terça-feira, 11 de novembro de 2008

Contra a reescrita da História



Anda por aí um movimento que se atribui a tarefa de impedir que outros apaguem a memória. A coisa porém tem gato: para quem se apresenta com tão benfazejas intenções, a manifestação de amnésia reiterada e deturpação do passado pode fazer mal.

Proclamam querer manter viva a lembrança dos que lutaram contra o fascismo. Mas apelidam, benévolos, na esteira de Fernando Rosas, o regime nazi-fascista de Salazar e Caetano, de Estado Novo.


Falam das prisões fascistas, mas um dos membros mais proeminentes do referido movimento escreve elogiosamente sobre um dos mais sanguinários agentes da PIDE.


Anunciam um colóquio internacional sobre o campo de concentração do Tarrafal e além de ignorarem como oradores os comunistas, resistentes que em maior número sofreram a repressão fascista, omitem a existência de um livro fundamental para a compreensão desse tempo, como "O Tempo das Giestas" , de José Casanova.


Fácil é, pois, perceber que apenas querem preservar a memória de uma história reescrita a seu contento . E essa intenção não deixa de ser, convenhamos, uma refinada canalhice.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Retrato de uma Justiça de classe

Reclusos existentes em 31 de Dezembro 2007, segundo a instrução, nas cadeias portuguesas



Não sabendo ler nem escrever ________________620
Sabendo ler e escrever _____________________645
Ensino Básico _________________________8 953
Secundário ___________________________1 002
Superior ______________________________144
Outros cursos ___________________________ 15
Ignorado ou não especificado________________ 208

Fonte: Direcção-Geral dos serviços prisionais


quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Obrigado, José Saramago


Guantánamo

Novembro 5, 2008 by José Saramago



"No momento em que escrevo estas linhas os colégios eleitorais ainda vão continuar abertos durante mais algumas horas. Só pela madrugada dentro surgirão as primeiras projecções sobre quem será o próximo presidente dos Estados Unidos. No caso altamente indesejável de que viesse a triunfar o general McCain, o que estou a escrever pareceria obra de alguém cujas ideias sobre o mundo em que vive pecassem por um total irrealismo, por um desconhecimento absoluto das malhas com que se tecem os factos políticos e os diversos objectivos estratégicos do planeta. Nunca o general McCain, sendo, ainda por cima, como a propaganda não se cansa de lhe chamar e que um miserável paisano como eu nunca se atreveria a negar, um herói da guerra contra o Vietnam, nunca ele ousaria deitar abaixo o campo de concentração e tortura instalado na base militar de Guntánamo e desmontar a própria base até ao último parafuso, deixando o espaço que ocupa entregue a quem é o seu legítimo dono, o povo cubano. Porque, quer se queira, quer não, se é certo que nem sempre o hábito faz o monge, a farda, essa, faz sempre o general. Deitar abaixo, desmontar? Quem é o ingénuo que teve semelhante ideia?

E, contudo, é disso precisamente que se trata. Há poucos minutos uma estação de rádio portuguesa quis saber qual seria a primeira medida de governo que eu proporia a Barack Obama no caso de ele ser, como tantos andamos a sonhar desde há um ano e meio, o novo presidente dos Estados Unidos. Fui rápido na resposta: desmontar a base militar de Guantánamo, mandar regressar os marines, deitar abaixo a vergonha que aquele campo de concentração (e de tortura, não esqueçamos) representa, virar a página e pedir desculpa a Cuba. E, de caminho, acabar com o bloqueio, esse garrote com o qual, inutilmente, se pretendeu vergar a vontade do povo cubano. Pode suceder, e oxalá que assim seja, que o resultado final desta eleição venha a investir a população norte-americana de uma nova dignidade e de um novo respeito, mas eu permito-me recordar aos falsos distraídos que lições da mais autêntica das dignidades, das quais Washington poderia ter aprendido, as andou a dar quotidianamente o povo cubano em quase cinquenta anos de patriótica resistência.

Que não se pode fazer tudo, assim de uma assentada? Sim, talvez não se possa, mas, por favor, senhor presidente, faça ao menos alguma coisa. Ao contrário do que acaso lhe tenham dito nos corredores do senado, aquela ilha é mais que um desenho no mapa. Espero, senhor presidente, que algum dia queira ir a Cuba para conhecer quem lá vive. Finalmente. Garanto-lhe que ninguém lhe fará mal."

Pedrito do Bié

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Contra o capitalismo

O capitalismo é um sistema criminoso, que serve apenas os facínoras que dele vivem dizimando milhões de vidas em todo o mundo. O que impressiona é ver a facilidade com que os bandalhos batem com a mão no peito e juram crer em Deus. Um milhão de crianças morre anualmente por falta de uma vítamina. E depois? O que pode isso contra a invocação devota dos sacrossantos princípios do capitalismo?
Toneladas de alimentos são destruídas para que o respectivo preço não desça nos mercados e quando a frieza dos números nos diz que milhões de seres humanos morrem de fome, os canalhas organizam galas muito altruístas e que os deixam cada vez mais bonitos nas fotografias.
Agora, perante o colapso do sistema finaceiro, os governos decidiram, em uníssono, salvá-lo, descobrindo avultadas somas em segundos. Os bancos e banqueiros que tanto têm roubado os povos de todo o mundo - os mesmo que o ano passado despejaram de suas casas mais de 150 000 famílias que não puderam pagar as elevadíssimas prestações dos empréstimos - não hesitaram na apropriação de recursos públicos e na intervenção estatal.
Mas cada vez é mais evidente que o capitalismo contraria o futuro. Pode sobreviver séculos, mas há-de ruir. Até porque a alternativa significaria o fim da humanidade.

sábado, 1 de novembro de 2008

LIDICE, o exemplo


Lídice, pequena vila da antiga Checoslováquia, foi totalmente destruída, em 1942, pelos nazis como represália pela morte de Reinhard Heydrich seu comandante.
Heydrich, então designado como protector do Reich na Boémia e Morávia, área ocupada pelas tropas nazis há mais de três anos, dirigia-se da casa onde morava para seu escritório no centro de Praga. Numa esquina perto de seu local de destino, o carro em que viajava foi emboscado a tiros pela Resistência.
Atingido, o oficial das SS, protegido de Himmler e Hitler e um dos mais cruéis nazis, um dos mentores da solução final, morreria uma semana depois. Hitler ordenou então ao substituto de Heydrich que retaliasse de forma brutal. Em 10 de junho, Lidice, perto de Praga, a capital, foi cercada por tropas nazis que impediram a saída dos seus residentes.
Todos os homens com mais de quinze anos foram separados de mulheres e crianças, colocados num celeiro e fuzilados em pequenos grupos no dia seguinte. As mulheres e crianças da cidade foram enviadas para o campo de concentração feminino de Ravensbruck onde a maioria viria a morrer de tifo e exaustão pelos trabalhos forçados.
Após o assassinato e o desterro da população restante, a vila foi demolida. Cerca de 340 habitantes de Lídice morreram no massacre alemão, 173 homens, 60 mulheres e provavelmente 88 crianças.
Ao contrário do que fazia habitualmente, a propaganda nazi fez questão de publicitar o horror de Lídice, como uma ameaça e um aviso aos povos da Europa ocupada. filmaram tudo, inclusivamente o jogo de futebol que sobre os escombros organizaram, utilizando como bolas bébés recém-nascidos.
Estive em Lidice em 1985, integrado num grupo de jovens e foi das experiências mais marcantes da minha vida. O local onde se situava a vila foi transformado num imenso prado e considerado um memorial nacional. Mesmo tendo sido totalmente apagada do mapa, Lídice foi novamente reconstruída e ampliada em 1949, a setecentos metros da área onde tinha sido destruída.
Juntámo-nos em torno de uma resistente, das poucas que sobreviveram e escutámos o seu relato dorido com a ajuda de uma intérprete. No rosto das dezenas de jovens que ali se encontravam as lágrimas marcavam a determinação de lutar para que no futuro nunca mais seja possível tamanha monstruosidade.
Sou militante do PCP há 25 anos. Cada vez com mais orgulho e honra. No meu Partido, com os meus camaradas, com a sua História inigualável, aprendi o respeito pela memória. Sou contra qualquer utilização de Peniche para fins diversos dos museológicos. E acho isto tão natural que explicá-lo me parece redundante. Se a Cãmara de Peniche não tem dinheiro, tem que ser o Estado central a custear a recuperação e manutenção do forte. Da mesma forma que faz com o Mosteiro dos Jerónimos ou a torre de Belém.
Se os comunistas se empenharem nisto, reduzem o campo de manobra oportunista dos que, à segunda-feira, escrevem obras laudatórias de fascistas e nos feriados simulam preocupar-se com a preservação da memória.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Pela preservação da memória

Em 23 de Outubro de 2005 escrevi:

"Fascismo nunca mais!

Um dos traços mais repulsivos da empreitada que alguns desenvolvem para reescrever a História, consiste na destruição de tudo quanto possa questionar as mentiras que apregoam. Até agora, quem fosse a Peniche desarmado do conhecimento do que foi aquele antro de tortura e sofrimento para quantos ousaram combater o fascismo, podia convencer-se de que nada de grave por lá havia acontecido, tal o desprezo a que tem estado votado o espaço.
A conquista da Câmara Municipal de Peniche pela CDU vai, estou certo, inverter esta situação. Porque um povo sem memória não tem futuro, os comunistas e seus aliados vão seguramente transformar o Forte num monumento digno, onde possamos ir rever o que foi o fascismo, assim revigorando forças para o grito que cada vez mais se justifica: 25 de Abril, sempre! Fascismo nunca mais! "
Afinal, parece que me enganei. Vi agora o actual presidente de câmara, um independente eleito pela CDU, justificar a transformação da prisão de Peniche num empreendimento hoteleiro do grupo Pestana. Se a moda pega e os grupos empresariais - como se diz agora para esconder o que foram antes do 25 de Abril - se entusiasmam, ainda teremos o Tarrafal transformado num moderno SPA. E os campos de concentração em campos de golfe.
Claro que com espaço resídual para a memória. Afinal, os capitalistas justificam sempre as maiores atrocidades com as intenções mais benévolas.

Contra o capitalismo!

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Mudar as Prisões



Nas prisões portuguesas – assumo o risco da generalização – ainda não se fez sentir o 25 de Abril de 1974.
Sou, convictamente, contra as penas cruéis e degradantes. Por isso, combato o sistema prisional iníquo que possuímos.
Segundo a lei, a pena de prisão visa fundamentalmente recuperar o delinquente. Contudo, todos sabemos que o sistema prisional não só não recupera como avilta o ser humano que cumpre pena de prisão. Achincalha-o, menoriza-o e fornece-lhe os condimentos necessários para se doutorar em crime.

Se existisse vontade política, seria ordenada a necessária auditoria e fiscalização do universo carcerário e, nomeadamente, investigadas as admissões de pessoal, as aquisições de serviços e o respectivo funcionamento. As prisões são um mundo à parte: frio, cruel, desigual. Não é por acaso que, a exemplo do que sucede nos EUA, as celas estão pejadas de pobres e negros.

O trabalho devia ser obrigatório para todos os reclusos. Se em cada cadeia existisse a possibilidade de formação profissional, estou certo de que a taxa de reincidência seria muito inferior. Por outro lado, a privação de liberdade é a pena a que os reclusos foram condenados e é absurdo que cada guarda entenda poder aplicar e aplique, penas acessórias de forma prepotente e discricionária. É como se cada recluso o fosse duas vezes: do Estado de Direito e do sistema iníquo que o mantém.

Se quisermos ser coerentes com a natureza da prisão preventiva e com a condição de presumíveis inocentes que caracteriza os arguidos nessas condições, não podemos continuar a misturá-los com delinquentes já condenados.

Tanta coisa por fazer e o mais que temos é um agrupamento de interesses no governo e um primeiro-ministro que não consegue o esforço de ficar um dia sem mentir.




terça-feira, 23 de setembro de 2008

Sobre (in)segurança

O problema da insegurança em Portugal tem sido discutido por quem se limita ao trivial. Os especialistas na matéria, os que estudam com denodo o problema, são ignorados, não vá dar-se o caso de apontarem responsabilidades aos que agoram choram tanta criminalidade.

O PSD que terminou com o policiamento de proximidade, para criar as ineficazes super-esquadras, pretende colher votos com a demagogia sobre o sangue derramado. Como se não tivesse dominado o País durante tantos anos. O CDS, só vê crimes e bandidos nos bairros pobres e quer pejá-los de câmaras para filmar tudo. O ps, tão responsável quanto o PSD por esta bandalheira, acordou agora para as operações das polícias feitas à dúzia, sem critério e incidindo também apenas sobre bairros e gente humilde.

Que fizeram até aqui? Nada! Aliás, basta estudar um pouco para se constatar que esta gente não sabe nada de segurança. Já em 2002, descobri que emigrantes compravam - sim, compravam!!! - vistos numa embaixada portuguesa. Da mesma rede faziam parte falsificadores de documentos, traficantes de escravos, mafiosos da droga.

Toda a gente sabe que chegam criminosos a Portugal, diariamente e com destino certo. Todos conhecem os locais onde impunemente mulheres são traficadas para favorecer o enriquecimento de canalhas.

E nem assim se faz seja o que for para, decisivamente, se atacar a criminalidade. Porque? Porque a quem detém o poder interessa este estado de coisas. Que um influente político socialista presida a uma associação de trabalho temporário - liga esclavagista por natureza - é a melhor demonstração que podemos apontar.