
Um professor de música de Armamar foi detido há dias por suspeita de ter abusado sexualmente de crianças com idades entre os cinco e os dez anos. Ouvido no Tribunal da Régua ficou, felizmente, em prisão preventiva. Segundo a comunicação social, “A notícia da detenção do professor deixou a população da vila de Armamar em estado de choque. “Era daquelas pessoas por que eu punha a mão no fogo”, desabafou um morador.”
Estas reacções demonstram bem as consequências da inacção governamental na prevenção do abuso sexual. Mesmo tendo acontecido o processo Casa Pia, a generalidade da população desconhece que neste tipo de crimes ninguém pode colocar a “mão no fogo” seja por quem for.
Como assinala ANNA C. Salter no seu livro “PEDOFILIA E OUTRAS AGRESSÕES SEXUAIS”:
"Compre as armas que comprar, dificilmente elas lhe serão úteis. São muito raras as ocasiões em que um criminoso sexual entre furtivamente numa casa durante a noite. É mais frequente ele entrar pela porta da frente durante o dia, como amigo ou vizinho, chefe de um grupo de escuteiros, sacerdote, director de escola, professor, médico ou treinador. Convidamo-los a entrar nas nossas casas repetidas vezes, e damos-lhes autorização para levarem os nossos filhos para o acampamento nocturno, ao jogo do basquetebol ou ao posto do exército de salvação para tomarem parte em actividades para os jovens.
Damos-lhes autorização porque não reconhecemos estes indivíduos como predadores, porque acreditamos que os criminosos sexuais são monstros e certamente não deixaríamos de reconhecer um se o víssemos, pois não? Aquele jovem pastor tão simpático que organiza tantas actividades para jovens, aquele com o sorriso à banda e o cabelo castanho a cair-lhe sobre a testa, aquele que visita os idosos e ajuda os pobres do seu próprio dinheiro – seguramente, não. É impossível que ele seja um molestador de crianças, e que conte já com noventa vítimas apesar de ainda não ter completado os trinta anos. (…) A simpatia é uma arma poderosa ao ponto de ser susceptível de proteger os predadores durante longos períodos de tempo e não obstante um número quase inimaginável de vítimas."
O nosso povo precisa de saber - e sem esse conhecimento as nossas crianças nunca estarão seguras - que é impossível depreender o comportamento em privado a partir da conduta pública dos indivíduos.