quinta-feira, 2 de novembro de 2006

A LUTA CONTINUA!



Es que, cuando los hombres llevan en la mente un mismo ideal, nada puede incomunicarlos, ni las paredes de una cárcel, ni la tierra de los cementerios, porque un mismo recuerdo, una misma alma, una misma idea, una misma conciencia y dignidad los alienta a todos.”

Fidel Castro, “A História me Absolverá”

quarta-feira, 1 de novembro de 2006

Pela democracia cultural




Não temos nada a ensinar; não há certezas a ter, apenas uma maneira de viver que consiste em desembaraçarmo-nos das certezas e do consenso que trazem. A partir do momento em que se acredita saber alguma coisa, começa-se a petrificar a vida, a vê-la através de clichés
Bernard Sobel, encenador e membro do PCF


Se partirmos da noção de Cultura como o conjunto ou sistema de actividades e práticas, meios e instrumentos, artefactos, obras ou produtos, entenderemos melhor que a actividade cultural abarca, igualmente, os processos de produção, intermediação e consumo que implicam infra-estruturas materiais e sociais, bem como, meios e instrumentos, tecnologias, instituições, aparelhos e mecanismos de comunicação e determinam ou modelam determinadas formas de vida.

Na cultura encontramos uma reflexão ou um fazer que se pensa a si próprio, ao mesmo tempo que pensa o mundo e a vida. Daqui decorre que o combate pela democracia cultural é um combate pela participação, pelo acesso aos bens produzidos, mas também e de forma indissociável, pelo acesso aos meios e instrumentos de produção cultural e à própria criação cultural.

A cultura é memória e renovação. Como militante do PCP não posso deixar de assinalar que sempre apostámos na intervenção cultural como factor de transformação do mundo e da vida, sem esquecer a necessidade de preservação da memória ou tradição, factores de que dependem a identidade comunitária e individual. Para nós, comunistas portugueses, são campos fundamentais de intervenção, por um lado, o Património, e por outro, a criação contemporânea, e, interagindo entre eles de forma central, a educação, o ensino e a investigação.

A distinção entre os três planos sociais da cultura (erudita, de massas e popular) implica, em termos políticos, uma intervenção cultural exigente e diversificada. Por isso é fundamental democratizar a cultura como elemento essencial de progresso social e emancipação individual

Contra o fascismo, O Tempo das Giestas


No passado dia 29, assinalou-se o septuagésimo aniversário da abertura do designado Campo da Morte Lenta, vulgarmente conhecido por Tarrafal. Tudo quanto se possa dizer sobre esse antro de tortura e assassinato político é pouco e não ilustra suficientemente a imensidão da dor por que passaram, é preciso dizê-lo, sobretudo, sucessivas gerações de jovens e respectivas famílias.
Para estudar o que foi o sinistro campo de concentração, marca indelével do regime fascista que durante 48 longos anos aprisionou este país, pode ler-se muita coisa, nomeadamente, os testemunhos dos que lá sofreram o horror inenarrável. A mim, que já li muito sobre o assunto, nada me impressionou mais do que o último romance de José Casanova, “O Tempo das Giestas”, precisamente sobre esta temática.
Espero, por isso, ansioso, que o livro chegue às livrarias. Além de estar magistralmente escrito, o que é habitual nos romances de Casanova, o livro é um MANIFESTO BELÍSSIMO contra o fascismo. E um hino comovente ao Amor e à Amizade.

sexta-feira, 27 de outubro de 2006

CUIDADO: MAIS UM PEDÓFILO À SOLTA!

“O principal arguido do processo de pedofilia do Parque Eduardo VII, Pedro Inverno, condenado a 19 anos de cadeia, por 54 crimes de natureza sexual com menores, dois deles da Casa Pia, foi libertado por excesso de prisão preventiva.”
Do Correio da Manhã







Tenho 3 filhos e
apesar de toda a doutrina,

De tudo quanto em nome
do Humanismo me ensinaram

Contra as penas cruéis e degradantes,
Apesar do esforço que fiz
para ser contra a pena de morte,

Não obstante ter pensado muito
e já ter mesmo
ensinado
que a
vingança deve ser monopólio do Estado,
Apesar de saber que existe o erro judiciário,
E que ninguém tem o direito
de tirar a vida a outro ser humano,

Apesar disso tudo,
a verdade é que tenho três filhos.

Que são tudo quanto tenho na vida,
O que mais amo,
O que mais temo perder.
Ora, lendo hoje as notícias,
Esmurrado pela iniquidade da libertação
De mais um pedófilo,
Condenado a 19 anos de prisão,

Bandalho que, como predador voraz,
Vai atacar de novo,
no momento oportuno -pobres crianças!
Relendo as notícias o
lhei,
Um por um, os meus três tesouros,

O maior motivo da minha existência,
E enquanto soletrei os seus nomes,
a convicção instalou-se serenamente:
Tivesse o porco tocado, um cabelo que fosse,
Num dos meus três filhos, e não haveria
No mundo e arredores,
Tribunal da Relação que lhe valesse.

Esgotada a prisão preventiva,
Oferecia-lhe a viagem definitiva.

Quanto aos códigos, engulam-nos
Os filhos da puta que os moldaram,

Porque se não servem para proteger crianças,
Não servem rigorosamente
para nada.

segunda-feira, 23 de outubro de 2006

O sofista Flores



Moita Flores, que na passada semana prestou declarações em tribunal, foi desmascarado: afinal o que reiteradamente escreveu sobre as vítimas, difamando-as, era mentira. Interrogado corajosamente por José Maria Martins, foi obrigado a reconhecer, nome após nome, que não conhecia nenhuma das muitas crianças abusadas sexualmente. E no entanto permitiu-se afirmar que os miúdos eram bandidos da pior espécie…

Confirma-se, assim, o que, em resposta a um ataque que me dirigiu, escrevi há um ano no Correio da Manhã, sob o título "O sofista Flores": "(...) É uma pena que o personagem se encontre em tão avançado estado de decomposição. Começou, em Novembro de 2002, por se colocar incondicionalmente ao lado das vítimas da barbárie. Então, o único arguido de que se falava era o Bibi, e Moita escreveu um artigo clamando por justiça e elogiando o autor destas linhas, Catalina Pestana e os que dirigiam a investigação.
Tempos depois, porém, mudava de azimute e entregou-se à tarefa de atacar a investigação. Um dos ataques mais violentos às crianças vitimadas partiu da sua prestativa caneta e Flores pôde ficar-se a rir, grosseiro, porque os miúdos não têm quem lhe exija responsabilidades. Lamento que o professor que tanto admirava tenha soçobrado ante a necessidade de se mostrar útil aos poderosos. Quem quiser estudar a sabujice e adulação tem que ler o tratado que Moita escreveu sob a forma de carta a Ferro Rodrigues. Nesse documento, junto aos autos, Flores desnuda-se e o que se vê indigna até as pedras da calçada(...)".
Agora, o Dr. josé Maria Martins escreveu no seu blogue um texto que não resisto a transcrever:
Domingo, Outubro 22, 2006

A "coltura" e a "ética" do dinheiro

Parece que o dinheiro compra tudo: cavalos , parelhas e montes. Arisóofanes, um escritor grego , produziu uma das mais belas obras sobre a riqueza, o poder do dinheiro, obra denominada "Pluto", que em grego quer dizer dinheiro e riqueza. Escreveu ele, num dado momento dessa obra, pondo em diálogo dois escravos e ele próprio:
"Pluto - Que dizes tu? É por minha causa que lhe fazem sacrifícios?
Crémilo - É o que te digo. E por Zeus, se há alguma coisa de brilhante, belo e agradável aos homens, é graças a ti que acontece. Tudo está submetido à riqueza.
Carião - Eu, por exemplo sou escravo por causa de meia dúzia de patacos, eu que antes era livre.
Crémilo - E dizem que as prostitutas de Corinto quando um pobre , por acaso, as tenta, nem sequer lhe prestam atenção. Mas se é um rico , logo lhe oferecem o cu."

Ora, caros amigos, isto está hoje, quase 2.500 anos depois, igual. O Dr. Moita Flores é co-autor de um livro sobre o escândalo sexual do Estado Novo, o aproveitamento de grandes senhores do regime da miséria de prostitutas e das filhas menores, que eram vendidas para o prazer dos valentões, ministros, banqueiros, padres e quejandos. Escreve Moita Flores ( e Felicia Cabrita) num dado passo da obra "Ballet Rose", pondo em diálogo o agente da PJ , o Afonso , a quem foi distribuido o processo e que estava aflito, com o inspector da PJ , o doutor Josue , que lho mandou investigar:

" - Vossa Excelência leu nos nomes que constam da informação?
- Li - Respondeu , imperturbável.
- Desculpe , eu sei que não é da minha conta, mas Vossa Excelência não acha que estamos a ir longe de mais? Há aqui nomes que são referências do regime, gente importante , poderosa. Não sei, senhor inspector!
O inspector Josué decidiu olhá-lo de frente.
-Está com medo?
-É muito perigoso, senhor doutor, e eu só tenho este emprego. Não sei fazer mais nada! - balbuciou, nervoso.
Fechou a caneta e olhou distraído para a janela. A pergunta colheu Afonso de surpresa.
- Tem filhos, Afonso?
-Desculpe, não percebi...
-Perguntei-lhe se tem filhos!
-Não , por acaso não - gaguejou.
- É pena . Talvez compreendesse melhor porque é que não podemos ficar de braços cruzados! - De repente as palavras tornaram-se metálicas - Quero descobrir tudo. Homens, mulheres, crianças. Quero aí preto no branco, quem dorme com mulheres, quem se deita com as miúdas, quanto pagam, onde o fazem e, sobretudo, perceber!...
Afonso estava desorientado.
-Perceber?!...
-Perceber o prazer que alguém pode ter em prostituir crianças. Crianças, agente Afonso. Não lhe causa repugnância?
-Sim, claro.
-Então cumpra o seu dever ."

Bom, a verdade é que tudo isto é hoje igual. Mudam-se os tempos mudam-se as vontades. A choldra é a mesma. Os "senhores de qualquer regime" só clamam por justiça quando não são eles a estar na corda bamba. Os escribas são sempre a voz do dono: de Pluto. Antes e hoje."

sexta-feira, 20 de outubro de 2006

Ao Ricardo Cardoso, com um abraço!

Ao meu amigo Ricardo Cardoso, autor do melhor programa de rádio em Portugal

"Uma maior atenção à cultura poderia contribuir decididamente para a ascensão do povo português a um patamar mais alto de convívio com as ideias, as formas e a sua própria formação e descoberta dos outros, dos sentimentos, da vida social, dos sonhos e dos saberes através dessa arte da palavra e da reinvenção da vida que é a literatura."


Urbano Tavares Rodrigues

quinta-feira, 19 de outubro de 2006

Carta aberta a José Sócrates


DA NET:
"Esta é a terceira carta que lhe dirijo. As duas primeiras motivadas por um convite que formulou mas não honrou, ficaram descortesmente sem resposta. A forma escolhida para a presente é obviamente retórica e assenta NUM DIREITO QUE O SENHOR AINDA NÃO ELIMINOU: o de manifestar publicamente indignação perante a mentira e as opções injustas e erradas da governação. Por acção e omissão, o Senhor deu uma boa achega à ideia, que ultimamente ganhou forma na sociedade portuguesa, segundo a qual os funcionários públicos seriam os responsáveis primeiros pelo descalabro das contas do Estado e pelos malefícios da nossa economia. Sendo a administração pública a própria imagem do Estado junto do cidadão comum, é quase masoquista o seu comportamento. Desminta, se puder, o que passo a afirmar:
1.º - Do Statics in Focus n.º 41/2004, produzido pelo departamento oficial de estatísticas da União Europeia, retira-se que a despesa portuguesa com os salários e benefícios sociais dos funcionários públicos é inferior à mesma despesa média dos restantes países da Zona Euro;
2.º - Outra publicação da Comissão Europeia, L´Emploi en Europe 2003, permite comparar a percentagem dos empregados do Estado em relação à totalidade dos empregados de cada país da Europa dos 12. E o que vemos? Que em média nessa Europa 25,6 por cento dos empregados são empregados do Estado, enquanto em Portugal essa percentagem é de apenas 18 por cento. Ou seja, a mais baixa dos 12 países, com excepção da Espanha. As ricas Dinamarca e Suécia têm quase o dobro, respectivamente 32 e 32,6 por cento. Se fosse directa a relação entre o peso da administração pública e o défice, como estaria o défice destes dois países?
Sendo a administração pública a própria imagem do Estado junto do cidadão comum, é quase masoquista o seu comportamento.
3º - Um dos slogans mais usados é do peso das despesas da saúde. A insuspeita OCDE diz que na Europa dos 15 o gasto médio por habitante é de 1458. Em Portugal esse gasto é 758. Todos os restantes países, com excepção da Grécia, gastam mais que nós. A França 2730, a Austria 2139, a Irlanda 1688, a Finlândia 1539, a Dinamarca 1799, etc.
Com o anterior não pretendo dizer que a administração pública é um poço de virtudes. Não é. Presta serviços que não justificam o dinheiro que consome. Particularmente na saúde, na educação e na justiça. É um santuário de burocracia, de ineficiência e de ineficácia. Mas infelizmente os mesmos paradigmas são transferíveis para o sector privado. Donde a questão não reside no maniqueísmo em que o Senhor e o seu ministro das Finanças caíram, lançando um perigoso anátema sobre o funcionalismo público. A questão reside em corrigir o que está mal, seja público, seja privado. A questão reside em fazer escolhas acertadas.
O Senhor optou pelas piores. De entre muitas razões que o espaço não permite, deixe-me que lhe aponte duas: Sobre o sistema de reformas dos funcionários públicos têm-se dito barbaridades. Como é sabido, a taxa social sobre os salários cifra-se em 34,75 por cento (11 por cento pagos pelo trabalhador, 23,75 por cento pagos pelo patrão

OS FUNCIONÁRIOS PÚBLICOS PAGAM OS SEUS 11 POR CENTO. Mas O SEU PATRÃO ESTADO NÃO ENTREGA MENSALMENTE À CAIXA GERAL DE APOSENTAÇÕES, COMO LHE COMPETIA E EXIGE AOS DEMAIS EMPREGADORES, os seus 23,75 por cento. E é assim que as "transferências" orçamentais assumem perante a opinião pública não esclarecida o odioso de serem formas de sugar os dinheiros públicos.
Por outro lado, todos os funcionários públicos que entraram ao serviço em Setembro de 1993 já verão a sua reforma ser calculada segundo os critérios aplicados aos restantes portugueses. Estamos a falar de quase metade dos activos. E o sistema estabilizará nessa base em pouco mais de uma década.
Mas o seu pior erro, Senhor Engenheiro, foi ter escolhido para artífice das iniquidades que subjazem à sua política o ministro Campos e Cunha, que não teve pruridos políticos, morais ou éticos", por acumular aos seus 7.000 Euros de salário, os 8.000 de uma reforma conseguida aos 49 anos de idade e com 6 anos de serviço. E com a agravante de a obscena decisão legal que a suporta ter origem numa proposta de um colégio de que o próprio fazia parte.
Quando escolheu aumentar os impostos, viu o défice e ignorou a economia. Foi ao arrepio do que se passa na Europa. A Finlândia dos seus encantos, baixou-os em 4 pontos percentuais, a Suécia em 3,3 e a Alemanha em 3,2. Por outro lado, fala em austeridade de cátedra, e é apologista juntamente com o presidente da Câmara Municipal de Viana do Castelo, da implosão de uma torre ( Prédio Coutinho ) onde vivem mais de 300 pessoas. Quanto vão custar essas indemnizações, mais a indemnização milionária que pede o arquitecto que a construiu, além do derrube em si?
Por que não defende V. Exa a mesma implosão de uma outra torre, na Covilhã ( ver Correio da Manhã de 17/10/2005 ), em tempos defendida pela Câmara, e que agora já não vai abaixo? Será porque o autor do projecto é o Arquitecto Fernando Pinto de Sousa, por acaso pai do Senhor Engenheiro, Primeiro Ministro deste país?
Por que não optou por cobrar os 3,2 mil milhões de Euros que as empresas privadas devem à Segurança Social ? Por que não pôs em prática um plano para fazer a execução das dívidas fiscais pendentes nos tribunais Tributários e que somam 20 mil milhões de Euros ? Por que não actuou do lado dos benefícios fiscais que em 2004 significaram 1.000 milhões de Euros ? Por que não modificou o quadro legal que permite aos bancos, que duplicaram lucros em época recessiva, pagar apenas 13 por cento de impostos ? Por que não renovou a famigerada Reserva Fiscal de Investimento que permitiu à PT não pagar impostos pelos prejuízos que teve no Brasil, o que, por junto, representará cerca de 6.500 milhões de Euros de receita perdida ?

A Verdade e a Coragem foram atributos que Vossa Excelência invocou para se diferenciar dos seus opositores. QUANDO SUBIU OS IMPOSTOS, QUE PERANTE MILHÕES DE PORTUGUESES GARANTIU QUE NÃO SUBIRIA, FICÁMOS TODOS ESCLARECIDOS SOBRE A SUA VERDADE. QUANDO ELEGEU OS DESEMPREGADOS , OS REFORMADOS E OS FUNCIONÁRIOS PÚBLICOS COMO PRINCIPAIS INSTRUMENTOS DE COMBATE AO DÉFICE, PERCEBEMOS DE QUE TEOR É A SUA CORAGEM."
Santana Castilho (Professor Ensino Superior)

quarta-feira, 18 de outubro de 2006

Fernando Tordo

Fernando Tordo é um poeta-cantor fabuloso. Durante os anos da adolescência coleccionei os seus discos, e as letras que escreveu ajudaram-me a crescer. Admirei o seu posicionamento corajoso, coerente, frontal e solidário. Na noite em que morreu Francisco Miguel, o heróico resistente antifascista, a determinado momento ficámos apenas três pessoas a velá-lo no centro do PCP de Alcantâra: eu, o António Alves (já falecido) e o Fernando Tordo.
Um dia soube que o Tordo decidira partir para outras paragens. E a desilusão doeu. Com o tempo, porém, descobri que o intelectual que admirava, por mais viagens que fizesse, permaneceria inalterável nas pérolas que nos legou e de que aqui deixo um exemplo de que gosto muito (com muita pena por não poder oferecer-vos, igualmente, a belíssima música que compôs para este poema) .


Sou de outras coisas

Sou de outras coisas
pertenço ao tempo que há-de vir sem ser futuro
e sou amante da profunda liberdade
sou parte inteira de uma vida vagabunda
sou evadido da tristeza e da ansiedade

Sou doutras coisas
fiz o meu barco com guitarras e com folhas
e com o vento fiz a vela que me leva
sou pescador de coisas belas, de emoções
sou a maré que sempre sobe e não sossega

Sou das pessoas que me querem e que eu amo
vivo com elas por saber quanto lhes quero
a minha casa é uma ilha é uma pedra
que me entregaram num abraço tão sincero

Sou doutras coisas
sou de pensar que a grandeza está no homem
porque é o homem o mais lindo continente
tanto me faz que a terra seja longa ou curta
tranco-me aqui por ser humano e por ser gente

Sou doutras coisas
sou de entender a dor alheia que é a minha
sou de quem parte com a mágoa de quem fica
mas também sou de querer sonhar o novo dia
- Sou dos lugares onde se baila a chamarrita.




Letra e música: Fernando Tordo
In: "Anticiclone", 1984

segunda-feira, 16 de outubro de 2006

Mais uma vitória!

Tinha eu acabado de agradecer o apoio recebido pelo post anterior, quando, ao consultar o blogue do Dr. José Maria Martins, soube da boa nova, que transcrevo feliz:


"Segunda-feira, Outubro 16, 2006
Do Portugal Profundo
Fez-se Justiça ao nosso amigo Prof. António Balbino Caldeira

Este post é só para amigos nossos e para nossos amigos.

Por um mero acaso tive a honra de ser solicitado pelo nosso amigo Prof. António Caldeira para o defender no Tribunal de Alcobaça.

Eu até era testemunha, abonatória, mas acabei por ser advogado dele.

Foi absolvido.

O Mº Pº recorreu para o Tribunal da Relação de Coimbra.

Agora o Tribunal da Relação de Coimbra negou provimento ao recurso do Mº Pº e absolveu, definitivamente, o nosso amigo Prof. António Caldeira.

A Mª Juiz que absolveu o Prof. António Caldeira, apesar de jovem esteve muito bem. Mesmo quando houve algum conflito comigo esteve bem. Foi uma senhora magistrada. Quis e fez justiça.

Agora o Tribunal da Relação de Coimbra deu-lhe e deu-nos razão. Não havia qualquer crime.

É com decisões destas - aliás muito bem fundamentadas - serenas, calmas, cheias de razão e prudência , que nós temos razão para lutar pela democracia e pelas liberdades e direitos humanos.

Triunfou a Justiça."


Contra a mentira!

Na sala do tribunal, os funcionários conluiados convertem-se em diligentes trabalhadores e esmerados pais de família. Tudo pelas crianças, garantem à juíza. No banco de trás, o arguido agita-se indignado. Revê os rostos familiares dos amigos desaparecidos. Evoca os relatos das atrocidades que sofreram. Tantas crianças destruídas, tanta dor e os canalhas persistem na desvergonha de negar a incúria, o abandono, a negligência.
Por um momento, recorda o exemplo de Francisco, personagem central de “O Caminho das Aves”, e apetece-lhe gritar, mesmo prejudicando a defesa, contra aqueles bandidos. Perante o seu olhar revoltado e triste, o filme passa célere: os bandidos protegem-se, como há vinte anos, uns aos outros. E souberam de tudo desde o início…
Apetece-lhe gritar. Mas o olhar terno da magistrada mitiga-lhe a raiva.
- Quer falar? – pergunta-lhe compreensiva. Que sim, responde aliviado. E fala, fala muito. Depois, olhando sempre nos olhos a juíza, senta-se, reconfortado.