Dor
Tardam na tela as nossas mãos
Onde a cor diz amante
És tu que vens, singular
Resgatar a existência do sol
Nos teus cabelos livres.
Agita-se já o hábito da dor
E as nossas mãos tardam
No instante em que o futuro se exime
E a imensidão vazia da memória
Traça percursos a sangue, delimita
A parede caiada dos teus gritos.
Finados tecem cardápios de silêncios
Meticulosos desferem chicotadas e conselhos:
De beber os teus lábios, não se fala
Em partilhar merendas ninguém pense.
Eu sei, a dor persiste, meu amor
Já não há mãos içadas para nós.
E no entanto,
A tua boca persiste na minha sem rodeios
Os teus olhos choram o mar onde me escondem
E ainda encontro resguardado do degredo
O desejo ancestral de sonhar.
sexta-feira, 17 de novembro de 2006
domingo, 12 de novembro de 2006
A DEMOCRACIA DELES
"No domingo passado, sensivelmente à mesma hora em que o presidente dos Estados Unidos da América, Georges Bush, declarava, em Washington, falando a sério, que a condenação à morte de Saddam Hussein era a comprovação de que a democracia tinha chegado ao Iraque, o primeiro-ministro português, José Sócrates, afirmava, em Montevideu, presume-se que também falando a sério, que «em matéria de visão humanista e respeito pelos direitos humanos, não encontro melhor exemplo do que os Estados Unidos» - e sublinhava que, para confirmação do que dizia, bastava olhar para a «política externa norte-americana».Trata-se de declarações complementares no seu sombrio significado, gémeas siamesas, pode dizer-se, ligadas pelo cordão umbilical de um arrogante e cínico desprezo pela democracia e pelos valores democráticos – ao fim e ao cabo a democracia deles. Na declaração do presidente dos EUA transparece o conceito de democracia adoptado pelo mais poderoso país do mundo. Dar como exemplo da chegada da democracia a um país a condenação a morte de uma pessoa – seja ela quem for – diz tudo sobre o entendimento de democracia de quem recorre a tal exemplo.
Na declaração de José Sócrates – presume-se que feita de livre vontade – o que sobressai é a precisão cirúrgica do primeiro-ministro português na escolha das qualidades que, em seu entender, são atributos louváveis dos Estados Unidos da América. Considerar a prática terrorista do imperialismo norte-americano como uma «política externa» caracterizada por uma «visão humanista» e pelo «respeito dos direitos humanos», constitui, não apenas um insulto à democracia, mas igualmente uma brutal ofensa à memória de centenas de milhares de homens, mulheres, jovens, crianças vítimas dessa «visão humanista» e desse «respeito pelos direitos humanos».
Esta exibição de pró-americanismo primário de José Sócrates – expressa na valorização absoluta daquilo que aos EUA mais interessa que seja valorizado – significa que o primeiro-ministro português apoia e aplaude com fervor democrático as invasões e ocupações de países, os massacres, as prisões arbitrárias de milhares de cidadãos de dezenas de países, o encarceramento desses cidadãos em situação de total isolamento e sem possibilidades de acesso a qualquer tipo de defesa, a sujeição desses cidadãos às mais bárbaras torturas, etc., etc.
O conceito de democracia de Georges Bush, tão apreciado por Sócrates, rege-se pelos interesses dos EUA e é simples e primário, como não podia deixar de ser, numa pessoa com a sua mediocridade humana, mental e intelectual. Para ele, as coisas são simples: a democracia é o regime que, em qualquer país do mundo e em cada momento, melhor sirva os interesses do imperialismo norte-americano; se esse regime for alcançado através de «eleições», óptimo; no caso de as eleições não serem manipuladas e de os candidatos do império saírem derrotados, então as eleições são declaradas sem efeito e passa-se ao plano B: a democracia é imposta pela força das armas, com a brutalidade, o terror, a barbárie consideradas necessárias para que o objectivo seja alcançado. Como aconteceu no Iraque. Como aconteceu centenas de vezes, ao longo da história, em múltiplos países.
Daí a sem surpresa da alegria esfuziante de Georges Bush face à condenação à morte de Saddam Hussein. Daí a conclusão tirada e difundida para todo o planeta que aquilo é que era democracia.
Saddam Hussein foi um tirano, um facínora, responsável directo por muitos horrorosos crimes. Lembremos, no entanto, o que não pode ficar esquecido: nos períodos mais sanguinários do seu regime de terror, Saddam foi um homem de mão da CIA e dos respectivos governos norte-americanos. Pelo que, o seu julgamento e condenação pelos crimes então cometidos só seria justo e só faria sentido se, a seu lado, no banco dos réus, estivessem sentados os responsáveis norte-americanos, no mínimo tão culpados como ele por todos esses crimes.
É conhecida a posição do PCP contrária à pena de morte seja qual for o país que a autorize e aplique; é conhecida a nossa posição em relação ao regime ditatorial de Saddam Hussein, cujos crimes fomos o único partido nacional a condenar – todos os crimes, registe-se, desde o assassinato de mais de seis mil militantes comunistas, cometido sob a orientação da CIA (que forneceu a Saddam Hussein os nomes e moradas desses militantes), até aos assassinatos (sempre com o apoio dos Estados Unidos da América) de milhares de outros cidadãos, homens mulheres e jovens progressistas, curdos, etc; é conhecida a nossa posição de condenação e denúncia dos objectivos e da selvajaria da invasão do Iraque pelos EUA em 1991 - a tal da carnificina da estrada de Bassorá, a tal em que as forças do bem (o exército norte-americano) enterraram vivos centenas de soldados das forças do mal (o exército iraquiano) que se haviam rendido; é conhecida a nossa posição outra vez de condenação e denúncia dos objectivos e da selvajaria da segunda invasão, destruição e ocupação do Iraque – e que, somada com a primeira, fez daquele país um imenso cemitério com centenas de milhares de vítimas inocentes; é conhecida, ainda, a nossa posição solidária com a heróica resistência do povo iraquiano à ocupação do seu país – solidariedade que aqui se reafirma inequivocamente.
Estamos, pois, à vontade – e com uma autoridade moral singular - para nos pronunciarmos contra a condenação à morte de Saddam Hussein e para sublinhar a farsa que foi o seu julgamento e a sua condenação, executados pelos títeres dos EUA no Iraque."
Na declaração de José Sócrates – presume-se que feita de livre vontade – o que sobressai é a precisão cirúrgica do primeiro-ministro português na escolha das qualidades que, em seu entender, são atributos louváveis dos Estados Unidos da América. Considerar a prática terrorista do imperialismo norte-americano como uma «política externa» caracterizada por uma «visão humanista» e pelo «respeito dos direitos humanos», constitui, não apenas um insulto à democracia, mas igualmente uma brutal ofensa à memória de centenas de milhares de homens, mulheres, jovens, crianças vítimas dessa «visão humanista» e desse «respeito pelos direitos humanos».
Esta exibição de pró-americanismo primário de José Sócrates – expressa na valorização absoluta daquilo que aos EUA mais interessa que seja valorizado – significa que o primeiro-ministro português apoia e aplaude com fervor democrático as invasões e ocupações de países, os massacres, as prisões arbitrárias de milhares de cidadãos de dezenas de países, o encarceramento desses cidadãos em situação de total isolamento e sem possibilidades de acesso a qualquer tipo de defesa, a sujeição desses cidadãos às mais bárbaras torturas, etc., etc.
O conceito de democracia de Georges Bush, tão apreciado por Sócrates, rege-se pelos interesses dos EUA e é simples e primário, como não podia deixar de ser, numa pessoa com a sua mediocridade humana, mental e intelectual. Para ele, as coisas são simples: a democracia é o regime que, em qualquer país do mundo e em cada momento, melhor sirva os interesses do imperialismo norte-americano; se esse regime for alcançado através de «eleições», óptimo; no caso de as eleições não serem manipuladas e de os candidatos do império saírem derrotados, então as eleições são declaradas sem efeito e passa-se ao plano B: a democracia é imposta pela força das armas, com a brutalidade, o terror, a barbárie consideradas necessárias para que o objectivo seja alcançado. Como aconteceu no Iraque. Como aconteceu centenas de vezes, ao longo da história, em múltiplos países.
Daí a sem surpresa da alegria esfuziante de Georges Bush face à condenação à morte de Saddam Hussein. Daí a conclusão tirada e difundida para todo o planeta que aquilo é que era democracia.
Saddam Hussein foi um tirano, um facínora, responsável directo por muitos horrorosos crimes. Lembremos, no entanto, o que não pode ficar esquecido: nos períodos mais sanguinários do seu regime de terror, Saddam foi um homem de mão da CIA e dos respectivos governos norte-americanos. Pelo que, o seu julgamento e condenação pelos crimes então cometidos só seria justo e só faria sentido se, a seu lado, no banco dos réus, estivessem sentados os responsáveis norte-americanos, no mínimo tão culpados como ele por todos esses crimes.
É conhecida a posição do PCP contrária à pena de morte seja qual for o país que a autorize e aplique; é conhecida a nossa posição em relação ao regime ditatorial de Saddam Hussein, cujos crimes fomos o único partido nacional a condenar – todos os crimes, registe-se, desde o assassinato de mais de seis mil militantes comunistas, cometido sob a orientação da CIA (que forneceu a Saddam Hussein os nomes e moradas desses militantes), até aos assassinatos (sempre com o apoio dos Estados Unidos da América) de milhares de outros cidadãos, homens mulheres e jovens progressistas, curdos, etc; é conhecida a nossa posição de condenação e denúncia dos objectivos e da selvajaria da invasão do Iraque pelos EUA em 1991 - a tal da carnificina da estrada de Bassorá, a tal em que as forças do bem (o exército norte-americano) enterraram vivos centenas de soldados das forças do mal (o exército iraquiano) que se haviam rendido; é conhecida a nossa posição outra vez de condenação e denúncia dos objectivos e da selvajaria da segunda invasão, destruição e ocupação do Iraque – e que, somada com a primeira, fez daquele país um imenso cemitério com centenas de milhares de vítimas inocentes; é conhecida, ainda, a nossa posição solidária com a heróica resistência do povo iraquiano à ocupação do seu país – solidariedade que aqui se reafirma inequivocamente.
Estamos, pois, à vontade – e com uma autoridade moral singular - para nos pronunciarmos contra a condenação à morte de Saddam Hussein e para sublinhar a farsa que foi o seu julgamento e a sua condenação, executados pelos títeres dos EUA no Iraque."
José Casanova, in Jornal «Avante!»
terça-feira, 7 de novembro de 2006
À nossa gente!
ESTA GENTE/ESSA GENTE
O que é preciso é gente
gente com dente
gente que tenha dente
que mostre o dente
Gente que seja decente
nem docente
nem docemente
nem delicodocemente
Gente com mente
com sã mente
que sinta que não mente
que sinta o dente são e a mente
Gente que enterre o dente
que fira de unhas e dente
e mostre o dente potente
ao prepotente
O que é preciso é gente
O que é preciso é gente
gente com dente
gente que tenha dente
que mostre o dente
Gente que seja decente
nem docente
nem docemente
nem delicodocemente
Gente com mente
com sã mente
que sinta que não mente
que sinta o dente são e a mente
Gente que enterre o dente
que fira de unhas e dente
e mostre o dente potente
ao prepotente
O que é preciso é gente
que atire fora com essa gente
Ana Hatherly, poema colhido no blogue Sine Die, onde foi plantado por Eduardo Maia Costa
Ana Hatherly, poema colhido no blogue Sine Die, onde foi plantado por Eduardo Maia Costa
segunda-feira, 6 de novembro de 2006
Arestas de Vento Bom
Ao Ricardo Cardoso,
À Céu Campos, com um imenso obrigado, pela partilha, pela amizade.
A todos e a cada um dos meus amigos
Por um por todos por nenhum
faço o meu canto canto a minha mágoa
num desencanto aberto pelo gume
deste pranto tão limpo como a água.
Por nenhum por todos ou por um
eu dou o meu poema o meu tecido
de palavras gravadas com o lume
do medo que na voz trago vencido.
Por nenhum por um mesmo por todos
sou a bala e o vinho sou o mesmo
que pisa as uvas os versos e o lodo
num chão onde a coragem nasce a esmo.
À Céu Campos, com um imenso obrigado, pela partilha, pela amizade.
A todos e a cada um dos meus amigos
Por um por todos por nenhum
faço o meu canto canto a minha mágoa
num desencanto aberto pelo gume
deste pranto tão limpo como a água.
Por nenhum por todos ou por um
eu dou o meu poema o meu tecido
de palavras gravadas com o lume
do medo que na voz trago vencido.
Por nenhum por um mesmo por todos
sou a bala e o vinho sou o mesmo
que pisa as uvas os versos e o lodo
num chão onde a coragem nasce a esmo.
Joaquim Pessoa
quinta-feira, 2 de novembro de 2006
A LUTA CONTINUA!

“Es que, cuando los hombres llevan en la mente un mismo ideal, nada puede incomunicarlos, ni las paredes de una cárcel, ni la tierra de los cementerios, porque un mismo recuerdo, una misma alma, una misma idea, una misma conciencia y dignidad los alienta a todos.”
Fidel Castro, “A História me Absolverá”
quarta-feira, 1 de novembro de 2006
Pela democracia cultural

“Não temos nada a ensinar; não há certezas a ter, apenas uma maneira de viver que consiste em desembaraçarmo-nos das certezas e do consenso que trazem. A partir do momento em que se acredita saber alguma coisa, começa-se a petrificar a vida, a vê-la através de clichés”
Bernard Sobel, encenador e membro do PCF
Se partirmos da noção de Cultura como o conjunto ou sistema de actividades e práticas, meios e instrumentos, artefactos, obras ou produtos, entenderemos melhor que a actividade cultural abarca, igualmente, os processos de produção, intermediação e consumo que implicam infra-estruturas materiais e sociais, bem como, meios e instrumentos, tecnologias, instituições, aparelhos e mecanismos de comunicação e determinam ou modelam determinadas formas de vida.
Na cultura encontramos uma reflexão ou um fazer que se pensa a si próprio, ao mesmo tempo que pensa o mundo e a vida. Daqui decorre que o combate pela democracia cultural é um combate pela participação, pelo acesso aos bens produzidos, mas também e de forma indissociável, pelo acesso aos meios e instrumentos de produção cultural e à própria criação cultural.
A cultura é memória e renovação. Como militante do PCP não posso deixar de assinalar que sempre apostámos na intervenção cultural como factor de transformação do mundo e da vida, sem esquecer a necessidade de preservação da memória ou tradição, factores de que dependem a identidade comunitária e individual. Para nós, comunistas portugueses, são campos fundamentais de intervenção, por um lado, o Património, e por outro, a criação contemporânea, e, interagindo entre eles de forma central, a educação, o ensino e a investigação.
A distinção entre os três planos sociais da cultura (erudita, de massas e popular) implica, em termos políticos, uma intervenção cultural exigente e diversificada. Por isso é fundamental democratizar a cultura como elemento essencial de progresso social e emancipação individual
Contra o fascismo, O Tempo das Giestas

No passado dia 29, assinalou-se o septuagésimo aniversário da abertura do designado Campo da Morte Lenta, vulgarmente conhecido por Tarrafal. Tudo quanto se possa dizer sobre esse antro de tortura e assassinato político é pouco e não ilustra suficientemente a imensidão da dor por que passaram, é preciso dizê-lo, sobretudo, sucessivas gerações de jovens e respectivas famílias.
Para estudar o que foi o sinistro campo de concentração, marca indelével do regime fascista que durante 48 longos anos aprisionou este país, pode ler-se muita coisa, nomeadamente, os testemunhos dos que lá sofreram o horror inenarrável. A mim, que já li muito sobre o assunto, nada me impressionou mais do que o último romance de José Casanova, “O Tempo das Giestas”, precisamente sobre esta temática.
Espero, por isso, ansioso, que o livro chegue às livrarias. Além de estar magistralmente escrito, o que é habitual nos romances de Casanova, o livro é um MANIFESTO BELÍSSIMO contra o fascismo. E um hino comovente ao Amor e à Amizade.
Para estudar o que foi o sinistro campo de concentração, marca indelével do regime fascista que durante 48 longos anos aprisionou este país, pode ler-se muita coisa, nomeadamente, os testemunhos dos que lá sofreram o horror inenarrável. A mim, que já li muito sobre o assunto, nada me impressionou mais do que o último romance de José Casanova, “O Tempo das Giestas”, precisamente sobre esta temática.
Espero, por isso, ansioso, que o livro chegue às livrarias. Além de estar magistralmente escrito, o que é habitual nos romances de Casanova, o livro é um MANIFESTO BELÍSSIMO contra o fascismo. E um hino comovente ao Amor e à Amizade.
sexta-feira, 27 de outubro de 2006
CUIDADO: MAIS UM PEDÓFILO À SOLTA!
“O principal arguido do processo de pedofilia do Parque Eduardo VII, Pedro Inverno, condenado a 19 anos de cadeia, por 54 crimes de natureza sexual com menores, dois deles da Casa Pia, foi libertado por excesso de prisão preventiva.”Do Correio da Manhã
Tenho 3 filhos e
apesar de toda a doutrina,
De tudo quanto em nome
do Humanismo me ensinaram
Contra as penas cruéis e degradantes,
Apesar do esforço que fiz
para ser contra a pena de morte,
Não obstante ter pensado muito
e já ter mesmo ensinado
que a vingança deve ser monopólio do Estado,
Apesar de saber que existe o erro judiciário,
E que ninguém tem o direito
de tirar a vida a outro ser humano,
Apesar disso tudo,
a verdade é que tenho três filhos.
Que são tudo quanto tenho na vida,
O que mais amo,
O que mais temo perder.
Ora, lendo hoje as notícias,
Esmurrado pela iniquidade da libertação
De mais um pedófilo,
Condenado a 19 anos de prisão,
Bandalho que, como predador voraz,
Vai atacar de novo,
no momento oportuno -pobres crianças!
Relendo as notícias olhei,
Um por um, os meus três tesouros,
O maior motivo da minha existência,
E enquanto soletrei os seus nomes,
a convicção instalou-se serenamente:
Tivesse o porco tocado, um cabelo que fosse,
Num dos meus três filhos, e não haveria
No mundo e arredores,
Tribunal da Relação que lhe valesse.
Esgotada a prisão preventiva,
Oferecia-lhe a viagem definitiva.
Quanto aos códigos, engulam-nos
Os filhos da puta que os moldaram,
Porque se não servem para proteger crianças,
Não servem rigorosamente para nada.
apesar de toda a doutrina,
De tudo quanto em nome
do Humanismo me ensinaram
Contra as penas cruéis e degradantes,
Apesar do esforço que fiz
para ser contra a pena de morte,
Não obstante ter pensado muito
e já ter mesmo ensinado
que a vingança deve ser monopólio do Estado,
Apesar de saber que existe o erro judiciário,
E que ninguém tem o direito
de tirar a vida a outro ser humano,
Apesar disso tudo,
a verdade é que tenho três filhos.
Que são tudo quanto tenho na vida,
O que mais amo,
O que mais temo perder.
Ora, lendo hoje as notícias,
Esmurrado pela iniquidade da libertação
De mais um pedófilo,
Condenado a 19 anos de prisão,
Bandalho que, como predador voraz,
Vai atacar de novo,
no momento oportuno -pobres crianças!
Relendo as notícias olhei,
Um por um, os meus três tesouros,
O maior motivo da minha existência,
E enquanto soletrei os seus nomes,
a convicção instalou-se serenamente:
Tivesse o porco tocado, um cabelo que fosse,
Num dos meus três filhos, e não haveria
No mundo e arredores,
Tribunal da Relação que lhe valesse.
Esgotada a prisão preventiva,
Oferecia-lhe a viagem definitiva.
Quanto aos códigos, engulam-nos
Os filhos da puta que os moldaram,
Porque se não servem para proteger crianças,
Não servem rigorosamente para nada.
segunda-feira, 23 de outubro de 2006
O sofista Flores

Moita Flores, que na passada semana prestou declarações em tribunal, foi desmascarado: afinal o que reiteradamente escreveu sobre as vítimas, difamando-as, era mentira. Interrogado corajosamente por José Maria Martins, foi obrigado a reconhecer, nome após nome, que não conhecia nenhuma das muitas crianças abusadas sexualmente. E no entanto permitiu-se afirmar que os miúdos eram bandidos da pior espécie…
Confirma-se, assim, o que, em resposta a um ataque que me dirigiu, escrevi há um ano no Correio da Manhã, sob o título "O sofista Flores": "(...) É uma pena que o personagem se encontre em tão avançado estado de decomposição. Começou, em Novembro de 2002, por se colocar incondicionalmente ao lado das vítimas da barbárie. Então, o único arguido de que se falava era o Bibi, e Moita escreveu um artigo clamando por justiça e elogiando o autor destas linhas, Catalina Pestana e os que dirigiam a investigação.
Tempos depois, porém, mudava de azimute e entregou-se à tarefa de atacar a investigação. Um dos ataques mais violentos às crianças vitimadas partiu da sua prestativa caneta e Flores pôde ficar-se a rir, grosseiro, porque os miúdos não têm quem lhe exija responsabilidades. Lamento que o professor que tanto admirava tenha soçobrado ante a necessidade de se mostrar útil aos poderosos. Quem quiser estudar a sabujice e adulação tem que ler o tratado que Moita escreveu sob a forma de carta a Ferro Rodrigues. Nesse documento, junto aos autos, Flores desnuda-se e o que se vê indigna até as pedras da calçada(...)".
Agora, o Dr. josé Maria Martins escreveu no seu blogue um texto que não resisto a transcrever:
Domingo, Outubro 22, 2006
Parece que o dinheiro compra tudo: cavalos , parelhas e montes. Arisóofanes, um escritor grego , produziu uma das mais belas obras sobre a riqueza, o poder do dinheiro, obra denominada "Pluto", que em grego quer dizer dinheiro e riqueza. Escreveu ele, num dado momento dessa obra, pondo em diálogo dois escravos e ele próprio:
"Pluto - Que dizes tu? É por minha causa que lhe fazem sacrifícios?
Crémilo - É o que te digo. E por Zeus, se há alguma coisa de brilhante, belo e agradável aos homens, é graças a ti que acontece. Tudo está submetido à riqueza.
Carião - Eu, por exemplo sou escravo por causa de meia dúzia de patacos, eu que antes era livre.
Crémilo - E dizem que as prostitutas de Corinto quando um pobre , por acaso, as tenta, nem sequer lhe prestam atenção. Mas se é um rico , logo lhe oferecem o cu."
Ora, caros amigos, isto está hoje, quase 2.500 anos depois, igual. O Dr. Moita Flores é co-autor de um livro sobre o escândalo sexual do Estado Novo, o aproveitamento de grandes senhores do regime da miséria de prostitutas e das filhas menores, que eram vendidas para o prazer dos valentões, ministros, banqueiros, padres e quejandos. Escreve Moita Flores ( e Felicia Cabrita) num dado passo da obra "Ballet Rose", pondo em diálogo o agente da PJ , o Afonso , a quem foi distribuido o processo e que estava aflito, com o inspector da PJ , o doutor Josue , que lho mandou investigar:
" - Vossa Excelência leu nos nomes que constam da informação?
- Li - Respondeu , imperturbável.
- Desculpe , eu sei que não é da minha conta, mas Vossa Excelência não acha que estamos a ir longe de mais? Há aqui nomes que são referências do regime, gente importante , poderosa. Não sei, senhor inspector!
O inspector Josué decidiu olhá-lo de frente.
-Está com medo?
-É muito perigoso, senhor doutor, e eu só tenho este emprego. Não sei fazer mais nada! - balbuciou, nervoso.
Fechou a caneta e olhou distraído para a janela. A pergunta colheu Afonso de surpresa.
- Tem filhos, Afonso?
-Desculpe, não percebi...
-Perguntei-lhe se tem filhos!
-Não , por acaso não - gaguejou.
- É pena . Talvez compreendesse melhor porque é que não podemos ficar de braços cruzados! - De repente as palavras tornaram-se metálicas - Quero descobrir tudo. Homens, mulheres, crianças. Quero aí preto no branco, quem dorme com mulheres, quem se deita com as miúdas, quanto pagam, onde o fazem e, sobretudo, perceber!...
Afonso estava desorientado.
-Perceber?!...
-Perceber o prazer que alguém pode ter em prostituir crianças. Crianças, agente Afonso. Não lhe causa repugnância?
-Sim, claro.
-Então cumpra o seu dever ."
Bom, a verdade é que tudo isto é hoje igual. Mudam-se os tempos mudam-se as vontades. A choldra é a mesma. Os "senhores de qualquer regime" só clamam por justiça quando não são eles a estar na corda bamba. Os escribas são sempre a voz do dono: de Pluto. Antes e hoje."
sexta-feira, 20 de outubro de 2006
Ao Ricardo Cardoso, com um abraço!
Ao meu amigo Ricardo Cardoso, autor do melhor programa de rádio em Portugal
"Uma maior atenção à cultura poderia contribuir decididamente para a ascensão do povo português a um patamar mais alto de convívio com as ideias, as formas e a sua própria formação e descoberta dos outros, dos sentimentos, da vida social, dos sonhos e dos saberes através dessa arte da palavra e da reinvenção da vida que é a literatura."
Urbano Tavares Rodrigues
"Uma maior atenção à cultura poderia contribuir decididamente para a ascensão do povo português a um patamar mais alto de convívio com as ideias, as formas e a sua própria formação e descoberta dos outros, dos sentimentos, da vida social, dos sonhos e dos saberes através dessa arte da palavra e da reinvenção da vida que é a literatura."
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