, em que o coletivo prevalecesse sobre o individual; em que a ética burguesa da busca do lucro e da ostentação apoiada nas diferenças de classes, desse lugar a uma nova: Operária, camponesa e igualitária. Em que não houvesse exploração de uns sobre os outros e em que todos tivessem acesso as mesmas oportunidades em igualdade de condições. Enfim, era preciso construir um “novo Homem” e essa construção deveria começar pela educação das crianças e dos adolescentes, pelos filhos dos camponeses _ praticamente todos analfabetos como seus pais; pelos filhos dos operários _ com pouca ou nenhuma instrução e pelos menores abandonados; meninos e meninas de rua, boa parte já comprometida com o mundo do crime. Era por estes últimos que o pedagogo Anton Semionóvitch Makarenko, então com 32 anos, deveria começar a por em prática a educação socialista.

Cartaz soviético -Victor Koretsky
Makarenko não tinha nenhuma experiência na educação de menores infratores, nem mesmo os professores, contratados pelo governo revolucionário, tinham qualquer idéia de como educar esses garotos e garotas. A idéia do Departamento de Educação do novo governo era que o sistema capitalista, que imperou na Rússia até a Revolução, era o responsável pelo estado de miséria humana que arrastou essas crianças e adolescentes à criminalidade, ou seja, os menores infratores não deveriam ser considerados criminosos, mas sim, vítimas do sistema às quais era devida uma reparação.
Makarenko
Não demorou muito para Makarenko perceber que os manuais pedagógicos
simplesmente não funcionavam para a sua realidade, e isto porque não previam cobrança, recompensa, estímulo ou punição. Ele chamava os pedagogos de seres do Olimpo, por viverem nas núvens, distantes da realidade, e considerava as teorias pedagógicas vazias, sem possibilidades de aplicação prática. Sem temerem conseqüências ou esperarem qualquer recompensa os internos não tinham nenhum interesse em respeitar as regras da Colônia, muito menos em aprender alguma coisa. Até mesmo a segurança dos educadores ficava comprometida na maioria dessas colônias onde professores e funcionários tinham medo dos colonistas e estes dominavam as instituições, fazendo nelas o que queriam.


Depois de passar uma noite trancado em seu dormitório por medo dos próprios alunos, Makarenko decide trabalhar de modo intuitivo, disciplinar nos moldes dos destacamentos militares, mas flexivel, e sem ficar preso as convenções dos manuais pedagógicos. Não foi nada fácil. No começo os internos reagiram, mas vendo que o diretor estava irredutível alguns aderiram, outros preferiram fugir e passaram a praticar crimes na região. O Departamento de Educação via com preocupação e ressalvas _ e até mesmo com alguma inveja _ o modo como Makarenko dirigia o reformatório e chegou a lhe impor algumas dificuldades, embora ele contasse com a simpatia de algumas pessoas influentes. Makarenko também se questionava muito sobre os resultados da sua metodologia e por várias vezes pensou em desistir, mas decidiu continuar e aprender com os erros. Acabou chegando a conclusão de que não conseguiria educar delinqüentes juvenis se não houvesse cobrança por desempenho nem punição por indisciplina, mas também não adiantaria cobrar disciplina e estudo se não oferecesse nada em troca.


Disciplina, para ele, não era entendida como coerção ou imposição de normas rígidas de conduta, mas como a priorização do coletivo em detrimento do indivídual. Não de qualquer coletivo, mas de um coletivo harmonioso, pois só dentro de um coletivo harmonioso e feliz seria possível frutificar uma ética socialmente saudável. Ao longo de oito anos Anton Makarenko procurou "construir" um ambiente onde os educandos se sentissem parte dele. Era no coletivo que as demandas eram discutidas e providenciadas e era dentro dele que os problemas deveriam ser enfrentados e resolvidos. Os responsáveis por faltas mais graves, como furtos ou vandalismo, eram julgados pelos próprios companheiros numa espécie de assembléia, chamada por ele de Conselho de Comandantes, que decidia se o infrator era culpado, se deveria ser punido e qual a pena. Decisão que era sempre respeitada por ele. Gradativamente, os internos foram se convencendo de que a disciplina e o respeito mútuo revertiam para o bem estar deles próprios.


Câmera fabricada em pelos internos da colônia Dzerzhinsky,
para menores infratores, também dirigida por Makarenko
.
Em poucos anos a colônia se tornou auto-suficiente. Fabricava-se de tudo, o excedente era vendido e o lucro era reinvestido na colônia. Os jovens trabalhavam metade do período e estudavam na outra metade, sendo que o empenho deveria ser satisfatórios nos dois turnos. Não se tratava apenas de trabalhar por trabalhar, havia toda uma filosofia de progresso e crescimento que não se separava da educação. Makarenko não formou fabricantes de cabos de vassouras, mas médicos e aviadores, ainda que também saíssem de sua colônia exímios marceneiros, eletricistas e torneiros. A primeira câmera fotográfica da União Soviética foi fabricada dentro de uma colônia dirigida por ele.


A dificuldade em trabalhar com aqueles jovens levou o autor a tratar educação e instrução como coisas diferentes. “Instruir é educar, mas educar não é, necessariamente, instruir”. Há uma diferença entre educar um ser humano para tornar viável sua vida em sociedade e instruí-lo para a ciência e o trabalho. Era preciso oferecer muito mais que quartos aquecidos, roupas limpas e boa alimentação, os internos precisavam de garantias de que teriam uma vida rica em possibilidades. Depois de muitas reuniões, discussões e quase dois anos de frustrações, Makarenko conseguiu vagas nos cursos superiores para os internos da Colônia Gorki que se destacassem nos estudos. Aos outros, que não ingressassem no ensino superior, ficava garantido um ensino profissionalizante.


Apesar de suas conquistas Makarenko recebia pesadas críticas de pedagogos e do Departamento de Educação que consideravam suas normas de disciplina rígidas demais e também por ele não seguir as orientações pedagógicas. Percebendo que essa indisposição contra ele já estava prejudicando seus colonistas ele pediu demissão do cargo de diretor da Colônia Gorki, passando a se dedicar a colônia Dzerzhinsky onde teve seu trabalho reconhecido .
"Poema Pedagógico" é uma leitura indispensável para quem trabalha na área de educação. Embora o livro trate do universo dos reformatórios soviéticos do início do século XX, e dentro de um contexto bem particular que foi a implantaçao do Socialismo na União Soviética, a experiência transmitida pelo autor pode ser muito útil para professores e educadores de hoje. As personagens juvenis que povoam o livro são tão humanas e complexas quanto qualquer adolescente do século XXI e o mesmo vale para os educadores, na maioria muito bem intencionados, mas sem preparo para lidar com meninos e meninas com tantos problemas e com interesses tão divergentes e contraditórios.


Como pensava Anton Makarenko, em se tratando de educação, principalmente de adolescentes, não existe fórmula pronta, por isso devemos levar em conta que na época em que o livro foi escrito a sociedade soviética, como um todo, estava empenhada na reconstrução do país, o que só seria possível através da educação, e esta era a prioridade número um do governo, que entendia ser a única maneira de consolidar a Revolução e concretizar seus ideais.
Os educadores de hoje enfrentam desafios semelhantes, mas ao contrário de Makarenko não podem contar com o empenho do Estado. O tema Educação esta presente todos os dias na mídia, que se mostra mais preocupada com a falta de mão de obra qualificada do que interessada numa educação de qualidade voltada para a cidadania. E, apesar dos discursos, a educação pública não é prioridade. Jornalistas, Políticos, empresários e economistas são chamados a apontar soluções enquanto os professores, que realmente vivenciam a realidade do sistema, não são ouvidos e assim como Makarenko são o alvo das críticas.


INFO. para quem sabe russo, o livro está disponível em http://sovietpsyhology.narod.ru/makarenko_ped_poema.htm

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

As crianças de Leningradsky


Esta madrugada, o canal Odisseia passou o documentário que dá título a este artigo. Tarde, como convém ao sossego das nossas consciências e aos propósitos de vigaristas, como José Milhazes, que da Rússia pós-soviética só dizem maravilhas. Dirigido e produzido por Hanna Polak e Andrzej Celinski, o documentário aborda o terrível quotidiano das crianças russas, evidenciando as mais de trinta mil que vivem em estações de metro e ruas de Moscovo.
Crianças, algumas ainda bebés, diariamente agredidas, abusadas sexualmente, sem comida, sem roupa, sem escola, sem família. Crianças órfãs de pais vivos, vítimas do monstruoso sistema capitalista, perseguidas brutalmente pelo regime, obrigadas a viver nas tubagens subterrâneas de água quente para poderem sobreviver ao frio de mais de 30 graus negativos.
 
Crianças viciadas em vodka, em cigarros e em cheirar cola. De contacto. A mesma cola que um polícia cobarde, um nazi de medvedev e putin despeja, a determinado momento do documentário - todo ele com imagens reais - sobre a cabeça e rosto de um menino.
Vivi na URSS. Em nenhum país do mundo as crianças eram tão respeitadas. Não havia uma só criança a viver na rua ou com fome. A rede de creches e jardins-de-infância abrangia todas as famílias, as escolas garantiam a igualdade de oportunidades e o acesso às universidades ou institutos, de acordo com as preferências e motivações de cada estudante.
Mas veio o bando do Gorbatchov, do Yeltsin e dos Roman Abramovitch e do grande país resta este retrato doloroso, este retorno ao tempo dos czares.
 
Dizem que o Natal está aí. Mas para os meninos da imensa Rússia acabou em 1991. 

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Que orgulho!


Quando procuro a recordação primeira do PCP, a memória leva-me à Feira da Brandoa, em 1975. Na tribuna de um palco simples, Octávio Pato discursava e apesar do escasso entendimento político que 11 anos de idade permitem, conservo a alegria, inexplicável, que as suas palavras me provocaram. Foi o primeiro dirigente, O primeiro herói comunista que conheci. Depois vieram as palavras agrestes, as acções terroristas contra o Partido, fustigado por assassinos sem escrúpulos como os terroristas da Codeco, o padre de Paimogo, ali nos arredores de Peniche, a execrar  o PCP e a ordenar que o povo votasse nas setinhas do ppd, por “apontarem o céu”.

Em Pina Manique, a secção da Casa Pia onde nessa altura estava, os alunos mais velhos chamavam-me comuna. Recordo-me de procurar argumentos para justificar a superioridade do socialismo. Aos 12 anos entrei no primeiro centro de trabalho do PCP: o glorioso centro de Alcântara, onde aprendi anos mais tarde, já operário, princípios que, espero, me norteiem para o resto da vida.

Desse tempo guardo uma certeza: os melhores professores, os melhores educadores, os melhores funcionários, eram os comunistas. No abandono a que a Casa Pia estava, só eles, poucos é verdade, se importavam connosco. Ainda conservo resquícios da alegria sentida ao fazer, com outros alunos, o jornal de parede. Ou a pintura de armários velhos, para usarmos na sala de aulas, organizada com a notável e progressista professora Adelaide Tereno.

Depois, encontrei, por mero acaso, o jornal “O Diário”, bastião de resistência, onde, se não aprendi a ler descobri a olhar o mundo sob a perspectiva da classe a que pertenço. Obrigado, por todos, ao Miguel Urbano Rodrigues.

Fui operário até aos 30 anos. Durante mais de dez anos, fui sucessivamente eleito pelos trabalhadores meus colegas para os representar. Sabiam que ao votar em mim elegiam um comunista. E eu sabia que ao ser eleito, para ter sucesso me bastava exercer as minhas funções de acordo com os princípios que o Partido nos transmitia: agir sempre em defesa de quem trabalha, dos seus direitos e aspirações. Trabalhar para aumentar a produção e a produtividade e actuar sempre de forma a poder olhar, olhos nos olhos, cada trabalhador com a alegria de quem pode dizer: eu não traio, camarada!

A desastrosa destruição da Revolução de Abril, iniciada e fomentada pela dupla Soares/Carlucci, implicou a necessidade de resistência e combate ideológico. Os comunistas foram sempre perseguidos, atacados, mostrados pelo que deles pensam fascistóides e outros tratantes e não pelo que efectivamente são. E uma das linhas mais desenvolvidas a esse respeito, apontava a nossa alegada falta de conhecimento e impreparação. Como se a inteligência tivesse sido dada a toda a gente menos aos comunistas.

Por isso, para o operário que fui, encontrar um cientista progressista era fabuloso. Verificar que as nossas ideias não só têm aceitação generalizada como são partilhadas por pessoas que estão na vanguarda do conhecimento, é profundamente reconfortante. Ora, já licenciado em Direito desde 1994, senti há dias a mesma alegria ao escutar a Prof. Dra. Catarina Casanova numa entrevista ao Arestas de Vento, cujo endereço aqui deixo à laia de convite (http://arestasdevento.podomatic.com/entry/2010-11-28T10_31_49-08_00) . E ainda há quem julgue que a História acabou.