sexta-feira, 13 de agosto de 2010

84 anos de vida e quase tantos de luta em defesa da humanidade. Parabéns, comandante!




Muchas razones a defender



Son, lo digo yo
muchas razones a defender
difícil es el camino pero yo sigo con él.
Han sido más de cincuenta
los años que hemos tenido
la suerte de haber vivido
sin ser objetos de venta.
Consecuencia que sustenta
el rumbo que hemos tomado
que fue el camino trazado
desde el Moncada a La Sierra
sin dejar en pie de guerra
de estar sirviendo a tu lado.
Son, lo digo yo
muchas razones a defender
difícil es el camino pero yo sigo con él.
Han sido muchos los sueños
que trataron de quebrarte
pero tú has sabido alzarte
a golpe de fe y empeño.
Y a pesar de que el norteño
ha enfilado sus ballestas,
y hasta ha imaginado fiestas
preparando tu caída
hoy sin temor a la herida
vives con las botas puestas.
Son, lo digo yo
muchas razones a defender
difícil es el camino pero yo sigo con él.

sábado, 7 de agosto de 2010

Até sempre, camarada!

Dias Lourenço, o herói simples do meu povo, morreu hoje. A história da sua vida honrada e resistente, dedicada na íntegra à democracia e à luta pelo Socialismo, é uma epopeia grandiosa, feita de coragem e amor pela entrega aos ideais mais nobres do ser humano.
Sofreu horrores inimagináveis, desde as torturas da sinistra pide à morte do seu querido filho, o Tóino, como carinhosamente o tratava.
Em 2000, fui falar com ele à Soeiro e pedi-lhe que nos acompanhasse, a mim e aos meus alunas, à tenebrosa prisão que o fascismo construiu na Fortaleza de Peniche. Chegado o dia, já na camioneta que nos levaria ao passeio de estudo e reflexão, um ensinamento que jamais esquecerei: o motorista não conseguia partir porque um carro lhe bloqueava a saída. Decidiu então chamar a polícia, o que verbalizou em voz alta e mereceu logo a minha concordância. Lourenço, chamou-me e ao ouvido, discretamente, deu-me uma lição para a vida: “Pedro, a polícia não. Deve ser um operário, um trabalhador com dificuldades e a polícia vai rebocar-lhe o carro e aplicar-lhe uma multa que ainda lhe vai dificultar mais a vida. Vai lá fora e resolve isso.

Saí com energias reforçadas e um misto de vergonha por não ter visto o óbvio. Juntei quatro homens, e afastado o carro, seguimos viagem com evidente alegria no rosto luminoso de Dias Lourenço.
Já em Peniche, um menino de rua, aproximou-se do nosso grupo. Dias Lourenço pediu-nos que lhe déssemos comer. E enquanto o petiz matava a fome, o meu querido camarada desenhou-lhe, na toalha de papel que forrava a mesa, um rosto humano, com duas expressões, em que baseou uma história lindíssima.
Morreu Dias Lourenço. Morreu uma parte imensa de Portugal, da nossa história, do nosso heroísmo. Bem sei que o exemplo persistirá. Mas, dói, caraças. Dói muito.



quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Ainda O Tempo das Giestas

O TEMPO DAS GIESTAS

Como em tempo de férias a predisposição para a leitura é maior, proponho-vos um livro: O Tempo das Giestas, de José Casanova. É um romance belíssimo, em que a partir de uma história verídica, extraordinária e fascinante se constrói um monumento à resistência e luta contra o fascismo. Teresa, uma mulher à procura do seu amado, cinquenta e dois anos após tê-lo perdido misteriosamente, do qual não conhece rigorosamente nenhum elemento de identificação, além do nome Simão e da suspeita da sua militância comunista, dirige-se à sede central do PCP, onde é atendida por Marcos, um jovem atencioso mas apressado.

No fundo, o que Teresa pretende não é tanto estar novamente com Simão, que pressagia morto, mas antes descobrir o que lhe sucedeu e partilhar com alguém os momentos de felicidade e dor passados com ele. Afinal, como escreveu Neruda,

“Dois amantes felizes não têm fim nem morte,

nascem e morrem tanta vez enquanto vivem,

são eternos como é a natureza.”

Através do desenrolar sucessivo de similitudes, o autor mostra-nos, de forma profundamente dolorosa o que poderia ter sido, meio século antes, a vida de um casal unido por um amor desmedido, se não fosse a barbárie do fascismo: Teresa conta a Marcos que soube amar e ser amada por Simão no primeiro dia em que o conheceu. Simão, que descobrimos ter sido funcionário clandestino do Partido, preso quando se preparava para viver com a sua amada a dura vida da clandestinidade e posteriormente enviado para o sinistro campo de concentração do Tarrafal, onde viria a ser assassinado. Marcos confessa a Inês que a ama profundamente, apesar de só a ter conhecido na véspera.

Criado pelo Decreto 26539 de 23 de Abril de 1936, o campo de concentração do Tarrafal começou a funcionar no dia 29 de Outubro do mesmo ano com a entrada da primeira leva de 157 prisioneiros. Na segunda parte do livro e através das cartas que Simão dirige à sua amada, constatamos que efectivamente “Não houve em Portugal prisão onde o fascismo mais se manifestasse”. Os presos eram enviados para o Tarrafal para morrer e sofriam a má alimentação as torturas, os espancamentos, a falta de assistência médica, a “frigideira”, os trabalhos forçados.

Contudo e é outro registo que o livro nos transmite de forma impressiva, nem o desterro, nem as torturas abalaram a confiança dos presos no futuro, bem patente, aliás, numa das cartas: “Teresa, meu amor, o nosso amor vencerá. O futuro será de liberdade e de justiça. O mundo novo pelo qual lutam milhões de seres humanos e pelo qual continuo a lutar aqui, cercado de arame farpado e resistindo à morte, é um mundo de liberdade e de justiça, de amor e de harmonia. E com o mundo novo chegará o tempo de Maio dos trabalhadores, o tempo das searas a crescer na terra, o tempo dos silvos das fábricas anunciando a paz, o tempo de milhões de professores ensinando a milhões de alunos a fraternidade e a solidariedade, a amizade e a camaradagem. O nosso tempo, meu amor, o tempo puro e belo do nosso amor, o tempo das giestas.”



terça-feira, 3 de agosto de 2010

O tempo das Giestas

" Simão espera-a junto à Torre, abrigado no seu guarda-chuva grande, acompanhando os movimentos das gaivotas, agora voltando-se, vendo-a, dirigindo-se-lhe em passo acelerado, quase a correr, a correr, no rosto um sorriso feliz. Pega-lhe nas mãos, segurando o guarda-chuva com o pescoço e o ombro: Ainda bem que vieste — murmura. Depois tira-lhe a sombrinha, devolve-lha fechada, ficam os dois sob o guarda-chuva, repete: Ainda bem que vieste."

"O Tempo das Giestas", de José Casanova



Pouca-roupa chega sempre sem se dar por ele. Senta-se à mesa do quiosque, como que a pedir desculpa por existir e sem forçar vai entabulando conversa com os presentes. Nos seus olhos cansados de operário especializado surpreendi, desde o primeiro dia, um oceano imenso de revolta e dor.
O meu amigo é um poço de cultura, que não exibe, mas doa, sem pretensiosismo, aos que com ele convivem. Em resultado, até a mais elementar conversa pode adquirir contornos fantásticos, com relatos de vida vivida e referência a livros e poemas – que resgata da memória – tudo servido com uma naturalidade desconcertante.
Ontem, senti que precisava de falar comigo. Mal nos afastámos, a dor incontida marejou-lhe o rosto vincado. Esteve casado 43 anos, dia após dia reforçando o amor que nutria pela companheira. Um dia combinaram ir almoçar fora: quando desceu as escadas, a esposa não o reconheceu. Palavras ininteligíveis, comportamento estranho e dali a meses – foram segundos, Pedro! - a notícia cruel foi-lhe gritada às sete da manhã por uma enfermeira cruel.
A amada morrera. O cancro, assassino maldito, depois de lhe levar um irmão, voltara, insatisfeito, para lhe negar o futuro. Num acesso de raiva, esmurrou paredes e móveis, indiferente aos filhos que dormiam.
Entretanto, passaram cinco anos. O meu amigo tornou a casar. Vendeu a casa e saiu da terra onde morava. Mas não entende, como me disse ontem a chorar, como pode o amor que nutria pela companheira aumentar a cada dia que passa.
As mãos da amada, o cheiro, o sorriso, a compreensão, a camaradagem, o afecto, os lábios, a partilha, o carinho, tudo continua presente. Fiquei sem palavras. Pode ser que O Tempo das Giestas, que prometi oferecer-lhe, possa, falando por mim, ajudar a minorar a dor que sente.

sábado, 31 de julho de 2010

Nem sempre adiar significa errar

O adiamento da leitura do acórdão no processo Casa Pia tem suscitado os mais díspares comentários e permitido iguais interpretações. A voz geral é de desânimo, descrédito, revolta.
Se alguém pode legitimamente queixar-se, sobretudo por agravada a dor da espera, são as vítimas. Como se sabe, os arguidos tudo fizeram para que o processo decorresse durante séculos, o que é aliás um ponto de contacto com iguais processos em todo o mundo. É bem diferente o sentimento do colectivo de juízes ante uma vítima de 12 ou já adulta. O decurso do prazo favorece os arguidos.
Mas eu entendo perfeitamente a situação da magistrada. Em primeiro lugar, tem em mãos um processo que se der lugar a um acórdão condenatório suscitará a imediata reacção da equipa de advogados de defesa, que inusualmente, se comportaram como se fossem testemunhas de defesa dos arguidos.
É pois necessário proferir uma sentença reforçadamente inatacável.
Milhares de páginas, meses de depoimentos, toneladas de prova produzida, dezenas de requerimentos, de recursos e, acredito, um sofrimento inerente a qualquer ser humano que exercesse funções idênticas, não permitem que as coisas se resolvam apenas para cumprir um prazo anunciado.

Depois, há um pormenor que tem muita relevância: esta juíza tem quatro filhos e por muito que possa o seu sentido profissional e entrega ao trabalho, não pode decretar (felizmente ninguém pode) que desapareçam enquanto trabalha. Acresce que como juiz presidente, a actividade que desenvolve é, por definição, muito solitária. Só quem nunca impugnou ou decisão ou apresentou uma acção pode achar fácil o trabalho da juíza.
Repito: a responsabilidade por todo o atraso é dos arguidos e dos expedientes dilatórios que o Código de Processo Penal confere aos arguidos.
E é preciso não esquecer o meticuloso trabalho, contra a investigação, de Mário Soares e Manuel Alegre, entre outros, que para sempre os manchará como autores de comportamento iníquo e desumano e responsáveis, por acção directa ou intermediação, por tamanho atraso.
Se, como defendo, a prisão preventiva fosse obrigatória para os acusados por este tipo de crimes, o julgamento há muito estaria concluído. O que vale também para os recursos. Se os arguidos forem condenados, defendo que sejam imediatamente detidos e colocados em prisão preventiva.
Desde logo, porque é impensável manter em liberdade predadores compulsivos. E seguramente jamais existirá prescrição de procedimento criminal.
Aos meus irmãos casapianos vítimas de bandalhos sem escrúpulos peço um pouco mais de insuportável paciência. Desta vez, por uma causa justa!

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Forma e Conteúdo


O belo não existe sem os olhos que o vislumbram. O belo faz-nos bem, aquece-nos, motiva-nos. Mas quando entre a forma que o belo reveste e o respectivo conteúdo existe uma discrepância, quem o observa pode ser induzido em erro grave.
Assim no caso da poesia, da pintura ou de um simples texto publicado na Net. Os lobos não se escondem apenas sob a pele de cordeiros imprevidentes. Usam variadíssimas vezes as palavras e enganam mais. O cavilador pode mostrar-se afectado pela dor, brincar com expressões que motivam solidariedades alheias e rejubilar com o resultado.

domingo, 18 de julho de 2010

Obrigado, PCP!


Eu sei:

Não há um só espaço sem dor. Por todo o lado abutres patrocinam a derrocada do ser humano, definitiva aquisição do capital. Olhos e vozes convergem no temor, convocam o silêncio e o conformismo, premeiam a desistência, o imobilismo. Os braços já não se querem alavancas e fenecem olvidados das mãos que em outros tempos aliavam aos dedos outros dedos parceiros de sonhos, fonte de beijos que selavam o feliz destino comum.

Agora, o odor da noite perpétua caustica os que prevaricam dizendo não. O nauseabundo conformismo vigia, por todas as pides, os que persistem na crença de que não há limites para a História. Os bufos renasceram e são profusamente premiados por apontarem qualquer laivo de resistência, qualquer aspiração de Liberdade.

O que pretendem é recuar no tempo e fazer de conta: nunca existiu Neruda, Ary ou Catarina! Anseiam pelo ruído das botas de Pinochet cunhando de sangue as estradas da esperança. Julgam-se sábios, omnipotentes.

Mas, na verdade:

Sei que não podem tudo, porque tu existes. A tua força é a soma das vontades que agregadas, recusam render-se. O teu semblante resulta do orgulho de todas as faces que lutaram honrada e corajosamente desde 1921. A rubra cor do teu ideal reproduz o oceano de esperança e determinação que sempre te caracterizaram, mesmo nos tempos mais negros.
Sem ti, meu Partido Comunista Português, a Idade Média seria a próxima paragem e restar-nos-ia a longa espera de séculos para reverter a situação.





domingo, 4 de julho de 2010

Cambada de filhos de puta

Hoje estou profundamente magoado: oito anos após a denúncia da barbárie na Casa Pia de Lisboa, a generalidade das forças políticas está-se cagando para a sorte das crianças pobres deste país. Por isso o Ps de sócrates e paulo pedroso pode conduzir à vontade o processo de destruição da Casa Pia de Lisboa.

Como eu vos entendo: afinal de contas, os meninos e meninas orfãs não votam, não têm familia, não contam. Nem sequer merecem um pouco do vosso tempo, da vossa atenção. Na verdade, como não podeis gritar "que se fodam os miseráveis", ocupais-vos em tarefas outras. Se vos fosse possível saber como dói o abandono, o desprezo, o abuso, os maus-tratos, talvez dedicásseis um pouco do vosso talento a evitar mais um crime de sócrates e companhia. Assim, resta-nos vomitar perante tamanha nojeira.
Recordo o grande pedagogo russo, Makarenko: para eles as instituições não deformam o ser humano, antes o robustecem e lhe garantem futuro. Mas Makarenko, por cá, já foi. agora o que vale é o interesse repugnante de diversas instituições que lucram milhares de euros fingindo remediar o sofrimento dos órfãos e crianças pobres deste país.


Neste campo, são todos a mesmíssima merda: quando foi revelado o escândalo fingiram-se condoídos e prometeram futuros radiosos às crianças desprotegidas. E agora nem piam ante o anunciado roubo do futuro, perpetrado pelo sócrates javardo-mor do reino, às crianças dependentes da Casa Pia de Lisboa.
A maior secção da Casa Pia, Pina Manique, está à venda: Há já mesmo, num moderno atelier de arquitectura, maquetes com o futuro condomínio privado e jardins a construir nas traseiras dos Jerónimos.



Hoje, a senhora que sócrates e Vieira da Silva designaram para destruir a Casa Pia, alegou fazê-lo em nome da Convenção que consagra o direito das crianças. Sempre os princípios tonitruantes a justificar as maiores pulhices. Grandes filhos de puta: pudesse eu e aderia de imediato a uma organização que vos despejasse nos cornos corruptos o conteúdo de uma metralhadora. Ou apenas o escarro tamanho do desprezo que as vossas poses formais me causam.

Vou por Lisboa e as crianças abundam na miséria mais dura. em Santa apolónia, meninos e meninas de dois e três anos , descalços, esfomeados, doentes, transidos de frio, são a marca dolorosa dos merdas que nos desgovernam. Pudesse eu e oferecia-lhes uma Casa PIa de Lisboa renovada. Uma casa-mãe onde a fome e os maus-tratos não entrariam nunca, uma escola de referência que os tornaria seres humanos como os demais.

Assim, resta-me vociferar, enojado, revoltado e farto destes merdas que em nosso nome destroem Portugal.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

A ESSE VELHO BORDEL DA IGREJA - O VATICANO

Profundamente enojado com a reacção do Papa à morte de José Saramago, recorro a Guerra Junqueiro:



Quem é o Papa?
Um Deus inventado à socapa,
Um Deus para fazer o qual bastam apenas
Quatro coisas: cardeais, papel, tinteiro e penas.
 Deita-se numa saca uma lista qualquer,
Qualquer nome, Gregório, ou Bórgia ou Lancenaire,
Ou Papavoine – e pronto! Em dois minutos, fica
Manipulado em Deus autêntico, obra rica,
Tonsurado, sagrado, infalível, divino...
Quer dizer, saiu Deus duma bolsa de quino!


É um Deus por concurso, um Deus feito de tretas,
Em cuja divindade ideal há favas pretas!
Apesar disso é Deus. Vai pousar-lhe no seio
O Espírito santo, esse pombo-correio
Da Providência. É ele o redentor e o oráculo.
A humanidade vai adiante do seu báculo
Soluçando, ululando, exausta, ensanguentada,
Pavoroso tropel de sombras pela estrada
Do destino fatal. O pensamento humano
É simplesmente um cão sabujo e ultramontano,
Um cão vadio, um cão faminto, um cão impuro,
Que o papa recolheu de noite num monturo,
E a quem às vezes dá, com parcimónia bíblica
A pitança de um breve e o osso duma encíclica.


Um papa é isto, um juiz sem lei; omnipotente,
Czar das consciências. Pode irremissivelmente
Chamuscá-la em fogo, ou torrá-las em brasas.
Ou fazer-lhes nascer das costas um par de asas,
O globo é para ele a bola de um bilhar.


Domina os reis. O trono é o lacaio do Altar.
Seus templos são prisões e seus dogmas algemas
Cingem-lhe a fronte augusta e nobre três diademas
E, na potente mão, invencível chapéu.
Tem as chaves do inferno... e a gazua do céu.


Masella, o teatro é velho, a receita é pequena
E há mil anos que está a mesma farsa em cena.
Abaixo a farsa! Abaixo o pardieiro divino,
O céu, que já não tem mais sombras de inquilino,
Serafins, querubins, anjos, legião eterna
Dos eleitos, tudo isso andou, pôs-se na perna,
Deixando lá ficar, ó cáfila de ingratos!
O CADÁVER DE DEUS ROÍDO PELOS RATOS.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Os 25 Anos da assinatura do tratado de adesão de Portugal à CEE

Nota do Secretariado do Comité Central do PCP

Os 25 Anos da assinatura do tratado de adesão de Portugal à CEE

Sábado 12 de Junho de 2010



1 - Os objectivos políticos e ideológicos das comemorações dos 25 anos sobre a assinatura do Tratado de Adesão de Portugal à CEE/UE não apagam, antes confirmam, os alertas que o PCP fez relativamente às consequências desse acto para o povo português e para o País. A dura realidade vivida pelos portugueses, indissociável das consequências da integração capitalista europeia e das políticas que lhe estão associadas, vem, passados 25 anos, confirmar a justeza das posições do PCP relativamente à adesão de Portugal à CEE e das razões por si então evocadas.

Portugal é hoje um país não só mais injusto e desigual no plano social e no desenvolvimento do seu território, como é também um país mais dependente, mais endividado, mais deficitário e mais vulnerável. 25 anos passados, a grave crise que o país enfrenta, sendo fruto das políticas de direita no plano nacional, não é também separável da crise dos fundamentos da União Europeia. Os níveis recorde de desemprego, a estagnação e dependência económicas de Portugal, a destruição do aparelho produtivo nacional, o aprofundamento da exploração, das desigualdades sociais e das injustiças são a consequência da natureza exploradora associada ao presente processo de “integração europeia”.

2 - A pergunta que se deve colocar quando passam 25 anos sobre a assinatura do Tratado de adesão de Portugal à CEE/UE é para que serviu e a quem serviu a adesão de Portugal à CEE. A pergunta que se impõe é para que servem e a quem servem os Tratados – de Maastricht a Lisboa -, o Pacto de Estabilidade, a União Económica e Monetária, o Euro, o BCE e a chamada política externa e de segurança da União Europeia. A realidade demonstra, cada vez de forma mais evidente, que os interesses que a União Europeia neoliberal, militarista e federalista serve são os do grande capital, nomeadamente do grande capital financeiro, das grandes potências como a Alemanha, dos defensores do militarismo e da política agressiva da NATO e não os interesses dos trabalhadores e povos da Europa, da cooperação e da paz.

As medidas tomadas pela União Europeia e pelos governos de vários países, incluindo Portugal, em nome de um suposto “combate à crise” revelam bem o grau de falsidade dos discursos da “solidariedade”, da “coesão” e da “Europa social”, colocando em evidência para que servem de facto os instrumentos contidos nos tratados, nas políticas comuns e nas Estratégias como a “Europa 2020”. Em nome de um suposto “combate à crise” os povos da Europa estão mais uma vez a ser vítimas de uma política de concentração e centralização do poder económico e político que, alimentando-se da dependência e fragilidade económica de alguns países – como Portugal –, desfere novos e gravíssimos ataques contra os direitos laborais e sociais, a soberania e a própria democracia e põe em causa o futuro de milhões de pessoas e o futuro dos seus países.

3 – Mas, 25 anos depois, o PCP afirma com convicção que é possível uma outra Europa dos trabalhadores e dos povos. Com a sua luta será possível construir a ruptura com o rumo neoliberal, militarista e federalista da UE. Uma ruptura assente no respeito pela democracia e pelos direitos laborais e sociais que abra portas a uma real convergência e cooperação fundadas no progresso social, no apoio à produção nacional, no investimento público, no reforço dos serviços públicos, no emprego com direitos, no fim da “livre” circulação de capitais, no combate à financeirização e dependência económicas.


Afirmando o seu inabalável compromisso em defesa da Constituição da República Portuguesa - que consagrou muitos dos avanços, realizações e conquistas democráticas da Revolução de Abril, nomeadamente no que se refere à independência e soberania nacionais – o PCP reitera a sua rejeição a uma integração europeia caracterizada pela submissão e condicionamento do desenvolvimento de Portugal e renova o seu compromisso de lutar por um Portugal independente e soberano, por um projecto de cooperação entre Estados soberanos e iguais que promova a melhoria das condições de vida dos trabalhadores e do povo e o progresso do país, a paz e a solidariedade internacional, consentâneo com o projecto de desenvolvimento democrático, patriótico e internacionalista consagrado na Constituição de Abril.


O actual rumo da integração europeia não é uma inevitabilidade, tal como não é inevitável a brutal regressão civilizacional que as classes dominantes tentam impor aos povos da Europa. A resposta dos trabalhadores e dos povos de vários países europeus à violenta ofensiva anti-social em curso na União Europeia – e de que a manifestação do passado dia 29 de Maio em Lisboa é um importante exemplo – assim como as mudanças operadas no quadro internacional, designadamente na América Latina, demonstram que um outro mundo e uma outra Europa são possíveis, na base da solidariedade, do respeito mútuo e da reciprocidade, respeitando-se o direito soberanos dos povos a escolherem a sua opção em termos de organização económica, social e política, na defesa da paz e da cooperação com os povos de todo o mundo.