terça-feira, 16 de maio de 2006

A BANDEIRA COMUNISTA



O POEMA
Foi como se não bastasse
tudo quanto nos fizeram
como se não lhes chegasse
todo o sangue que beberam
como se o ódio fartasse
apenas os que sofreram
como se a luta de classe
não fosse dos que a moveram.
Foi como se as mãos partidas
ou as unhas arrancadas
fossem outras tantas vidas
outra vez incendiadas.

À voz de anticomunista
o patrão surgiu de novo
e com a miséria à vista
tentou dividir o povo.
E falou à multidão
tal como estava previsto
usando sem ter razão a
falsa ideia de Cristo.

Pois quando o povo é cristão
também luta a nosso lado
nós repartimos o pão
não temos o pão guardado.
Por isso quando os burgueses
nos quiserem destruir
encontram os portugueses
que souberam resistir.

E a cada novo assalto
cada escalada fascista
subirá sempre mais alto
a bandeira comunista.
ARY DOS SANTOS

A BANDEIRA COMUNISTA

A HISTÓRIA
"A folha manuscrita aqui reproduzida é a única existente do original de A Bandeira Comunista de José Carlos Ary dos Santos. Um dos mais conhecidos poemas de Ary e seguramente dos mais queridos dos militantes do PCP, A Bandeira foi escrito em condições que merecem ser recordadas.

Na segunda-feira, 11 de Agosto de 1975 o Centro de Trabalho do PCP em Braga foi destruído e incendiado após um ataque comandado por um grupo operacional do ELP, como mais tarde veio a ser revelado por numerosas investigações e directamente reconhecido por alguns dos membros do comando directamente envolvidos.

O «Avante!» enviara no fim de semana anterior para Braga um seu colaborador fotógrafo, uma vez que corriam insistentes boatos de incidentes em Braga na segunda-feira por (como sucedeu em diversos outros actos terroristas) ser dia de feira. Tendo resolvido pernoitar no Porto, o repórter chegou a Braga a meio da manhã verificando então que os provocadores haviam já desencadeado as agressões e que o Centro de Trabalho (onde se encontravam numerosos militantes) estava já cercado.

Apedrejamentos e tentativas de fogo posto sucederam-se ao longo do dia, tendo – de forma equívoca nunca inteiramente esclarecida – os defensores do Centro acabado por ser retirados por uma força militar que deixou o edifício entregue aos fascistas que completamente o destruíram e incendiaram.

Tomado pelos provocadores como um repórter que lhes era favorável, o fotógrafo do «Avante!» pôde assim obter ao longo do dia as mais extraordinárias imagens da violência fascista à solta, muitas das quais foram publicadas na edição seguinte do «Avante!», a 14 de Agosto. Para essa mesma quinta-feira, a Direcção da Organização Regional de Lisboa convocara para o hoje Pavilhão Carlos Lopes um comício de solidariedade com os camaradas das organizações atingidas pelo terrorismo e de exigência de medidas de salvaguarda da ordem democrática.

Na redacção do «Avante!» decidimos montar num dos átrios do Pavilhão uma exposição com ampliações das fotos de Braga, de que só uma pequena parte havia sido publicada no jornal. Feitas as ampliações, colocou-se o problema das legendas – que acabou a ser um duplo problema...

A questão era que as imagens tinham uma força tal que qualquer palavra, qualquer frase parecia estar ali a mais. Contudo... Lembrámo-nos então, telefonou-se ao Zé Carlos para a Espiral, agência de publicidade onde trabalhava, e dissemos-lhe do problema: «Não serias capaz de fazer aí qualquer coisa, uns versos com força, isto não há legendas que resolvam isto...». «Esperem lá um bocado que eu já ligo.»

Meia hora depois o telefone tocava e ouvia-se o vozeirão do outro lado: «Então vejam lá se esta coisa serve.» Era A Bandeira Comunista. Copiada ao telefone, dactilografada e ampliada, iniciou nessa noite de luta um caminho que não findou jamais."
(ARQUIVOS DO PCP)

O PARTIDO



com Neruda reafirmo:

«Passaram bastantes anos desde que ingressei no Partido. Estou contente. Os comunistas constituem uma boa família. Têm a pele curtida e o coração valoroso. Por todo o lado recebem pauladas. Pauladas exclusivamente para eles. Vivam os espiritistas, os monárquicos, os aberrantes, os criminosos de vários graus. Viva a filosofia com fumo mas sem esqueletos. Viva o cão que ladra e que morde, vivam os astrólogos libidinosos, viva a pornografia, viva o cinismo, viva o camarão, viva toda a gente menos os comunistas. Vivam os conservadores que não lavam os pés ideológicos há quinhentos anos. Tudo se esforça por mudar menos os velhos sistemas. A vida dos velhos sistemas nasceu de imensas teias de aranha medievais, mais duras que os ferros das máquinas. No entanto, há gente que acredita numa mudança, que praticou a mudança, que fez triunfar a mudança, que fez florescer a mudança. Caramba! A primavera é inexorável!»

segunda-feira, 15 de maio de 2006

DAS KAPITAL E O MANIFESTO COMUNISTA

Era um homem
Era um livro
Bem belo
Era o livro com paredes de vidro
Era o Partido
Quando falavam ou agiam
não eram eles
era o Partido
contido!

Foram Marx e Engels
Estaline após Lenine
Era o tempo da revolta
do fascismo e da guerra
Era o tempo da Revolução
o tempo escasso
de Abril em Maio
o tempo da alegria e do sonho
do mundo novo a construir.
A esperança era um canto na cidade aberta e
o futuro começava ali numa criança a sorrir
ao virar da esquina
ao alcance da nossa mão
O riso enchia a praça e tão leve o ar!

Era o tempo dos slogans
da liberdade da fraternidade da justiça e
da paz
Havia é certo
Maio de 68 e o conflito sino-soviético
o Chile e o Vietname
e o despertar das colónias sob novas cadeias
E também havia
a Universidade em 69
a Hungria e a Checoslováquia
a Polónia e o Afeganistão
E vieram alguns outros
Khruchev e BreJnev
e também Gorbatchev
Havia é certo, lá longe
as cortinas
de ferro ou de bambú
Havia barreiras e fronteiras
no tempo da escuridão
da luta pela unidade na Revolução
Havia paredes
de vidro transparente ou translúcido
frágil como o cristal ou
forte se aramado ou martelado
espelho na reflexão.

Era um homem
Era um livro
E eles não sabiam
que era o tempo da Revolução.
E os homens ficaram
E os homens partiram
E eles não souberam
estender a sua mão
esquecidos da Revolução
na noite da reacção
E fecharam-se as portas
E cerraram-se as janelas
e eles dividiram-se na maré da inflexão
e não souberam camaradas
dar a sua mão
esquecendo que a revolução
começa com o nosso irmão.

E levantaram paredões e lançaram ao chão
o camarada e amigo que tinha outra razão
porque tinham em si o que pretendiam
construir ou destruir
E falavam em coisas belas
falavam da liberdade da fraternidade
da justiça e da paz
para outra criação
Eram homens e mulheres
alguns assassinados
que não queriam a morte
nem a espoliação ou humilhação
e passavam
passavam sempre
azafamados ou com lentidão
simples ou cheios de razão
com as virtudes e defeitos
do lugar e tempo em que estão
Uns e Umas com delicadeza, como é óbvio
e outros com distracção ou brutidão
a franqueza do clarão na escuridão
esclarecido ou não
Era um homem
uma mulher
Era um livro
partido
porque não souberam vencer a solidão e
construir outra fabricação
Eram só homens
Eram só mulheres
Era só um livro
Bimbelo
se não houvesse
em gestação
outra reflexão!

Até amanhã camarada ou não

( Victor Nogueira)

quinta-feira, 11 de maio de 2006

Contra a mentira!

Celebrou-se no passado dia 8 de Maio o 61º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial. Como habitualmente, os que pretendem reescrever a História, adaptando-a aos seus propósitos ideológicos, praticamente apagaram o papel que, no triunfo sobre os nazis, desempenhou a União Soviética. Porque sem memória não há futuro, aqui vos deixo a passagem de um prefácio que Álvaro Cunhal escreveu para a obra “O IV Congresso do PCP visto 50 anos depois”:

“O fascismo pretendera conquistar o mundo. Com a cumplicidade da Inglaterra e da França, esmagara militarmente a República Espanhola e anexara a Áustria. Assinado o Acordo de Munich – com o qual as democracias ocidentais incitaram Hitler à guerra contra a URSS -, os exércitos alemães ocuparam a Checoslováquia, invadiram a Polónia e, desiludindo os que os haviam incitado para Leste, voltaram-se contra eles e , prosseguindo a “guerra relâmpago” (Blitzkrieg), ocuparam a Noruega, a Holanda, a Bélgica e a França.
Então, com as mais poderosas forças militares até então conhecidas na história – e estabilizada de momento a situação militar a Leste com o pacto germano-soviético -, lançaram-se na invasão e na conquista, que parecia imparável, do país dos sovietes e chegaram às portas de Moscovo, de Leninegrado e de Stalinegrado. O fascismo foi porém derrotado na guerra. Para essa derrota, a União Soviética, que defrontou durante três anos sozinha os exércitos hitlerianos, e que perdeu na guerra 20 milhões de vidas, representou papel determinante.

É de lembrar que, só depois de os exércitos soviéticos terem nas batalhas de Stalinegrado cercado e aniquilado, de Novembro de 1942 a Fevereiro de 1943, 20 divisões alemãs com mais de 330 000 homens; só depois da batalha de Kursk, em Julho de 1943, “a maior batalha da história”, em que foram aniquiladas 50 divisões, a maior parte das quais Hitler deslocara das regiões ocupadas do Ocidente da Europa; só depois destas e de outras grandes vitórias do Exército Vermelho que significavam a inversão radical da situação militar e o começo da derrota da Alemanha hitleriana e seus aliados; só depois da Conferência de Teerão de Stáline com Churchill e Roosevelt em fins de 1943, na qual se discutiu a falta de cumprimento pelos Aliados do compromisso de abrirem em 1942 a chamada Segunda Frente; só depois do desembarque e da acção militar norte-americana no sul da Itália que praticamente não aliviou as frentes do Leste; só quando se tornou evidente, com o avanço das tropas soviéticas, que a União Soviética estava em condições e a caminho de libertar toda a Europa com as suas próprias forças – só então as tropas britânicas e norte-americanas desembarcaram na Normandia (6 de Junho de 1944).

Em 2 de Maio de 1945 os exércitos soviéticos tomaram Berlin, “esmagaram a fera no seu próprio covil”, içaram a bandeira vermelha da vitória no alto do Reichstag. Em 8 de Maio, a Alemanha hitleriana assinava a rendição incondicional. Seguiu-se no Extremo Oriente a derrota do militarismo japonês.

Embora dando justo valor à luta dos Aliados, A URSS aparecia para os povos de todo o mundo como a grande força de libertação, com uma vitória militar que era também a vitória do povo soviético e a vitória do socialismo.”

terça-feira, 9 de maio de 2006

Os papagaios

Como se bastasse apenas carregar-lhes num botão embutido, para que não se note como estão programados, os homens do sistema, amestradas criaturas de que Pavlov tanto falou, repetem em uníssono as mesmíssimas coisas. Seja a propósito da necessidade de mais austeridade para os trabalhadores, da limitação de direitos ou da contenção orçamental, seja, no plano internacional, dominado pelo amo Bush, a necessidade de falar mal dos que desagradam ao imperialismo.
A uma só voz, repetem as mesmas baboseiras, convictos de que dizem verdades incontestáveis, adoptando o mesmo ar seráfico e emproado, pigarreando levemente quando acham que isso lhes confere nobreza ou distinção. Estes asnos que, se convidados a tal, venderiam as próprias mães a troco de qualquer mordomia, cobardes até ao tutano, peroram alarvemente sobre direitos humanos – os direitos que apenas os da casta a que pertencem podem desfrutar – ao mesmo tempo que exigem a punição dos povos que persistem em afrontar o império de que Bush é ponta degradante.
Que nojo, senhores!

sexta-feira, 5 de maio de 2006

Saudade


Há momentos em que não posso
Em que não sou
Macera-me o corpo
A inacção por te não ter
Por não te ouvir
Por não te ver
Ainda agora – posso jurar!
Aqui estavas
Mãos nas minhas
E promessas
E desejos
E coragem
Sonhos
Vontade
Futuro
Em tudo existias
Agora mesmo
Ou já foi ontem, mãe?
Não era tua a voz
Que me trouxe do sono?
Que me alentou?
Quem me chamou então?

As teias que a máfia tece

Do Correio da Manhã

“Durante a 174.ª audiência foi ouvido um antigo aluno da Casa Pia, que frequentou a instituição nos anos 80 – foi colega de ‘Teresa C’ –, e que em inquérito referiu ter sido levado por ‘Bibi’ a casa de Jorge Ritto, onde disse ter visto Carlos Cruz.

Ontem, porém, o ex-casapiano, de 40 anos, afirmou que nunca teve em casa do embaixador e que nunca tinha visto o apresentador. Os advogados da Casa Pia requereram o confronto com as declarações prestadas em inquérito, o que inicialmente foi negado pela defesa dos arguidos, mas o ex-aluno manteve o que disse na sala do Tribunal.

A testemunha alegou que foi pressionada por Adelino Granja e por Pedro Namora, o que levou o advogado de ‘Bibi’, Ramiro Miguel, a pedir também extracção de certidão para ser remetida à Ordem dos Advogados. João Aibéo não ficou convencido com a explicação e deu ordem para procedimento criminal por falsas declarações.”

Apenas três comentários:

O primeiro para sublinhar que, apesar de o meu nome ter sido referido nas notícias, nenhum órgão de comunicação social me procurou, ao contrário do que fizeram com um ser abjecto de Alcobaça, para comentar o que me é imputado e é absolutamente falso. O ex-aluno que foi ouvido tem 40 anos e os crimes de que foi vítima na década de oitenta não podem já ser julgados.

O segundo para reafirmar o que desde o início das manobras dilatórias denunciei: por este caminho, ainda vai aparecer alguém a garantir que as crianças é que violaram os pedófilos. Não há dúvida de que a máfia trabalha bem…
O terceiro para alertar: isto não passa de foguetório para iludir o que verdadeiramente está em discussão e interessa silenciar. Dezenas de crianças violadas exigem reparação, o que passa sobretudo pela conclusão do processo que está em julgamento e que se vai arrastando com sucessivas manobras dilatórias.

quinta-feira, 27 de abril de 2006

CAVACO SÓCRATES


Andam a fingir, desde que Abril derrubou o fascismo, ser democratas. Bastou agora que o inquilino de Belém repudiasse o Cravo – há-de aliás, na solidão da residência oficial, tê-lo amarfanhado irado – para que os democratas a fingir vissem nisso, prestativos visionários, um sinal de modernidade.
Que dizer destes cronistas despeitados? De tanto esforço para agradar aos donos, vão deixando cair o manto que lhes oculta a pérfida função. Falam de Democracia e Liberdade, mas pretendem o oposto. Se analisássemos os serviços que prestam, talvez concluíssemos que semelhanças tão fortes com aquilo que fazia o lápis azul até Abril de 1974, não são mera coincidência. E, consequentes, seríamos levados a constatar o óbvio: o fascismo está aí, moderno claro, na fatiota que decidiu agora envergar.
A conjuntura sopra ventos favoráveis e os cronistas do reino ufanam no seu protagonismo servil: Cavaco e Sócrates, irmanados no mesmo propósito, maioria parlamentar e Belém em uníssono neoliberal, desenvolvem uma tremenda ofensiva contra os direitos dos trabalhadores e os seus salários, contra o sistema público da segurança social, contra as funções sociais do Estado, que querem mínimo, reduzido, como disse um dos ministros de Sócrates, às “funções de segurança e reguladoras”.
É pois natural que Cavaco rejeite o cravo e que Sócrates o use como mero adorno, estando como claramente se constata, um e outro, nos antípodas do que Abril significou. Afinal são os dois responsáveis pelo agravamento do desemprego, pela crescente precariedade e pela degradação dos rendimentos dos portugueses. E natural há-de ser que as vozes dos donos sublinhem positivamente os ataques ao sonho e à esperança que Abril nos trouxe.
Apesar disso, ou talvez por isso, a luta continua!

segunda-feira, 24 de abril de 2006

OS BARRIGAS E OS MAGRIÇOS

Em Junho de 2000, o Álvaro escreveu este conto para crianças, a propósito do 25 de Abril:


“Esta história que vos vou contar passou-se há muitos anos, ainda nenhum de vocês tinha nascido. Foi num país em que havia uns homens conhecidos como os Barrigas e outros conhecidos como os Magriços. Os Barrigas não tinham este nome por serem todos barrigudos, mas por comerem tanto, tanto, tanto que nem se percebia onde cabia tanta coisa. Houve até quem dissesse que para lá caber tanta comida o corpo dos Barrigas lá por dentro devia ser todo estômago.

Os Magriços também não se chamavam assim por terem nascido todos magrinhos. Mas porque, em certas épocas do ano, os Barrigas não lhes davam trabalho, nada lhes pagavam, e passavam tanta fome. E então sim, ficavam tão magrinhos, só pele e osso, magrinhos como carapaus secos. Os Barrigas tinham muitos campos, muitas terras, tão grandes, tão grandes, que de uma ponta nem com binóculo se via a outra ponta. Os Barrigas tinham também moinhos para moer farinha, lagares para moer azeitona e fabricar azeite. Nesses campos, nesses moinhos, nesses lagares, trabalhavam os magriços. Mas recebiam tão pouco, tão pouco, que não lhes dava para comerem eles, suas mulheres e seus filhos.

E, ainda por cima, eram mesmo maltratados, como se fossem bichos. Uma vez, um Magriço pediu ao Barriga seu patrão que lhe pagasse mais pelo seu trabalho. E sabeis vocês o que lhe respondeu o Barriga? O Barriga riu-se e respondeu: "Se não tens pão, come palha." Isto não se diz a ninguém. São palavras feias de um homem mau, não vos parece? Outra vez, um outro Magriço que trabalhava num lagar procurou o Barriga e disse-lhe «Senhor Barriga, eu fabrico cântaros e cântaros de azeite, mas o senhor fica com todo e eu não tenho azeite para temperar as batatas». E o Barriga deu uma resposta tão feia, tão feia, que não sei se aqui a diga. Mas sempre a digo. O Barriga respondeu: «Se não tens azeite para temperar as batatas faz-lhe xixi por cima.» Disse isto com palavras ainda piores, mas foi isto que disse.

São também palavras feias de um homem mau, não vos parece? Isto eram, porém, palavras feias de homens maus, mas as coisas eram ainda piores. Porque os Barrigas tinham ao seu serviço soldados armados e quando os Magriços protestavam - um, por exemplo, disse ao Barriga: «O senhor é um homem mau» - eles diziam aos soldados para prender os Magriços, meterem-nos presos nuns buracos a que chamavam prisões. Isto e ainda pior.
Uma vez, um Magriço não se cansava de protestar. «Vai-te embora daqui». E ele disse: «Não vou sem o senhor nos dar razão». O Barriga deu ordem aos soldados para lhe darem um tiro e ele morreu logo ali. Falando uns com os outros, os Magriços diziam que as coisas não podiam continuar assim. Mas havia os soldados. E se eles se revoltavam , os Barrigas diziam aos soldados para os correrem todos a tiro.
Que fazer? Se algum de vocês fosse uma Magriço, o que fazia? Foi um Magriço que se lembrou.Tinha um amigo que era soldado e disse-lhe assim: «Olha lá amigo, achas bem isto? O que os Barrigas te mandam fazer?» O soldado era bom rapaz e disse: «Eu estou de acordo contigo. Mas que posso eu fazer?»

Lembrou-se então de falar com os outros soldados e todos pensaram que era preciso ajudar os Magriços a libertar-se de tal situação. Foi então que os Magriços se juntaram todos, procuraram o mais barrigudo dos Barrigas e lhes disseram: «Isto não pode continuar assim. O senhor tem tanta terra que muita está abandonada. Nós vamos trabalhar para lá, cultivá-la, e o que produzirmos é para nós.»

O Barriga nem queria acreditar. Começou logo a gritar: «Estais malucos ou quê? Se se atrevem a isso, varro-vos todos a tiro!» Mas os Magriços não tiveram medo, foram para essas terras abandonadas, começaram a limpá-la de mato para depois cavarem e semearem. Os Barrigas protestaram, chamaram nomes aos Magriços, ameaçaram de os mandar matar. Mas o pessoal não se assustou. O mesmo sucedeu por toda a parte e os Magriços, com o seu trabalho, desenvolveram rapidamente a agricultura. Asseguraram trabalho a todos os que dantes passavam metade do ano sem trabalho e sem pão e ganharam para que ficasse a juventude que fugia. Semearam terras que estavam abandonadas. Produziram e venderam trigo, tomate, compraram vacas e ovelhas e assim produziram leite e queijo. Arranjaram máquinas agricolas.

O que fizeram os Barrigas? Chamaram os soldados e deram ordem: «vão lá e corram com esses gajos a tiro!» Os soldados foram, lá isso é verdade. Mas não deram tiro nenhum, e até deram os parabéns aos Magriços pelo trabalho que estavam a fazer. E o mesmo se passou nos moinhos e nos lagares de azeite. Os magriços tomaram conta de uns e de outros e quando apareceram os Barrigas a protestar, eles disseram: «Não lhe queremos mal, senhor Barriga. O senhor leva a farinha e o azeite de que precisa para a sua família. E nós levamos o resto para as nossas.»

E o mesmo se passou nas fábricas dos Magriços e em toda a parte. Passou-se tudo isto na primavera. Calhou começar no dia 25 do mês de Abril. Por isso, quando se fala no 25 de Abril, é dessa revolta dos Magriços e do que foram capaz de realizar que se fala.
E, para acabar a história, quero fazer-vos uma pergunta. A mim, já me têm perguntado: «Ouve lá, se tivesses vivido nessa época, com quem estarias tu? Com os Barrigas ou com os Magriços?» E eu respondo: com os Magriços, claro! E penso que conhecendo vocês esta história, dariam a mesma resposta.”

Álvaro Cunhal, 7 de Junho de 2000