quinta-feira, 19 de outubro de 2006

Carta aberta a José Sócrates


DA NET:
"Esta é a terceira carta que lhe dirijo. As duas primeiras motivadas por um convite que formulou mas não honrou, ficaram descortesmente sem resposta. A forma escolhida para a presente é obviamente retórica e assenta NUM DIREITO QUE O SENHOR AINDA NÃO ELIMINOU: o de manifestar publicamente indignação perante a mentira e as opções injustas e erradas da governação. Por acção e omissão, o Senhor deu uma boa achega à ideia, que ultimamente ganhou forma na sociedade portuguesa, segundo a qual os funcionários públicos seriam os responsáveis primeiros pelo descalabro das contas do Estado e pelos malefícios da nossa economia. Sendo a administração pública a própria imagem do Estado junto do cidadão comum, é quase masoquista o seu comportamento. Desminta, se puder, o que passo a afirmar:
1.º - Do Statics in Focus n.º 41/2004, produzido pelo departamento oficial de estatísticas da União Europeia, retira-se que a despesa portuguesa com os salários e benefícios sociais dos funcionários públicos é inferior à mesma despesa média dos restantes países da Zona Euro;
2.º - Outra publicação da Comissão Europeia, L´Emploi en Europe 2003, permite comparar a percentagem dos empregados do Estado em relação à totalidade dos empregados de cada país da Europa dos 12. E o que vemos? Que em média nessa Europa 25,6 por cento dos empregados são empregados do Estado, enquanto em Portugal essa percentagem é de apenas 18 por cento. Ou seja, a mais baixa dos 12 países, com excepção da Espanha. As ricas Dinamarca e Suécia têm quase o dobro, respectivamente 32 e 32,6 por cento. Se fosse directa a relação entre o peso da administração pública e o défice, como estaria o défice destes dois países?
Sendo a administração pública a própria imagem do Estado junto do cidadão comum, é quase masoquista o seu comportamento.
3º - Um dos slogans mais usados é do peso das despesas da saúde. A insuspeita OCDE diz que na Europa dos 15 o gasto médio por habitante é de 1458. Em Portugal esse gasto é 758. Todos os restantes países, com excepção da Grécia, gastam mais que nós. A França 2730, a Austria 2139, a Irlanda 1688, a Finlândia 1539, a Dinamarca 1799, etc.
Com o anterior não pretendo dizer que a administração pública é um poço de virtudes. Não é. Presta serviços que não justificam o dinheiro que consome. Particularmente na saúde, na educação e na justiça. É um santuário de burocracia, de ineficiência e de ineficácia. Mas infelizmente os mesmos paradigmas são transferíveis para o sector privado. Donde a questão não reside no maniqueísmo em que o Senhor e o seu ministro das Finanças caíram, lançando um perigoso anátema sobre o funcionalismo público. A questão reside em corrigir o que está mal, seja público, seja privado. A questão reside em fazer escolhas acertadas.
O Senhor optou pelas piores. De entre muitas razões que o espaço não permite, deixe-me que lhe aponte duas: Sobre o sistema de reformas dos funcionários públicos têm-se dito barbaridades. Como é sabido, a taxa social sobre os salários cifra-se em 34,75 por cento (11 por cento pagos pelo trabalhador, 23,75 por cento pagos pelo patrão

OS FUNCIONÁRIOS PÚBLICOS PAGAM OS SEUS 11 POR CENTO. Mas O SEU PATRÃO ESTADO NÃO ENTREGA MENSALMENTE À CAIXA GERAL DE APOSENTAÇÕES, COMO LHE COMPETIA E EXIGE AOS DEMAIS EMPREGADORES, os seus 23,75 por cento. E é assim que as "transferências" orçamentais assumem perante a opinião pública não esclarecida o odioso de serem formas de sugar os dinheiros públicos.
Por outro lado, todos os funcionários públicos que entraram ao serviço em Setembro de 1993 já verão a sua reforma ser calculada segundo os critérios aplicados aos restantes portugueses. Estamos a falar de quase metade dos activos. E o sistema estabilizará nessa base em pouco mais de uma década.
Mas o seu pior erro, Senhor Engenheiro, foi ter escolhido para artífice das iniquidades que subjazem à sua política o ministro Campos e Cunha, que não teve pruridos políticos, morais ou éticos", por acumular aos seus 7.000 Euros de salário, os 8.000 de uma reforma conseguida aos 49 anos de idade e com 6 anos de serviço. E com a agravante de a obscena decisão legal que a suporta ter origem numa proposta de um colégio de que o próprio fazia parte.
Quando escolheu aumentar os impostos, viu o défice e ignorou a economia. Foi ao arrepio do que se passa na Europa. A Finlândia dos seus encantos, baixou-os em 4 pontos percentuais, a Suécia em 3,3 e a Alemanha em 3,2. Por outro lado, fala em austeridade de cátedra, e é apologista juntamente com o presidente da Câmara Municipal de Viana do Castelo, da implosão de uma torre ( Prédio Coutinho ) onde vivem mais de 300 pessoas. Quanto vão custar essas indemnizações, mais a indemnização milionária que pede o arquitecto que a construiu, além do derrube em si?
Por que não defende V. Exa a mesma implosão de uma outra torre, na Covilhã ( ver Correio da Manhã de 17/10/2005 ), em tempos defendida pela Câmara, e que agora já não vai abaixo? Será porque o autor do projecto é o Arquitecto Fernando Pinto de Sousa, por acaso pai do Senhor Engenheiro, Primeiro Ministro deste país?
Por que não optou por cobrar os 3,2 mil milhões de Euros que as empresas privadas devem à Segurança Social ? Por que não pôs em prática um plano para fazer a execução das dívidas fiscais pendentes nos tribunais Tributários e que somam 20 mil milhões de Euros ? Por que não actuou do lado dos benefícios fiscais que em 2004 significaram 1.000 milhões de Euros ? Por que não modificou o quadro legal que permite aos bancos, que duplicaram lucros em época recessiva, pagar apenas 13 por cento de impostos ? Por que não renovou a famigerada Reserva Fiscal de Investimento que permitiu à PT não pagar impostos pelos prejuízos que teve no Brasil, o que, por junto, representará cerca de 6.500 milhões de Euros de receita perdida ?

A Verdade e a Coragem foram atributos que Vossa Excelência invocou para se diferenciar dos seus opositores. QUANDO SUBIU OS IMPOSTOS, QUE PERANTE MILHÕES DE PORTUGUESES GARANTIU QUE NÃO SUBIRIA, FICÁMOS TODOS ESCLARECIDOS SOBRE A SUA VERDADE. QUANDO ELEGEU OS DESEMPREGADOS , OS REFORMADOS E OS FUNCIONÁRIOS PÚBLICOS COMO PRINCIPAIS INSTRUMENTOS DE COMBATE AO DÉFICE, PERCEBEMOS DE QUE TEOR É A SUA CORAGEM."
Santana Castilho (Professor Ensino Superior)

quarta-feira, 18 de outubro de 2006

Fernando Tordo

Fernando Tordo é um poeta-cantor fabuloso. Durante os anos da adolescência coleccionei os seus discos, e as letras que escreveu ajudaram-me a crescer. Admirei o seu posicionamento corajoso, coerente, frontal e solidário. Na noite em que morreu Francisco Miguel, o heróico resistente antifascista, a determinado momento ficámos apenas três pessoas a velá-lo no centro do PCP de Alcantâra: eu, o António Alves (já falecido) e o Fernando Tordo.
Um dia soube que o Tordo decidira partir para outras paragens. E a desilusão doeu. Com o tempo, porém, descobri que o intelectual que admirava, por mais viagens que fizesse, permaneceria inalterável nas pérolas que nos legou e de que aqui deixo um exemplo de que gosto muito (com muita pena por não poder oferecer-vos, igualmente, a belíssima música que compôs para este poema) .


Sou de outras coisas

Sou de outras coisas
pertenço ao tempo que há-de vir sem ser futuro
e sou amante da profunda liberdade
sou parte inteira de uma vida vagabunda
sou evadido da tristeza e da ansiedade

Sou doutras coisas
fiz o meu barco com guitarras e com folhas
e com o vento fiz a vela que me leva
sou pescador de coisas belas, de emoções
sou a maré que sempre sobe e não sossega

Sou das pessoas que me querem e que eu amo
vivo com elas por saber quanto lhes quero
a minha casa é uma ilha é uma pedra
que me entregaram num abraço tão sincero

Sou doutras coisas
sou de pensar que a grandeza está no homem
porque é o homem o mais lindo continente
tanto me faz que a terra seja longa ou curta
tranco-me aqui por ser humano e por ser gente

Sou doutras coisas
sou de entender a dor alheia que é a minha
sou de quem parte com a mágoa de quem fica
mas também sou de querer sonhar o novo dia
- Sou dos lugares onde se baila a chamarrita.




Letra e música: Fernando Tordo
In: "Anticiclone", 1984

segunda-feira, 16 de outubro de 2006

Mais uma vitória!

Tinha eu acabado de agradecer o apoio recebido pelo post anterior, quando, ao consultar o blogue do Dr. José Maria Martins, soube da boa nova, que transcrevo feliz:


"Segunda-feira, Outubro 16, 2006
Do Portugal Profundo
Fez-se Justiça ao nosso amigo Prof. António Balbino Caldeira

Este post é só para amigos nossos e para nossos amigos.

Por um mero acaso tive a honra de ser solicitado pelo nosso amigo Prof. António Caldeira para o defender no Tribunal de Alcobaça.

Eu até era testemunha, abonatória, mas acabei por ser advogado dele.

Foi absolvido.

O Mº Pº recorreu para o Tribunal da Relação de Coimbra.

Agora o Tribunal da Relação de Coimbra negou provimento ao recurso do Mº Pº e absolveu, definitivamente, o nosso amigo Prof. António Caldeira.

A Mª Juiz que absolveu o Prof. António Caldeira, apesar de jovem esteve muito bem. Mesmo quando houve algum conflito comigo esteve bem. Foi uma senhora magistrada. Quis e fez justiça.

Agora o Tribunal da Relação de Coimbra deu-lhe e deu-nos razão. Não havia qualquer crime.

É com decisões destas - aliás muito bem fundamentadas - serenas, calmas, cheias de razão e prudência , que nós temos razão para lutar pela democracia e pelas liberdades e direitos humanos.

Triunfou a Justiça."


Contra a mentira!

Na sala do tribunal, os funcionários conluiados convertem-se em diligentes trabalhadores e esmerados pais de família. Tudo pelas crianças, garantem à juíza. No banco de trás, o arguido agita-se indignado. Revê os rostos familiares dos amigos desaparecidos. Evoca os relatos das atrocidades que sofreram. Tantas crianças destruídas, tanta dor e os canalhas persistem na desvergonha de negar a incúria, o abandono, a negligência.
Por um momento, recorda o exemplo de Francisco, personagem central de “O Caminho das Aves”, e apetece-lhe gritar, mesmo prejudicando a defesa, contra aqueles bandidos. Perante o seu olhar revoltado e triste, o filme passa célere: os bandidos protegem-se, como há vinte anos, uns aos outros. E souberam de tudo desde o início…
Apetece-lhe gritar. Mas o olhar terno da magistrada mitiga-lhe a raiva.
- Quer falar? – pergunta-lhe compreensiva. Que sim, responde aliviado. E fala, fala muito. Depois, olhando sempre nos olhos a juíza, senta-se, reconfortado.

domingo, 15 de outubro de 2006

Pelo sonho é que vamos



Pelo sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
Pelo sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia a dia.
Chegamos? Não chegamos?
- Partimos. Vamos. Somos.

Sebastião da Gama

sexta-feira, 13 de outubro de 2006

Lágrima de preta



Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.


António Gedeão

terça-feira, 10 de outubro de 2006

Homenagem ao General Vasco Gonçalves




Sábado 21 de Outubro às 15.30h
Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa


Prezado(a) Amigo(a)

A cerimónia constará de um momento cultural com a actuação do pianista Fausto Neves, do Coro dos Mineiros de Aljustrel, do cantor e compositor Manuel Freire, do Coro Lopes Graça da Academia de Amadores de Música, da actriz Maria do Céu Guerra e do Coro Feminino Terra de Catarina, de Baleizão.
Seguem-se intervenções dos senhores general Pezarat Correia, Prof. Doutor José Barata-Moura, coronel Luís Vicente da Silva e do neto do homenageado dr. Vasco Gonçalves Laranjeira.

Passado um ano sobre a morte do general Vasco Gonçalves, este é o momento oportuno para reflectirmos sobre a sua figura ímpar, a sua dimensão ética, moral e política e o seu exemplo de dedicação ao País e à causa de uma sociedade mais justa e fraterna. Naturalmente contamos com a sua presença amiga e esperamos a sua boa vontade no sentido de divulgar esta iniciativa e de sensibilizar outros amigos e admiradores de tão prestigiada personalidade para participarem na referida cerimónia.
Recordemos o homem e militar íntegro, bem como o político totalmente dedicado à causa dos trabalhadores e dos mais desfavorecidos.

Pela Comissão Promotora
Martins Guerreiro, João Corregedor da Fonseca, Pezarat Correia, José Casanova, Pinto Soares, Herberto Goulard, Rui Fernandes.

Contactos: 916177169, 965278686, 962397280, 917204655
Associação 25 Abril – R Misericórdia 95 1200-271 Lisboa Tel: 213241420


Nunca tive jeito para a geometria
porque vejo sempre na pirâmide
o suor de quem a construía.
Fernando Grade

segunda-feira, 9 de outubro de 2006

Obrigado Sr. Procurador-geral Souto Moura



No dia em que Souto Moura cessa funções, vilipendiado e perseguido pelos biltres do costume, cumpre assinalar que não poderíamos encontrar melhor legenda para o seu desempenho corajoso, digno e competente do que a não recondução no cargo. A partir do momento em que resistiu e defendeu intrepidamente a Justiça, Souto Moura teve o destino traçado. Por si o caso não teria nada de novo a assinalar: afinal, diariamente inúmeros portugueses são perseguidos por lutarem contra a iniquidade. Só que o afastamento do corajoso magistrado inunda de luz o pântano em que os que gerem o sistema têm atolado Portugal. Não há reputação, obra, conquista, que resista ao seu apetite voraz e pendor revanchista. Quem se meter com eles, leva!
Foi assim na destruição da Revolução de Abril, onde beberam inspiração para a propagação da tese da cabala. Foi assim com as facadas raivosas que desferiram em Rui Teixeira. E com as torpes investidas contra Catalina Pestana. Foi assim no despedimento de Felícia Cabrita e Joaquim Vieira. Há-de ser assim para o futuro. Será também similar a nossa resistência e determinação para persistir no combate. A luta continua!
Pior delito que assaltar um banco, é fundá-lo!

Bertolt Brecht