quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Uma espécie de ditador

Sócrates mentiu sem vergonha aos portugueses para ser eleito. Mentiu sem vergonha quando se disse engenheiro. Mentiu sem vergonha quando afirmou preocupar-se com o desemprego, fatalidade que não se cansa, insensível, de alimentar. Mentiu na propaganda que fez com a atribuição de computadores descontinuados, a preços elevados.

Mentir sempre foi, para esta gentalha, uma forma de vida. A diferença que Sócrates instituiu, a coberto da maioria absoluta, reside no garrote que agrilhoa todos quantos discordam do seu exercício antidemocrático.

Sócrates domina tudo, sem qualquer espécie de controlo: as polícias, o SIS, a Procuradoria-Geral da República, o Tribunal Constitucional, o Tribunal de Contas; o Banco de Portugal; os media; os chamados “fazedores de opinião” – espécie de lambe-cús invertebrada e solícita, que abana a cauda e repete à exaustão o que o dono grasna – e, é claro, milhares de boys e girls que vivem do aparelho de Estado e dos fundos comunitários roubados ao desenvolvimento do País.

Se em Portugal fosse crime mentir para conquistar o poder, Sócrates e socratinos estariam engavetados. Ou talvez não. Afinal, se eles até alteraram o código penal para proteger os pedófilos…


terça-feira, 23 de outubro de 2007

Prós quase sem contras

Acabou há pouco o “Prós e Contras”. Fátima Campos Ferreira bem se esforçou. Ela e os seus acólitos de parvoíces. Mas em vão: Alfredo Bruto da Costa demonstrou e reiterou, perante as investidas dos comissários do governo, que Marx tinha e mantém toda a razão.

A pobreza não é uma inevitabilidade. É sim uma consequência necessária do capitalismo. Que não se resolve com a caridadezinha, nem com instituições que, em nome dos pobres, alimentam personagens lúgubres e oportunistas.

Agora, a miséria, segundo alguns, é fruto não da exploração capitalista e da desproporcional distribuição da riqueza, que penaliza quem trabalha, mas das catástrofes climatéricas. E Fátima sempre a ajudar o governo, pois se até na evoluída suécia "há miséria", o que poderia fazer o senhor Sócrates...

Para combater a pobreza é necessário destruir o sistema em que, como alertou o Professor Bruto da Costa, 500 larápios – vulgo milionários – possuem mais riqueza do que 500 milhões de seres humanos. Milhões de crianças morrem por não possuírem, como referiu Fidel Castro, 50 cêntimos de dólar para uma mísera vacina. Outras definham até à morte por ausência de água potável e alimentos. E o analfabetismo?...

E perante este cenário dantesco, fruto do capitalismo, alguns peroram com volúpia, sobre democracia e blá, blá. Cambada de escroques, invertebrados.


quarta-feira, 17 de outubro de 2007

O Caminho das Aves

Dizer-se, da vida, que pode ser vivida de formas diversas, não passa de uma banalidade. O que é difícil, é vivê-la coerentemente, de acordo com o que se diz defender. O nosso povo, aliás, caustica de forma demolidora os que, em palavras, vagueiam entre o que dizem ser e o que efectivamente fazem. "Faz o que eu digo, não faças o que eu faço", ou, "Isso não passa de trinta e um de boca", são tiros certeiros nos que da palavra fazem tudo e ainda arranjam lata para acrescentar que no "início era o verbo"...
Ocorreu-me isto pensando num amigo e num livro - o livro da minha e de tantas outras vidas - que se chama "O Caminho das Aves". Aqui, na ficção de José Casanova, tudo faz sentido por ser profundamente real. As personagens são tão naturais que se nos colam, como se efectivamente vivessem connosco e nos interpelassem ou fossem procuradas, por nós, a cada instante.
Sucede que uma dessas personagens, o carteirista, tem tudo a ver com um amigo que admiro profundamente. Esteve preso, cerca de doze anos, e hoje é um ser humano novo, admirável, solidário, combatente, coerente e amigo. Ofereci-lhe O Caminho das Aves porque sei que vai julgar que o Zé se inspirou nele para escrever sobre o carteirista. E nisso reside também a riqueza do livro.
Daqui a cem anos haverá gente a ver-se retratada pelo autor e a sentir-se motivada a lutar pela mudança. Gente que aprenderá que, se quisermos, nenhum estigma nos roubará o futuro. Gente que, apesar de ter sido conduzida, forçada, à marginalidade por um sistema anacrónico, conseguiu - e se isso é difícil... - retomar o caminho da luta, centrando sobre o capitalismo a justa revolta contra a iniquidade.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Ana Gomes reincide

Já se sabe que o PS tudo fez, ainda na oposição e recorrendo aos boys que instalou em locais fundamentais do Estado, para destruir a investigação ao designado Processo Casa Pia. Mário Soares, Ferro Rodrigues e amigos, na linha da estratégia delineada por Carlucci há já muitos anos, não descansaram: importava difundir que a investigação era uma cabala. Por isso afastaram Souto Moura, destruiram a brigada que investigou os crimes sexuais e substituiram Catalina Pestana.
A par disso promoveram alterações legislativas, nos códigos processual penal e penal para proteger os pedófilos, como bem assinala, sem papas na língua, o juiz Rangel. Basta aliás atentar no artigo 30.º do Código Penal.
Agora que Catalina Pestana corajosa e frontalmente veio denunciar o perigo real de na Casa Pia de Lisboa tudo voltar a acontecer, o PS destacou Ana Gomes para a atacar. De forma ordinária, malcriada e serventual, a deputada - a tanto chegámos... - que nada conhece do processo, vem injuriar uma mulher séria e digna.
Ora a verdade é que se quisesse ser honesta, Ana Gomes teria que dirigir os impropérios de que parece ser feita aos seus correlegionários que, por acçao ou omissão, são responsáveis pela violação de centenas de crianças. E aos que, como ela, sem nada saberem, conspiraram, por formas diversas, contra a verdade.
Mas prefere a prestativa tarefa de ofender Catalina Pestana. Porque não lhe perdoa a resistência às pressões do PS, nem a opção de permanecer corajosamente ao lado das vítimas. Afinal, tivesse Catalina Pestana cedido e agora poderia ser ministra de qualquer coisa. Mas o que efectivamente motiva o desnorte da deputada malcriada é o poder mostrar o lixo que produziu aos companheiros de bancada. Porque assim se arranjam os lugares e o actual governo é disso exemplo elucidativo

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

A não perder

Fascismo nunca mais!

Hoje adquiri um código civil do tempo do fascismo e lá esta, inelutável, a realidade: os fascistas odiavam as mulheres, consideravam-nas seres inferiores, sem direitos e apenas com um fim útil: servir os machos seus maridos. Claro que já o sabia, mas vê-lo em forma de lei tem outra força. Se neste País, em Abril renascido, existisse ainda réstea de pedagogia democrática, estas coisas haveriam de ser ensinadas ao povo, nas fábricas, nas empresas, nas escolas e universidades.
Mas como quem manda agora descende em linha recta do fascismo, a opção é branquear a ditadura, designada Estado Novo, e apagar criminosamente 50 anos de história trágica.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

O novo Código de Processo Penal

Cada vez mais os governos são associações de malfeitores. A democracia permite-lhes manipular os povos e delimitar, nos boletins de votos, a cada quatro anos, o éden em que vivem e procriam como nababos. A "liberdade" que nos querem deixar é apenas a de escolher entre pensamentos iguais mesmo quando com fórmulas diferentes. Para isso existe a comunicação social dominante. E os belmiros e companhia têm denotado estar vigilantes.

Contudo, até há pouco ainda alguns dos nababos podiam correr o risco de ser incomodados, se algo corresse mal. O que, convenhamos, é intolerável para suas senhorias. Por isso, como noutras esferas, os associados também no Código de Processo Penal introduziram modificações.

A matriz que os guiou e lhes deu alento foi, como bem recentemente reconheceu o agora "socialista" José Miguel Júdice, o Processo Casa Pia. Melhor dizendo: o que alterar, nas leis processuais penais, para que nunca mais um dos associados possa ser incomodado se decidir prevaricar.

Melhor do que este texto pobre, para quem quiser saber como actuam os associados, é a leitura das escutas a distintas personagens publicadas no semanário Sol de sábado passado. Que asco!

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

UM RAPAZ DE FLORENÇA

"Estas ideias de os homens serem todos iguais e todos terem direito a trabalhar e não serem explorados, uma vez entradas no sangue, só com o sangue desaparecem"

Vasco Pratolini, in Um Rapaz de Florença

domingo, 23 de setembro de 2007

O Caminho das Aves

E de repente, a viagem na net conduz-me ao indispensável O Caminho das Aves, de José Casanova. É muito bom descobrirmos que outros partilham os nossos gostos, as nossas emoções. Tinha estado a ler O Rapaz de Florença , de Vasco Pratolini – mais uma prenda do Zé aos seus leitores – e ao procurar artigos sobre o escritor italiano, surgiu-me esta outra forma de olhar O Caminho das Aves. Aqui fica:

O caminho das aves : romance

by José Casanova category Literature & Fiction

Contracapa:

"Reina a calma em todos os lares e há paz nos espíritos e nas ruas, garante quem, por obrigação e hábito, de tão complexa matéria deverá possuir o elevado saber que ao rasteiro entendimento naturalmente escapa. Felizes os que tal juízo acatam como bom, porque deles é o reino da tranquilidade, sabendo que assim é por assim lhes ser dito desde tempos imemoriais, A minha política é o trabalho, Eu quero é ganhar o meu, Ricos e pobres sempre houve e há-de haver, Pobrezinhos mas honrados, Graças a Deus. Sensatas sentenças, palavras de portugueses de lei, dignos herdeiros dos nossos avós, ou dos nossos maiores, como também há quem diga, autênticos pilares da serena estabilidade nossa, muito bem! Todavia, e por via das dúvidas sopradas pelo desvario que varre o Mundo e ameaça a ordem natural das coisas, aferrolhemos portas e janelas e frestas e postigos, calafetemos todas as frinchas visíveis e invisíveis não vão os ventos da História tecê-las, O seguro morreu de velho, não é verdade?"

Bela apologia da amizade, do amor, dos valores.

"Começa Eugénio a ouvi-los, primeiro incrédulo, incredulidade que dura pouco, o melhor é não duvidar muito tempo da veracidade das boas notícias, não vão elas escapar-se, não ser, transformar-se em sonho, sabe lá."

"São como as aves - pensa Francisco - Partiram juntos, regressam juntos."

"Triste e deprimente, porquê - pergunta-lhe Abílio que não se cansa de elogiar o espectáculo, É um espectáculo maravilhoso, e há nele qualquer coisa de novo, de nunca visto, acho eu - responde Francisco - No entanto, há também muito desalento, muito desencanto, muita desesperança, muita passividade, muito conformismo, muito vazio... Marta concorda: De facto, eles esperam o futuro - Godot - mas esperam apenas, não fazem nada para o encontrar e isso é, de alguma forma, angustiante."

"Brindam: Ao nosso filho, Ao nosso amor, Aos nossos amigos."

"Ouve-o segredar-lhe: Sabes de mim o que mais ninguém sabe... sabes-me."

Trabalhando na Biblioteca Museu República e Resistência foi um livro que se tornou precioso para o trabalho de referência.

Referências bibliográficas:

"Vasco, que não deu mais notícias, deixará sinais de um livro, Cantares, de Rosalía de Castro, e um bilhete que Francisco lê a caminho da reunião para que foi convocado: 'Disse-me quem sabe (conheci pessoa culta, em Vigo. Culta e não só...) que esta Rosalia não sei quê é a maior poetisa galega. Será? Aguardo que me digas'."

"Nessa noite começa a ler Os Thibault. Não dorme."

"Antes do jantar, Vasco abre os presentes: uma camisola de malha, metade verde-claro, a outra metade de um verde mais escuro e uma caneta Parker - ofertas da mãe e do pai; a prenda de Francisco é um livro: A Cidade das Flores - lê em voz alta - Política, aposto, Haverá alguma coisa que o não seja?"

"Francisco pega no livro - Uma Noite e Nunca, Urbano Tavares Rodrigues(...)."

"Estão no Trindade: À Espera de Godot, a peça recém-estreada, é o que os traz ali."

"Enquanto esperam pelo começo do espectáculo, Abílio e Marta discutem, entusiasmados, o último livro de Redol, A Barca de Sete Lemes."

"Sara está à porta de casa como que adivinhando a sua chegada, beijam-se furtivamente, ele entrega-lhe a prenda de aniversário - Seara de Vento, de Manuel da Fonseca."

"O Politzer ajudou-me (está a ajudar-me) muito, tal como Lenine (as tuas notas e os teus sublinhados explicaram-me melhor as preocupações que tens e que, repito-te, são as minhas). Quanto à 'Alma Encantada': como me fez feliz! como me fez sofrer!"

"Augusto dá-lhe a ler A Montanha Mágica. Depois Os Buddenbrook."

"Como foi possível viver estes anos todos sem ler Thomas Mann - pergunta-se. E, porque o tempo não lhe falta, passa a Stendhal, Maupassant, Tchekov."

"Falam e comem, Manuela tenta retomar, sem êxito, o tema Rocco e os Seus Irmãos, Marta elogia a impecável condução de Vasco, Luís aconselha um livro de Ítalo Calvino, acabado de sair, O Atalho dos Ninhos de Aranha, sobre a resistência antifascista na Itália (...)."

"Francisco, sentado sobre o bailique, retoma a leitura de Madame Bovary, que iniciara de manhã."

"Na sala receberá as prendas enviadas: de Abílio, A Guitarra Quebrada, de Pavese, com dedicatória ('O título é outro e a viola passou a guitarra. Mesmo assim estou certo de que gostarás desta versão portuguesa. Um abraço do tamanho da amizade'); de Vasco, A Peregrinação ('Leste-o, menino e moço, talvez te agrade relê-lo, homem. Um abração maior do que o tamanho do mundo. Parabéns do teu amigo'); mais livros de Marta, Maria Eduarda, Albano..."

"No dia seguinte, Jacinta irá à morada indicada onde deixará um saco com os livros pedidos por Francisco: todos excepto Os Capitães da Areia que não conseguiu encontrar."

"Salta-lhe à vista Um Rapaz de Florença."

"Sabe de cor, de tantas vezes o ter lido, um longo poema de João Cabral de Melo Neto - 'Vida e Morte Severina' - inserto nas Poesias Escolhidas, prenda de aniversário de Abílio (...)."

"Tem um livro, fechado, sobre as pernas. Jubiabá."

"Toma, este é meu, este é da Mariana - diz Francisco, estendendo-lhe dois embrulhos, visivelmente um livro e um disco, La Question, Henry Alleg e Nara Leão, 'Pedro Pedreiro... penseiro, esperando o trem... e a mulher de Pedro está esperando um filho para esperar também...': canta Vasco desafinado."

"Pedro levanta-se de um salto, os outros olham-no espantados, ele justifica: Li um artigo sobre a amizade entre Marx e Engels, conheceram-se, ficaram amigos e começaram a trabalhar juntos... a pensar e a sonhar juntos... até à morte de Marx, uma amizade total, Para cada um deles o outro era... único - intromete-se Eugénio, aproximando-se e sorrindo."

"A seguir, distribui as prendas búlgaras: um pequeno urso de peluche que entrega a Manuela (É para o João, quando ele vier, trouxe um igual para o Marcos), uma jarra de cerâmica, um lenço de seda, um livro (este comprado em Paris: Lettres de Fusillés)."

"Agora, indica-lhes o quarto que vai ser o deles, ajuda-os a arrumar as roupas, abre o saco e tira os livros cujos títulos vai lendo, Ah o Romain Rolland! grande humanista!, trazem aqui uma bibliotecazinha bem escolhida, sim senhor, e discos... para que querem vocês os discos se não têm onde os tocar?"

"Não é necessário assinar - diz, escrevendo a dedicatória e entregando o livro a Jacinta: 'El socialismo e el hombre en Cuba', Che Guevara."

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Obrigado, Ricardo Cardoso

Sempre que falo contigo, é como se o mundo se abrisse e o espanto das tantas coisas por fazer me impelisse no caminho do futuro. Tu és dos afectos e também pertences, para parafasear Tordo, à tribo que acampa nos meus sonhos. Gosto de ti e da Céu. Gosto do Arestas e do vento quente dos sonhos a que dás alento. Trabalho, tanto trabalho Ricardo. E tudo pelo prazer de veres singrar o que há-de tornar melhor a vida a outros seres humanos. Obrigado por tudo, querido amigo.