sábado, 21 de agosto de 2010

A cigarra

Posted by Picasa
A cigarra marcava a cadência dos passos com a sua cantoria copiosa. Sentado num dos bancos do jardim, olhos errantes, seguia a cadência dos passos anónimos, atribuindo-lhes histórias que gizava mentalmente. Apesar do alcatrão, as marcas daquelas vidas pesadas cavavam crateras dolorosas, indeléveis.
Sobretudo, gente pobre, tanta, marchando a medo, com toneladas de exames, ligaduras, próteses, tubos, adesivos. O medo colado nos rostos como anátema incontornável. A cigarra, alheia, persistia no trinado. Foi então que soube: olhou a árvore onde decorria o concerto a solo, alargou o olhar ao lado oposto da rua e encontrou a entrada do hospital. A cigarra era o vector fundamental, a aposta ecológica para indicar o norte almejado. Aí fica, na imagem que me permitiu antes de adejar para outras paragens, a cantora ininterrupta. A predizer alegria?

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Um vómito

Mário Soares não gostou do «reaparecimento público» de Fidel. Porquê?: porque Soares não gosta de Fidel - e muito menos de o ver vivo...
Soares não gostou do discurso de Fidel. Porquê?: porque Fidel «não disse nada de importante» - e Soares só gosta dos discursos que digam coisas importantes, como os do Obama e os dele próprio...
Para além disso, pergunta Soares, do alto das suas bochechas flácidas, «Em que qualidade falou? Como velho líder, há meio século, ou como proprietário de Cuba?» - e responde: «Não o disse. Porque realmente não disse nada».
Posto isto, Soares embala na espiral de provocações em que é exímio praticante, ao mesmo tempo que recorda «Fidel há cinquenta anos»; recorda a viagem que fez a Cuba, em 1964 e que o deixou «pessimamente impressionado» com aquele «comunismo à soviética, puro e duro».
E recorda que «muito mais tarde, bastante depois da normalização democrática portuguesa, que se seguiu ao delírio do PREC» - ou seja, depois de ele, Soares, ao serviço da CIA, ter encabeçado a contra-revolução que liquidou Abril e recolocou Portugal nas garras do imperialismo norte-americano - encontrou-se com Fidel «numa reunião da Comunidade Ibero-Americana», na qual também participou Cavaco Silva, então primeiro-ministro.
Diz Soares que, no decorrer da reunião, «Fidel queixou-se da falta de solidariedade para com Cuba, dos países presentes. E citou Portugal, cuja Revolução ele disse ter ajudado». Ora, perante isto, a «coragem» do Soares não se fez esperar - como é sabido, Soares sempre foi muito «corajoso» no combate aos comunistas e não tão corajoso no combate aos fascistas (talvez por saber que os comunistas não lhe faziam mal e que os fascistas eram capazes de lhe mandar umas taponas ou até mais...).
«Coube-me responder-lhe», declama Soares. E respondeu assim a Fidel: «O Senhor não ajudou a Revolução, ajudou o PCP, o que é diferente, porque quis fazer de Portugal uma Cuba europeia» - e acrescentou mais umas quantas provocações típicas de um agente da CIA em exercício. Ora, perante tanta «coragem», Fidel ficou sem palavras... ainda tentou responder-lhe, «mas o Rei de Espanha resolveu interromper a sessão e convenceu Fidel a não responder...»
E pronto, a «coragem» de Soares venceu a «cobardia» de Fidel...
Criado para todo o serviço do capitalismo explorador e opressor, Soares é assim: uma criatura repelente, nojenta, execrável, abjecta - um vómito.
 
Artigo de Fernando Samuel, in Cravo de Abril

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O COUÇO

Ponte Joaquim Casanova do Beco


Quando quiser falar de dignidade aos meus filhos, mostrar-lhes o lado bom dos seres humanos, a têmpera de ferro e honra na seiva dos corpos, a força do futuro ante a barbárie num tempo negro;
Quando quiser dizer-lhes da cumplicidade e dos amigos, a voz que se cerra à custa da própria vida, vedando o passo feroz dos lacaios pela fortuna de um sorriso solidário, viçoso na rejeição da cilada; arrumo os parcos pertences, talvez colha um cravo, e vou de abalada para a terra valorosa do COUÇO:
Vou mostrar-lhes o sitio exacto de mestre Casanova, capitaneando a sua nau, heróica gesta, as margens do Sorraia vaidosas de gente sã, a simplicidade dos gestos essenciais, a partilha do bornal na recusa da jorna de fome.
Que bela aventura há-de ser…

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

84 anos de vida e quase tantos de luta em defesa da humanidade. Parabéns, comandante!




Muchas razones a defender



Son, lo digo yo
muchas razones a defender
difícil es el camino pero yo sigo con él.
Han sido más de cincuenta
los años que hemos tenido
la suerte de haber vivido
sin ser objetos de venta.
Consecuencia que sustenta
el rumbo que hemos tomado
que fue el camino trazado
desde el Moncada a La Sierra
sin dejar en pie de guerra
de estar sirviendo a tu lado.
Son, lo digo yo
muchas razones a defender
difícil es el camino pero yo sigo con él.
Han sido muchos los sueños
que trataron de quebrarte
pero tú has sabido alzarte
a golpe de fe y empeño.
Y a pesar de que el norteño
ha enfilado sus ballestas,
y hasta ha imaginado fiestas
preparando tu caída
hoy sin temor a la herida
vives con las botas puestas.
Son, lo digo yo
muchas razones a defender
difícil es el camino pero yo sigo con él.

sábado, 7 de agosto de 2010

Até sempre, camarada!

Dias Lourenço, o herói simples do meu povo, morreu hoje. A história da sua vida honrada e resistente, dedicada na íntegra à democracia e à luta pelo Socialismo, é uma epopeia grandiosa, feita de coragem e amor pela entrega aos ideais mais nobres do ser humano.
Sofreu horrores inimagináveis, desde as torturas da sinistra pide à morte do seu querido filho, o Tóino, como carinhosamente o tratava.
Em 2000, fui falar com ele à Soeiro e pedi-lhe que nos acompanhasse, a mim e aos meus alunas, à tenebrosa prisão que o fascismo construiu na Fortaleza de Peniche. Chegado o dia, já na camioneta que nos levaria ao passeio de estudo e reflexão, um ensinamento que jamais esquecerei: o motorista não conseguia partir porque um carro lhe bloqueava a saída. Decidiu então chamar a polícia, o que verbalizou em voz alta e mereceu logo a minha concordância. Lourenço, chamou-me e ao ouvido, discretamente, deu-me uma lição para a vida: “Pedro, a polícia não. Deve ser um operário, um trabalhador com dificuldades e a polícia vai rebocar-lhe o carro e aplicar-lhe uma multa que ainda lhe vai dificultar mais a vida. Vai lá fora e resolve isso.

Saí com energias reforçadas e um misto de vergonha por não ter visto o óbvio. Juntei quatro homens, e afastado o carro, seguimos viagem com evidente alegria no rosto luminoso de Dias Lourenço.
Já em Peniche, um menino de rua, aproximou-se do nosso grupo. Dias Lourenço pediu-nos que lhe déssemos comer. E enquanto o petiz matava a fome, o meu querido camarada desenhou-lhe, na toalha de papel que forrava a mesa, um rosto humano, com duas expressões, em que baseou uma história lindíssima.
Morreu Dias Lourenço. Morreu uma parte imensa de Portugal, da nossa história, do nosso heroísmo. Bem sei que o exemplo persistirá. Mas, dói, caraças. Dói muito.



quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Ainda O Tempo das Giestas

O TEMPO DAS GIESTAS

Como em tempo de férias a predisposição para a leitura é maior, proponho-vos um livro: O Tempo das Giestas, de José Casanova. É um romance belíssimo, em que a partir de uma história verídica, extraordinária e fascinante se constrói um monumento à resistência e luta contra o fascismo. Teresa, uma mulher à procura do seu amado, cinquenta e dois anos após tê-lo perdido misteriosamente, do qual não conhece rigorosamente nenhum elemento de identificação, além do nome Simão e da suspeita da sua militância comunista, dirige-se à sede central do PCP, onde é atendida por Marcos, um jovem atencioso mas apressado.

No fundo, o que Teresa pretende não é tanto estar novamente com Simão, que pressagia morto, mas antes descobrir o que lhe sucedeu e partilhar com alguém os momentos de felicidade e dor passados com ele. Afinal, como escreveu Neruda,

“Dois amantes felizes não têm fim nem morte,

nascem e morrem tanta vez enquanto vivem,

são eternos como é a natureza.”

Através do desenrolar sucessivo de similitudes, o autor mostra-nos, de forma profundamente dolorosa o que poderia ter sido, meio século antes, a vida de um casal unido por um amor desmedido, se não fosse a barbárie do fascismo: Teresa conta a Marcos que soube amar e ser amada por Simão no primeiro dia em que o conheceu. Simão, que descobrimos ter sido funcionário clandestino do Partido, preso quando se preparava para viver com a sua amada a dura vida da clandestinidade e posteriormente enviado para o sinistro campo de concentração do Tarrafal, onde viria a ser assassinado. Marcos confessa a Inês que a ama profundamente, apesar de só a ter conhecido na véspera.

Criado pelo Decreto 26539 de 23 de Abril de 1936, o campo de concentração do Tarrafal começou a funcionar no dia 29 de Outubro do mesmo ano com a entrada da primeira leva de 157 prisioneiros. Na segunda parte do livro e através das cartas que Simão dirige à sua amada, constatamos que efectivamente “Não houve em Portugal prisão onde o fascismo mais se manifestasse”. Os presos eram enviados para o Tarrafal para morrer e sofriam a má alimentação as torturas, os espancamentos, a falta de assistência médica, a “frigideira”, os trabalhos forçados.

Contudo e é outro registo que o livro nos transmite de forma impressiva, nem o desterro, nem as torturas abalaram a confiança dos presos no futuro, bem patente, aliás, numa das cartas: “Teresa, meu amor, o nosso amor vencerá. O futuro será de liberdade e de justiça. O mundo novo pelo qual lutam milhões de seres humanos e pelo qual continuo a lutar aqui, cercado de arame farpado e resistindo à morte, é um mundo de liberdade e de justiça, de amor e de harmonia. E com o mundo novo chegará o tempo de Maio dos trabalhadores, o tempo das searas a crescer na terra, o tempo dos silvos das fábricas anunciando a paz, o tempo de milhões de professores ensinando a milhões de alunos a fraternidade e a solidariedade, a amizade e a camaradagem. O nosso tempo, meu amor, o tempo puro e belo do nosso amor, o tempo das giestas.”



terça-feira, 3 de agosto de 2010

O tempo das Giestas

" Simão espera-a junto à Torre, abrigado no seu guarda-chuva grande, acompanhando os movimentos das gaivotas, agora voltando-se, vendo-a, dirigindo-se-lhe em passo acelerado, quase a correr, a correr, no rosto um sorriso feliz. Pega-lhe nas mãos, segurando o guarda-chuva com o pescoço e o ombro: Ainda bem que vieste — murmura. Depois tira-lhe a sombrinha, devolve-lha fechada, ficam os dois sob o guarda-chuva, repete: Ainda bem que vieste."

"O Tempo das Giestas", de José Casanova



Pouca-roupa chega sempre sem se dar por ele. Senta-se à mesa do quiosque, como que a pedir desculpa por existir e sem forçar vai entabulando conversa com os presentes. Nos seus olhos cansados de operário especializado surpreendi, desde o primeiro dia, um oceano imenso de revolta e dor.
O meu amigo é um poço de cultura, que não exibe, mas doa, sem pretensiosismo, aos que com ele convivem. Em resultado, até a mais elementar conversa pode adquirir contornos fantásticos, com relatos de vida vivida e referência a livros e poemas – que resgata da memória – tudo servido com uma naturalidade desconcertante.
Ontem, senti que precisava de falar comigo. Mal nos afastámos, a dor incontida marejou-lhe o rosto vincado. Esteve casado 43 anos, dia após dia reforçando o amor que nutria pela companheira. Um dia combinaram ir almoçar fora: quando desceu as escadas, a esposa não o reconheceu. Palavras ininteligíveis, comportamento estranho e dali a meses – foram segundos, Pedro! - a notícia cruel foi-lhe gritada às sete da manhã por uma enfermeira cruel.
A amada morrera. O cancro, assassino maldito, depois de lhe levar um irmão, voltara, insatisfeito, para lhe negar o futuro. Num acesso de raiva, esmurrou paredes e móveis, indiferente aos filhos que dormiam.
Entretanto, passaram cinco anos. O meu amigo tornou a casar. Vendeu a casa e saiu da terra onde morava. Mas não entende, como me disse ontem a chorar, como pode o amor que nutria pela companheira aumentar a cada dia que passa.
As mãos da amada, o cheiro, o sorriso, a compreensão, a camaradagem, o afecto, os lábios, a partilha, o carinho, tudo continua presente. Fiquei sem palavras. Pode ser que O Tempo das Giestas, que prometi oferecer-lhe, possa, falando por mim, ajudar a minorar a dor que sente.

sábado, 31 de julho de 2010

Nem sempre adiar significa errar

O adiamento da leitura do acórdão no processo Casa Pia tem suscitado os mais díspares comentários e permitido iguais interpretações. A voz geral é de desânimo, descrédito, revolta.
Se alguém pode legitimamente queixar-se, sobretudo por agravada a dor da espera, são as vítimas. Como se sabe, os arguidos tudo fizeram para que o processo decorresse durante séculos, o que é aliás um ponto de contacto com iguais processos em todo o mundo. É bem diferente o sentimento do colectivo de juízes ante uma vítima de 12 ou já adulta. O decurso do prazo favorece os arguidos.
Mas eu entendo perfeitamente a situação da magistrada. Em primeiro lugar, tem em mãos um processo que se der lugar a um acórdão condenatório suscitará a imediata reacção da equipa de advogados de defesa, que inusualmente, se comportaram como se fossem testemunhas de defesa dos arguidos.
É pois necessário proferir uma sentença reforçadamente inatacável.
Milhares de páginas, meses de depoimentos, toneladas de prova produzida, dezenas de requerimentos, de recursos e, acredito, um sofrimento inerente a qualquer ser humano que exercesse funções idênticas, não permitem que as coisas se resolvam apenas para cumprir um prazo anunciado.

Depois, há um pormenor que tem muita relevância: esta juíza tem quatro filhos e por muito que possa o seu sentido profissional e entrega ao trabalho, não pode decretar (felizmente ninguém pode) que desapareçam enquanto trabalha. Acresce que como juiz presidente, a actividade que desenvolve é, por definição, muito solitária. Só quem nunca impugnou ou decisão ou apresentou uma acção pode achar fácil o trabalho da juíza.
Repito: a responsabilidade por todo o atraso é dos arguidos e dos expedientes dilatórios que o Código de Processo Penal confere aos arguidos.
E é preciso não esquecer o meticuloso trabalho, contra a investigação, de Mário Soares e Manuel Alegre, entre outros, que para sempre os manchará como autores de comportamento iníquo e desumano e responsáveis, por acção directa ou intermediação, por tamanho atraso.
Se, como defendo, a prisão preventiva fosse obrigatória para os acusados por este tipo de crimes, o julgamento há muito estaria concluído. O que vale também para os recursos. Se os arguidos forem condenados, defendo que sejam imediatamente detidos e colocados em prisão preventiva.
Desde logo, porque é impensável manter em liberdade predadores compulsivos. E seguramente jamais existirá prescrição de procedimento criminal.
Aos meus irmãos casapianos vítimas de bandalhos sem escrúpulos peço um pouco mais de insuportável paciência. Desta vez, por uma causa justa!

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Forma e Conteúdo


O belo não existe sem os olhos que o vislumbram. O belo faz-nos bem, aquece-nos, motiva-nos. Mas quando entre a forma que o belo reveste e o respectivo conteúdo existe uma discrepância, quem o observa pode ser induzido em erro grave.
Assim no caso da poesia, da pintura ou de um simples texto publicado na Net. Os lobos não se escondem apenas sob a pele de cordeiros imprevidentes. Usam variadíssimas vezes as palavras e enganam mais. O cavilador pode mostrar-se afectado pela dor, brincar com expressões que motivam solidariedades alheias e rejubilar com o resultado.

domingo, 18 de julho de 2010

Obrigado, PCP!


Eu sei:

Não há um só espaço sem dor. Por todo o lado abutres patrocinam a derrocada do ser humano, definitiva aquisição do capital. Olhos e vozes convergem no temor, convocam o silêncio e o conformismo, premeiam a desistência, o imobilismo. Os braços já não se querem alavancas e fenecem olvidados das mãos que em outros tempos aliavam aos dedos outros dedos parceiros de sonhos, fonte de beijos que selavam o feliz destino comum.

Agora, o odor da noite perpétua caustica os que prevaricam dizendo não. O nauseabundo conformismo vigia, por todas as pides, os que persistem na crença de que não há limites para a História. Os bufos renasceram e são profusamente premiados por apontarem qualquer laivo de resistência, qualquer aspiração de Liberdade.

O que pretendem é recuar no tempo e fazer de conta: nunca existiu Neruda, Ary ou Catarina! Anseiam pelo ruído das botas de Pinochet cunhando de sangue as estradas da esperança. Julgam-se sábios, omnipotentes.

Mas, na verdade:

Sei que não podem tudo, porque tu existes. A tua força é a soma das vontades que agregadas, recusam render-se. O teu semblante resulta do orgulho de todas as faces que lutaram honrada e corajosamente desde 1921. A rubra cor do teu ideal reproduz o oceano de esperança e determinação que sempre te caracterizaram, mesmo nos tempos mais negros.
Sem ti, meu Partido Comunista Português, a Idade Média seria a próxima paragem e restar-nos-ia a longa espera de séculos para reverter a situação.