quarta-feira, 6 de maio de 2009

António Gedeão

Se não fosse esta certeza
que nem sei de onde me vem,
não comia, nem bebia,
nem falava com ninguém.
Acocorava-me a um canto,
no mais escuro que houvesse,
punha os joelhos á boca
e viesse o que viesse.
Não fossem os olhos grandes
do ingénuo adolescente,
a chuva das penas brancas
a cair impertinente,
aquele incógnito rosto,
pintado em tons de aguarela,
que sonha no frio encosto
da vidraça da janela,
não fosse a imensa piedade
dos homens que não cresceram,
que ouviram, viram, ouviram,
viram, e não perceberam,
essas máscaras selectas,
antologia do espanto,
flores sem caule, flutuando
no pranto do desencanto,
se não fosse a fome e a sede
dessa humanidade exangue,
roía as unhas e os dedos
até os fazer em sangue.

Nada a temer senão o correr da luta...

Caçador de Mim


Por tanto amor
Por tanta emoção
A vida me fez assim
Doce ou atroz
Manso ou feroz
Eu caçador de mim
Preso a canções
Entregue a paixões
Que nunca tiveram fim
Vou me encontrar
Longe do meu lugar
Eu, caçador de mim

Nada a temer senão o correr da luta
Nada a fazer senão esquecer o medo
Abrir o peito a força, numa procura
Fugir às armadilhas da mata escura
Longe se vai
Sonhando demais
Mas onde se chega assim
Vou descobrir
O que me faz sentir
Eu, caçador de mim
Milton Nascimento
Composição: Luís Carlos Sá e Sérgio Magrão

terça-feira, 5 de maio de 2009

Comentário necessário

Por mim não teria feito disso notícia, mas a recente publicação, no Público online, de que serei candidato pelo PPM à Câmara de Setúbal, impõe-me o seguinte comentário:

Fui militante do PCP durante 26 anos. Não tenho palavras para expressar tudo quanto vivi e aprendi no Partido. Tudo quanto sou, como homem e cidadão, devo-o ao meu querido Partido. Para mim, a existência do PCP é um dos motivos mais fortes que alicerça o profundo orgulho que tenho em ser português.

No entanto, entreguei hoje mesmo o meu pedido de demissão do Partido, no que constituiu a decisão mais dolorosa da minha vida. Fi-lo por dever de consciência: sempre protestei contra os que, violando os estatutos do Partido, pretenderam descaracterizá-lo. E não podia agora incorrer na violação da disciplina partidária.

Cada vez me sinto mais próximo, ideologicamente, do meu Partido, o único que verdadeiramente defende os trabalhadores e outras classes sociais desfavorecidas, em Portugal.

A organização do meu Partido em Setúbal escolheu para candidata à respectiva câmara municipal a senhora Maria das Dores Meira, que para mim representa tudo quanto de mais negativo existe na política portuguesa.

Não podia pois deixar de lhe dar combate político, ciente de que o bom povo de Setúbal não merece sofrer mais quatro anos de gestão autárquica despótica por parte de uma anticomunista dissimulada.

Agradeço ao PPM e aos respectivos dirigentes, a confiança que em mim depositaram e a oportunidade que me deram de poder expressar, eleitoralmente, as minhas ideias para melhorar o concelho de Setúbal.

Peço desculpa aos meus camaradas do PCP, que sei desiludir profundamente com esta atitude.Mas deixo-lhes uma garantia pessoal: procurarei no futuro ser digno de reaver o meu estimado cartão de militante.

Naturalmente, no resto do território nacional, apelarei ao voto na CDU.

Ao PCP

Ao meu Partido

Deste-me a fraternidade para com o que não conheço.
Acrescentaste à minha a força de todos os que vivem.
Deste-me outra vez a pátria como se nascesse de novo.
Deste-me a liberdade que o solitário não tem.
Ensinaste-me a acender a bondade, como um fogo.
Deste-me a rectidão de que a árvore necessita.
Ensinaste-me a ver a unidade e a diversidade dos homens.
Mostraste-me como a dor de um indivíduo morre com a vitória de todos.
Ensinaste-me a dormir nas camas duras dos meus irmãos.
Fizeste-me edificar sobre a realidade como uma rocha.
Tornaste-me adversário do malvado e muro contra o frenético.
Fizeste-me ver a claridade do mundo e a possibilidade da alegria.
Tornaste-me indestrutível porque, graças a ti, não termino em mim mesmo.


Pablo Neruda

sábado, 2 de maio de 2009

Vital, o provocador

Talvez ninguém, como provocador ao serviço do ps, tenha destorcido, atacado e criticado as posições poítico-sindicais como Vital Moreira o fez. Por isso, a sua presença hoje na manifestação da CGTP/IN tem a marca indelével do que Mário Soares assinalou há uns anos quando foi fazer idêntico número para a Marinha Grande e apanhou com uns peixes na cara.
Agora Vital conseguiu, com a palhaçada a que se entregou, atingir dois objectivos: fazer-se mártir e difamar, através da insinuação velada, os comunistas e a CGTP.
Esta era uma provocação esperada. Vital, Santos Silva e correlegionários boys de sócrates estão desesperados e não se deterão ante qualquer iniquidade para obterem bons resultados eleitorais, de que depende, afinal de contas, a possibilidade de partilharem o que resta dos recursos nacionais.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Palavra de deputado faz fé!...

Como se sabe, este governo alterou a forma de justificação de faltas dadas pelos funcionários públicos por motivos de doença, obrigando-os a recorrer aos Centros de Saúde para obterem o respectivo certificado. Dessa forma quis o senhor sócrates e a maioria subserviente que apoia o putativo engenheiro, atestar que tais funcionários e os médicos que os atendem fora do serviço público, não merecem pinga de confiança.

Contudo, relativamente aos deputados, essa classe superior à populaça, o entendimento é outro. Somos todos iguais. Não se sabe é onde, nem em quê.
Clique sobre a imagem e surpreenda-se. De facto, a realidade ultrapassa a ficção

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Vinicius de Moraes

Gente humilde

Tem certos dias em que eu penso em minha gente
E sinto assim todo o meu peito se apertar
Porque parece que acontece de repente
Como um desejo de eu viver sem me notar



Igual a como quando eu passo no subúrbio
Eu muito bem vindo de trem de algum lugar
E aí me dá uma inveja dessa gente
Que vai em frente sem nem ter com que contar


São casas simples, com cadeiras na calçada
E na fachada escrito em cima que é um lar
Pela varanda, flores tristes e baldias
Como a alegria que não tem onde encostar

E aí me dá uma tristeza no meu peito
Feito um despeito de eu não ter como lutar
E eu que não creio peço a Deus por minha gente
É gente humilde, que vontade de chorar

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Contra Maria das Dores Meira, pela Liberdade!

Acabam de dizer-me que, em Setúbal, a inumana vai recandidatar-se pelos meus. Que fazer? Olhar para o lado e simular não ver e não saber, apurando assim os condimentos da cobardia e aquiescência com a iniquidade?
Perder a legitimidade futura para combater pela Justiça, contra toda a espécie de inquisidores e déspotas?
Prostestar apenas contra os que não se travestem com as minhas cores? Não!
Relembro Guevara: "Se tremes de indignação perante as injustiças, és meu irmão".
Por isso, a partir de hoje e até Dezembro, tudo farei para que o bom povo de Setúbal não sofra mais quatro anos de desnorte e maldade. Tudo farei para que a Maria das Dores Meira sofra nas urnas a derrota que taticismos oportunistas adiaram.
A luta continua!

terça-feira, 21 de abril de 2009

Solidão

Tinham chegado por ele, despejaram os presentes no hall, perderam o tempo indispensável a perscrutar no seu olhar triste se gostara das coisas habituais, se apreciara o preço de umas e outras, mas rapidamente debandaram para a sala. Afinal a música não podia esperar. Nem as tatuagens e ferros cravados na geografia desordenada dos corpos iguais. Dos gostos similares, dos gestos geminados, dos tiques aprendidos. Tanta gente e tão igual.

Percebeu-se rodeado de espelhos, superfícies onde vogavam rostos disformes, mesmo quando belos. Os mesmos grunhidos, as mesmas unhas decalcadas por calistas suburbanas, os mesmos modos. Saiu de casa sem se despedir das dezenas de pessoas que lhe lotavam a casa. Acenou ao cão na cumplicidade da fuga, vestiu o casacão de lã que a mãe lhe moldara ao corpo anos antes e de sapatos na mão fez-lhes o imenso manguito do desprezo.

Já na rua, recordou Ary, e sentiu-se um homem só, na cidade. Se pudesse, em cada aniversário bastar-lhe-ia a companhia dos filhos, a foto da mãe e o cheiro da sua Lisboa desaparecida. Amália, também, porque a sua voz era o bálsamo onde poderia banhar-se e redescobrir a infância. A mão dele, indefesa, na mão calejada da mãe e os tantos passeios pelas ruelas da cidade, pejada de fados.

Agora, podia lá suportar tanta gente em seu redor. Se ao menos chegassem para minorar a dor imensa de tudo quanto amou e se esfumou em passado. Mas não: o mais que fazem é cobrar, impor, exigir, determinar. E tudo sem dele saberem nada.
Chegam sem avisar e afugentam Guillén, Sabina, Neruda, Rocio Durcal, Fausto ou Brel. E remexem nos livros, analfabetos, exultando com o peso dos volumes. Zelosos urdem conselhos prestimosos: o menino tem que lavar a loiça suja e fazer essa cama de lavado. Onde é que já se viu um rapaz tão descomposto?
De forma, mãe, que só me resta fugir-lhes, sair de onde me querem cordato, previsível. E lembrar-te sempre mais e mais, certo de que um destes dias, quando estiver mesmo sozinho, me vais fazer a alegria de aparecer, tão amiga e carinhosa como quando crescia no teu colo pobre. E eu, tão avesso a milagres, acredito tanto nisso mãe, que até já sei onde iremos passear.

domingo, 19 de abril de 2009

Sócrates vilão

Uma das medidas mais sintomáticas deste governo miserável, é o cerco policial permanente aos bairros pobres e degradados. Diariamente, centenas de polícias, armados como se fossem para a guerra, bloqueiam homens, mulheres e crianças, cerceando-lhes o direito fundamental à liberdade.
E tudo porque - na cabeça queque do putativo engenheiro - o terror é sinónimo de pobreza, a droga é coisa de pretos ou ciganos e a violência é provocada pelos pobres.
A não ser assim, a carrinha policial que vejo agora parar no local habitual, estaria a circular pelas ruas do Restelo, Areeiro e afins, onde se amontoam - salvo seja, que as moradias são espaçosas - os meliantes endinheirados, os traficantes que nunca são detidos e as fátimas felgueiras que sócrates adora lambuzar. O porco!
Mas é melhor prender o preto, culpar o cigano e excluir o pobre. Cobardolas! Temos por isso um governo conivente com o crime, cúmplice e obediente, co-autor da insegurança e miséria em que vivem milhões de portugueses.
E ainda há quem acredite que o caso freeport pode ser investigado judicialmente...