Profundamente enojado com a reacção do Papa à morte de José Saramago, recorro a Guerra Junqueiro:
Quem é o Papa?
Um Deus inventado à socapa,
Um Deus para fazer o qual bastam apenas
Quatro coisas: cardeais, papel, tinteiro e penas.
Deita-se numa saca uma lista qualquer,
Qualquer nome, Gregório, ou Bórgia ou Lancenaire,
Ou Papavoine – e pronto! Em dois minutos, fica
Manipulado em Deus autêntico, obra rica,
Tonsurado, sagrado, infalível, divino...
Quer dizer, saiu Deus duma bolsa de quino!
É um Deus por concurso, um Deus feito de tretas,
Em cuja divindade ideal há favas pretas!
Apesar disso é Deus. Vai pousar-lhe no seio
O Espírito santo, esse pombo-correio
Da Providência. É ele o redentor e o oráculo.
A humanidade vai adiante do seu báculo
Soluçando, ululando, exausta, ensanguentada,
Pavoroso tropel de sombras pela estrada
Do destino fatal. O pensamento humano
É simplesmente um cão sabujo e ultramontano,
Um cão vadio, um cão faminto, um cão impuro,
Que o papa recolheu de noite num monturo,
E a quem às vezes dá, com parcimónia bíblica
A pitança de um breve e o osso duma encíclica.
Um papa é isto, um juiz sem lei; omnipotente,
Czar das consciências. Pode irremissivelmente
Chamuscá-la em fogo, ou torrá-las em brasas.
Ou fazer-lhes nascer das costas um par de asas,
O globo é para ele a bola de um bilhar.
Domina os reis. O trono é o lacaio do Altar.
Seus templos são prisões e seus dogmas algemas
Cingem-lhe a fronte augusta e nobre três diademas
E, na potente mão, invencível chapéu.
Tem as chaves do inferno... e a gazua do céu.
Masella, o teatro é velho, a receita é pequena
E há mil anos que está a mesma farsa em cena.
Abaixo a farsa! Abaixo o pardieiro divino,
O céu, que já não tem mais sombras de inquilino,
Serafins, querubins, anjos, legião eterna
Dos eleitos, tudo isso andou, pôs-se na perna,
Deixando lá ficar, ó cáfila de ingratos!
O CADÁVER DE DEUS ROÍDO PELOS RATOS.
quarta-feira, 23 de junho de 2010
terça-feira, 15 de junho de 2010
Os 25 Anos da assinatura do tratado de adesão de Portugal à CEE
Nota do Secretariado do Comité Central do PCP
Os 25 Anos da assinatura do tratado de adesão de Portugal à CEE
Sábado 12 de Junho de 2010
1 - Os objectivos políticos e ideológicos das comemorações dos 25 anos sobre a assinatura do Tratado de Adesão de Portugal à CEE/UE não apagam, antes confirmam, os alertas que o PCP fez relativamente às consequências desse acto para o povo português e para o País. A dura realidade vivida pelos portugueses, indissociável das consequências da integração capitalista europeia e das políticas que lhe estão associadas, vem, passados 25 anos, confirmar a justeza das posições do PCP relativamente à adesão de Portugal à CEE e das razões por si então evocadas.
Portugal é hoje um país não só mais injusto e desigual no plano social e no desenvolvimento do seu território, como é também um país mais dependente, mais endividado, mais deficitário e mais vulnerável. 25 anos passados, a grave crise que o país enfrenta, sendo fruto das políticas de direita no plano nacional, não é também separável da crise dos fundamentos da União Europeia. Os níveis recorde de desemprego, a estagnação e dependência económicas de Portugal, a destruição do aparelho produtivo nacional, o aprofundamento da exploração, das desigualdades sociais e das injustiças são a consequência da natureza exploradora associada ao presente processo de “integração europeia”.
2 - A pergunta que se deve colocar quando passam 25 anos sobre a assinatura do Tratado de adesão de Portugal à CEE/UE é para que serviu e a quem serviu a adesão de Portugal à CEE. A pergunta que se impõe é para que servem e a quem servem os Tratados – de Maastricht a Lisboa -, o Pacto de Estabilidade, a União Económica e Monetária, o Euro, o BCE e a chamada política externa e de segurança da União Europeia. A realidade demonstra, cada vez de forma mais evidente, que os interesses que a União Europeia neoliberal, militarista e federalista serve são os do grande capital, nomeadamente do grande capital financeiro, das grandes potências como a Alemanha, dos defensores do militarismo e da política agressiva da NATO e não os interesses dos trabalhadores e povos da Europa, da cooperação e da paz.
As medidas tomadas pela União Europeia e pelos governos de vários países, incluindo Portugal, em nome de um suposto “combate à crise” revelam bem o grau de falsidade dos discursos da “solidariedade”, da “coesão” e da “Europa social”, colocando em evidência para que servem de facto os instrumentos contidos nos tratados, nas políticas comuns e nas Estratégias como a “Europa 2020”. Em nome de um suposto “combate à crise” os povos da Europa estão mais uma vez a ser vítimas de uma política de concentração e centralização do poder económico e político que, alimentando-se da dependência e fragilidade económica de alguns países – como Portugal –, desfere novos e gravíssimos ataques contra os direitos laborais e sociais, a soberania e a própria democracia e põe em causa o futuro de milhões de pessoas e o futuro dos seus países.
3 – Mas, 25 anos depois, o PCP afirma com convicção que é possível uma outra Europa dos trabalhadores e dos povos. Com a sua luta será possível construir a ruptura com o rumo neoliberal, militarista e federalista da UE. Uma ruptura assente no respeito pela democracia e pelos direitos laborais e sociais que abra portas a uma real convergência e cooperação fundadas no progresso social, no apoio à produção nacional, no investimento público, no reforço dos serviços públicos, no emprego com direitos, no fim da “livre” circulação de capitais, no combate à financeirização e dependência económicas.
Afirmando o seu inabalável compromisso em defesa da Constituição da República Portuguesa - que consagrou muitos dos avanços, realizações e conquistas democráticas da Revolução de Abril, nomeadamente no que se refere à independência e soberania nacionais – o PCP reitera a sua rejeição a uma integração europeia caracterizada pela submissão e condicionamento do desenvolvimento de Portugal e renova o seu compromisso de lutar por um Portugal independente e soberano, por um projecto de cooperação entre Estados soberanos e iguais que promova a melhoria das condições de vida dos trabalhadores e do povo e o progresso do país, a paz e a solidariedade internacional, consentâneo com o projecto de desenvolvimento democrático, patriótico e internacionalista consagrado na Constituição de Abril.
O actual rumo da integração europeia não é uma inevitabilidade, tal como não é inevitável a brutal regressão civilizacional que as classes dominantes tentam impor aos povos da Europa. A resposta dos trabalhadores e dos povos de vários países europeus à violenta ofensiva anti-social em curso na União Europeia – e de que a manifestação do passado dia 29 de Maio em Lisboa é um importante exemplo – assim como as mudanças operadas no quadro internacional, designadamente na América Latina, demonstram que um outro mundo e uma outra Europa são possíveis, na base da solidariedade, do respeito mútuo e da reciprocidade, respeitando-se o direito soberanos dos povos a escolherem a sua opção em termos de organização económica, social e política, na defesa da paz e da cooperação com os povos de todo o mundo.
segunda-feira, 7 de junho de 2010
quarta-feira, 2 de junho de 2010
sexta-feira, 28 de maio de 2010
Concordo!
" A massa trabalhadora intui com extraordinária sensibilidade a diferença entre os comunistas honrados e leais e os que inspiram repugnância ao homem que ganha o pão com o suor do seu rosto, que não goza de nenhum privilégio, que não tem "acesso aos chefes".
V.I. LÉNINE
segunda-feira, 24 de maio de 2010
Deambulações
Escreveu-lhe uma carta à medida. Mas antes de chegar ao destinatário, objecto do seu amor e dedicação, publicitou-a na net. Afinal, o que seria do sentimento sem publicidade. Da vaidade sem o elogio. Da comiseração sem a palavra amiga.
Escreveu na carta o que lhe ordenava a consciência desavinda e a necessidade de ordenar a confusão. O pior não foi ele ter permanecido igual. Foi a descoberta da coerência que a feriu de morte. Podes agredir, violentar, ofender, mas fornecer o mais pequeno indício de alegada indiferença, nunca!
De forma que na carta armadilhou o caminho a percorrer: a vitimização perante amigos comuns, a enunciação dos atributos de madre Teresa de Calcutá em versão apaixonada e até condescendência no pagamento futuro das 150 moedas.
Há pessoas assim: se são más, não o assumem, se rancorosas não o aceitam, se vingativas negam de pronto. E continuam a existência cordata pejada de referências boas. Pois, pá, o gajo é uma malandro. Quero lá saber se ébrio se equivocou. A verdade é que sóbria interpretei.
Quando descobriu que onde julgara dois, só ele contava, que na ausência de partilha restava a exigência e a cobrança, sentiu-se vazio. Vagueou sem nexo pela cidade, contando os candeeiros na avenida paralela ao mar, o chilrear das gaivotas marcando a cadência dos passos inseguros, o cheiro a maresia como analgésico e a vontade de desaparecer, de desnascer, causticando-lhe o peito sem cessar.
E depois, o quê? Nem manual de bom comportamento, nem aceitação de condutas impostas. Na verdade, só se sentia livre entre iguais.
quinta-feira, 20 de maio de 2010
quinta-feira, 13 de maio de 2010
Paternidades
O anunciado roubo de parte do subsídio do Natal aos trabalhadores e aos reformados e pensionistas – na sequência de um sem número de medidas de igual sentido que o Governo PS/Sócrates tem vindo a perpetrar – é bem o exemplo da natureza de classe evidenciada pela política de direita ao longo dos seus longos 34 anos de existência.Essa natureza de classe - presente em todos os governos dos três partidos pais dessa política – expressa-se ao sabor de um esquema de grande simplicidade: os trabalhadores, o povo e o País são, sempre, o alvo a flagelar; o grande capital é, sempre, o alvo a favorecer.
O anúncio dessas medidas de classe conta, sempre e desde logo, com o aplauso entusiástico dos propagandistas de serviço à política de direita – os quais, como se sabe, ocupam a quase totalidade do espaço de «opinião» dos média dominantes.
Assim aconteceu neste caso do anúncio do roubo do subsídio de Natal: os propagandistas apressaram-se a concluir que sim senhor, essa é a forma mais fácil, expedita e rápida de resolver o problema do défice e de cumprir a ordem da senhora Merkel e dos restantes patrões da União Europeia, ou seja, o roubo é a solução.
Mário Soares, que ocupa lugar destacado nessa acção propagandística, e que alia a essa tarefa a função complementar de defensor maior, em Portugal, do capitalismo (democrático, é claro...), saltou a terreiro em defesa do roubo, como lhe competia, e aproveitou para lembrar (antes que lho lembrassem), que também ele, quando foi primeiro-ministro, roubou parte do subsídio de Natal aos trabalhadores portugueses.
É claro que, assumindo a paternidade do roubo, Soares demonstrou igualmente o conteúdo democrático do acto praticado. Tratou-se, Soares o diz, de um roubo não apenas democrático mas essencialmente salvador da pátria, de acordo, obviamente, com os conceitos de democracia e de pátria do autor do roubo – que é, por isso mesmo e como estamos fartos de ouvir dizer, o «pai da democracia».
E que é, como estamos fartos de saber e de sofrer, o pai da contra-revolução e da política de direita - paternidade esta inequívoca e abundantemente confirmada pelo ADN do progenitor e da cria.
José Casanova, AVANTE! de 13/05/2010
quarta-feira, 12 de maio de 2010
quarta-feira, 5 de maio de 2010
O esmerado carácter de um ex-comunista
O fulano da foto foi, durante a maior parte da sua vida, comunista. Foi perseguido pelo fascismo, esteve preso, foi torturado. Depois de Abril, durante muitos anos, continuou a dizer-se comunista e chegou mesmo à direcção do PCP. Já com idade avançada e os cabelos brancos, mudou de ideias, algo a que todos temos direito.Pretende agora convencer-nos que o que antes garantiu, asseverou, gritou, tudo aquilo por lutou durante dezenas de anos, afinal está errado. Evidentemente, só lhe dá credibilidade quem quer, até porque nada nos garante que daqui a seis meses não venha dizer a mesmíssima coisa que dizia antes e o seu contrário.
O fulano da foto, já entradote na idade, tornou-se catavento e, portanto, desdizer-se é o seu míster, a que nos ultimos tempos tem, aliás, dedicado intenso labor.
Anunciou agora que vai publicar um livro sobre Álvaro Cunhal. Sem cuidar do assunto relevante de saber se a um catavento é admissível ou lícito escrever sobre um homem digno, honrado, corajoso e coerente, o que mais me enoja é a facilidade com que, cobardemente, alguém decide pronunciar-se sobre quem, não estando vivo, não pode contestar a prevísivel montanha de alarvidades que agora se apregoa.
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