segunda-feira, 17 de abril de 2006

Solidariedade

" Em casos como o da Casa Pia
TEMOS O DEVER DE JULGAR!

No aniversário de
Vale a Pena Lutar!,
com um grande abraço
para o Pedro Namora

Há quem insinue, como quem não quer a coisa, que as vítimas não teriam nada a ganhar com o castigo de quem, eventualmente, teria cometido os crimes. E adoçam mais o que chamam erros, maus passos, escorregadelas (se acaso os teria havido…), falando de tendências sexuais de que não se tem culpa e de momentos passageiros de desvario a que todos estamos, ou somos, sujeitos.
Há, também, quem junte à insinuação a hipocrisia de anteceder a palavra vítimas do adjectivo presumíveis (ou presumidas, ou pretensas), assim dando maior ênfase ao tempo que se está a perder e ao facto de que ninguém irá beneficiar com a condenação dos que, coitados!, já têm a vida destruída e, se calhar, nem terão feito nada assim de tanta gravidade…
Há, ainda, quem leve a insinuação e a hipocrisia aos píncaros da ignomínia e não recue perante pôr em causa a credibilidade de quem vítima foi (“se diz ter sido… e, se calhar, foi instigador e aproveitou de prendas e prebendas a que, sem os actos ditos condenáveis, nunca teria tido acesso”). De qualquer modo, perguntam: “Para quê – e quem – punir? Punidos todos estão, uns porque são o que são, outros pelo prejuízo trazido às suas reputações e vidas… Pois se as pretensas vítimas até já foram indemnizadas, talvez houvesse era que indemnizar os presumíveis culpados que já tanto sofreram, coitados!...”
Pasmo e indigno-me.Todos estes, mesmo um ou outro a quem se possa dar de barato que tenha uns restos de boa fé, e ainda outros que descrêem que a justiça vá até ao fim e, desinteressados e distanciados, nada fazem para que o processo se conclua com o apuramento das responsabilidades de quem foi criminoso, todos parecem distraírem-se da importância de… se fazer justiça!
Há adiamentos, e protelamentos, e tergiversões. Com artes e manhas, expedientes expeditos, com dinheiro para tudo comprar, tempo e gente. E, curioso!..., são os mais activos em que não se faça justiça, ou defensores de que “não vale a pena” – “porque não se viriam remediar males feitos, se males houve…” – são esses mesmos que, se acaso um seu investimento (em arte, por exemplo) for roubado e ficar com mazelas, mais justiça pedem, dura e rápida, para punir quem lhes furtou o objecto e o teria danificado. E não lhes toquem no seu BMW, ou na sua casa da praia, quando não é um jactozinho, apesar de seguros e bem seguros. Pasmo (pasmo?) e indigno-me (indigno-me!)
Quando as vítimas são crianças e à nossa (de todos!) responsabilidade porque da sociedade, maiores são os crimes e mais necessário e urgente é que se faça justiça."
Sérgio Ribeiro

quarta-feira, 12 de abril de 2006

Um ano de vida

Este modestíssimo blogue faz hoje um ano. Assinalo a data sobretudo para vos agradecer, amigos, camaradas e companheiros de luta, toda a solidariedade. Se não fosse o blogue, a minha vida teria sido, seguramente, diferente para pior. Apesar de tudo – e o tudo aqui é inenarrável – pude sempre contar convosco.

Permitam-me destacar um homem, António Balbino Caldeira, e simbolizar nele o profundo agradecimento que vos endereço: solidário, corajoso, coerente, verdadeiro, honrado, tem travado, praticamente desde o início do que foi designado por Processo da Casa Pia, uma luta sem quartel contra a rede pedófila que controla o Estado. Em simultâneo com a sua luta firme, nunca descurou a solidariedade com as vítimas.
Por assumir essa atitude corajosa viu a sua casa devassada, os seus bens apreendidos, a sua tese de doutoramento adiada e até a sua idosa mãe maltratada. Contudo, nem isso o fez vacilar um só momento e colocou-se, de forma assumida e determinada, do lado das crianças abusadas. Calcorreou centenas de quilómetros, enfrentou pressões, processos judiciais, ameaças; tudo suportou de forma estóica para defender as crianças deste país.

Obrigado António, pelo teu exemplo. Que assinalo também para contrapor ao que constituiu a maior desilusão que sofri no decurso desta luta. Passo a explicar: quando aluno da Casa Pia a consigna era clara: um por todos e todos por um! Os mais velhos acorriam sempre em defesa dos mais novos. Quando o horror foi revelado e as vítimas começaram a ser difamadas pelos pedófilos e prestativas consciências de aluguer, na minha cabeça e no meu coração instalou-se a certeza – reflexo condicionado! – de que não tardariam aí os casapianos mais velhos dispostos à luta. Mas o tempo foi passando e deles nada. E isso, a desilusão, doeu-me muito. Preferiram o silêncio, optaram por calçar as pantufas do conformismo, assistiram indiferentes à tentativa de destruição dos gansos mais novos, tudo em nome da vida que vivem agora e de outros pretextos tão edificantes quanto vergonhosos.
De forma que à dor da descoberta da barbárie, somou-se a resultante de saber mortíssimos espíritos que julgava prontos à revolta. Também por isso, obrigado António. Obrigado amigos.
A luta continua!

terça-feira, 11 de abril de 2006

A não perder

O TIGRE E A NEVE, o mais recente trabalho de Benigni, é um filme belíssimo: amor, amizade e denúcia da barbárie que os americanos e respectivos sequazes prolongam no Iraque, tudo conduzido por um humor que de tão puro enternece, nos faz sentir o profundo humanismo do cineasta
Roberto Benigni possui o dom de tornar belo tudo aquilo em que toca com o seu imenso talento. Depois de A VIDA É BELA, o autor persiste na luta pela Paz e, corajoso, ridiculariza os falcões da guerra mostrando a única arma de destruição que encontrou no Iraque: um útil mata-moscas.
Prevejo que os americanos, que dominam também o mercado cinematográfico mundial, dificultem a destribuição e divulgação deste monumento anti-bélico, deste hino à Paz. Pelo que nos cabe difundir esta corajosa tomada de posição.

domingo, 9 de abril de 2006

A Nina


A Nina teve três filhotes, há cerca de duas semanas e na falta de melhor, escolheu o sofá da sala para parir . O primeiro nasceu no dia 23 de Março, e os outros dois apenas no dia seguinte. A Nina é uma gata jovem, mas apesar disso, tem-se esmerado no tratamento dos filhotes. Tem sido enternecedor acompanhar o crescimento das crias sob a supervisão da mamã.

sábado, 8 de abril de 2006

Obrigado Sérgio!

Este senhor chama-se Sérgio Ribeiro. E se coloco aqui as fotos que o fascismo lhe tirou é por vaidade: é verdade, este senhor é meu amigo.
Olho as fotografias, o seu porte digno, confiante e sinto-me forte, alegre, feliz, porque ele é nosso. É comunista hoje, como foi durante os tempos tenebrosos do fascismo. Mas não é apenas isso. Tendo, naturalmente, muito mais idade, o Sérgio continua jovem e a fazer pelo futuro tanto, que se todos fizéssemos o mesmo, esta porra de país estava diferente para melhor. Obrigado Sérgio, porque na verdade derrotaste esses miseráveis fotógrafos. E se hoje posso olhar os meus filhos tranquilo sem medo de morrer na guerra ou de ser preso por pensar diferente, devo-to a ti. E a outros que como tu, em nome do futuro, nos deram a liberdade.

PCP


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quarta-feira, 5 de abril de 2006

Funeral do senhor Professor Artur Ferreira

O corpo do senhor professor Artur Ferreira está em câmara ardente na capela dos Jerónimos. O funeral realiza-se amanhã, para o cemitério de Benfica, depois da missa que será realizada às 15H30.

Morreu Provedor-adjunto Artur Ferreira

Tinha cessado funções na Casa Pia de Lisboa, recentemente. Acompanhou Catalina Pestana durante os últimos três anos, com ela sofrendo a dor profunda dos meninos maltratados. Sofreu mesmo muito, como tantas vezes me confidenciou. Trabalhou rodeado de abjectas criaturas, que a todo o tempo tentaram restaurar a velha ordem que engordava os pedófilos. Seres desprezíveis que tudo fizeram para boicotar a sua acção pedagógica, o seu labor entusiástico, a sua crença numa Casa Pia melhor ao serviço dos meninos pobres deste país.
O seu coração de Homem-bom não resistiu e nós, os alunos e ex-alunos da Casa Pia de Lisboa - mas também Portugal -perdemos uma fortaleza inexpugnável, contra a iniquidade e a injustiça.
Ainda na década de 80, foi uma das poucas pessoas que ousou ajudar o mestre Américo, posicionando-se corajosamente do lado dos alunos, contra os pedófilos e cúmplices. Lutou por nós, quando muitos, quase todos, preferiram fingir que não viam a barbárie.
Em nome dos ex-alunos que tanto apoiou, endereço à família enlutada sentidas condolências. E porque sei que esse era o desejo do emérito professor, solto um grito forte, determinado: A LUTA CONTINUA, PROFESSOR!

terça-feira, 4 de abril de 2006

O BILTRE

No final de mais uma sessão de julgamento, Serra Lopes disse aos jornalistas que não acredita que as vítimas do processo Casa Pia tenham ficado traumatizadas com os abusos sexuais, acrescentando que "as pessoas que se profissionalizam na mais velha profissão do mundo não ficam com grandes traumas por isso."

É esta a dimensão moral da personagem: perante a dor profunda de vítimas selvaticamente violadas, vomita barbaridades, ciente de que a ele tudo será permitido pela mesma Ordem de Advogados que persegue cidadãos por defenderem as crianças. Mas este agressor das vítimas não está sozinho, nem é original. Antes dele, um famoso psiquiatra, defensor zeloso dos arguidos, mas que surge no processo mascarado de perito, ousou dizer que "a auto-estima de uma pessoa melhora se for violada por uma pessoa famosa".

Além do mais e como refere Anne C. Salter, “A história da psicologia ao longo do último século está repleta de teorias que negam a ocorrência de abusos sexuais, que ignoram a responsabilidade do criminoso, que culpam a mãe e/ou a criança quando o abuso é, de facto, reconhecido, que minimizam as consequências. Trata-se de um capítulo lamentável na história da psicologia, mas não é apenas vergonhoso, é também desconcertante. A hostilidade contra as vítimas infantis e as mulheres adultas está infiltrada nesta bibliografia como veneno.”

Na verdade, Serra Lopes é um seguidor de Levine, só que demasiado cobarde para o assumir. Cito de novo Salter:

“No mundo de Levine, não há qualquer problema se as crianças de doze anos tiverem relações sexuais. E não se trata apenas de sexo em si que Levine recomenda no seu livro, trata-se de sexo com homens mais velhos. “Os adolescentes com frequência procuram ter relações sexuais com pessoas mais velhas, e fazem-no por razões compreensíveis: uma pessoa mais velha fá-los sentirem-se atraentes e adultos, protegidos e especiais; frequentemente o acto é melhor do que seria com um coetâneo que tem tanta perícia quanto ele. Para alguns adolescentes, um romance com uma pessoa mais velha pode parecer-lhes mais uma salvação que uma agressão”.

Na verdade, Serra Lopes, é um seguidor de RIND, só que demasiado cobarde para o assumir. Socorro-me de Salter, para ilustrar a ignomínia:

“Na perspectiva de Rind e respectivos colegas, os miúdos ou são forçados a manter relações sexuais através da violência ou então “consentem”. A implicação subjacente é que as crianças e os adolescentes se encontram em pé de igualdade com os adultos. Presume-se que ou os pedófilos adultos não tentam manipular e ludibriar as crianças para terem relações sexuais, ou trata-se de uma situação em que os miúdos podem e devem desenvencilhar-se sozinhos. Mas a primeira é um absurdo e a segunda injusta. Não fui eu certamente a única a constatar que os criminosos manipulam as crianças, nomeadamente concedendo favores especiais, dinheiro ou roupas.”

A partir de agora, entende-se bem a motivação desta personagem no processo e a razão que lhe orienta a defesa que sustenta.

sexta-feira, 31 de março de 2006

Fernando Lopes-Graça, 1906-2006

Centenário de Fernando Lopes-Graça

Nasce a 17 de Dezembro de 1906, em Tomar, no seio de uma família da pequena burguesia. Cedo o pequeno Fernando, tem contacto com um velho piano com que gostava de brincar, no hotel do pai. É através de um hóspede, o tenente Aboim, que Fernando irá estudar piano. Tendo escrito mais tarde com o seu humor tão peculiar, sobre este episódio: «Eu até entrei na música pelas mãos da tropa, e não pelas da Igreja ou da Nobreza, como nos belos tempos em que o músico era ungido do Senhor ou de Sais!».
Aos 14 anos é pianista no Cine-Teatro de Tomar, toca Debussy. Tendo-o ouvido pela primeira vez “O Mar”, dirigido por Toscanini, através de um rádio-receptor num café de Tomar.

Em 1923 ingressa no Curso Superior do Conservatório de Lisboa. Um ano após, matricula-se na Faculdade de Letras de Lisboa em Ciências Históricas e Filosóficas, tendo abandonado em 1931, como protesto contra as medidas coercivas que, durante uma greve académica, o Conselho Escolar adoptou.

Termina nesse ano o Curso Superior de Composição, obtendo a 1ª classificação para o lugar de professor de piano e solfejo do Conservatório. Não tomando posse, por motivos políticos. Algum tempo depois é preso e desterrado para Alpiarça. Sobre esta situação escreve: «Revolução e Liberdade são sinónimos, são equivalentes. São leis imutáveis gravadas na face do Cosmo, eternas e divinas como ele

Em 1937 ganha uma bolsa para estudar em Paris, sendo-lhe recusada, em virtude da sua acção politica. Pagando do seu próprio bolso vai para Paris, estuda Composição e Orquestração com o famoso compositor Koechlin. Ao fim de três anos regressa a Portugal, iniciando a sua actividade, como compositor, na Academia de Amadores de Música.

Na década de 40, dedica-se a pesquisas folclóricas, começando a trabalhar com o etnólogo Michel Jacometti, de quem se tornou grande amigo. Editando mais tarde vários livros. Forma o Coro da Academia de Amadores de Música, tendo sido o porta-voz de um grande reportório de canções tradicionais portuguesas, harmonizadas para várias vozes por Lopes Graça. Escreve música para piano, guitarra e violino, música sinfónica e de câmara. Escreve para a “Seara Nova” critica musical. Foi ensaísta, jornalista e tradutor.

MILITANTE COMUNISTA. Tendo começado por participar nas lutas da Oposição Democrática –MUD. Cruelmente prejudicado pelas suas actividades políticas; prisão, expulsão do ensino oficial, impossibilitado de saída para o estrangeiro.

Após a Revolução de Abril, assume a presidência da Comissão para a Reforma do Ensino Musical. Fernando Lopes Graça, deixou-nos um enorme legado, 18 volumes “Obras Literárias” entre outros livros, sinfónicas, melodias populares, corais, “Canções Heróicas”, “Requiem à Memória das Vitimas do Fascismo”.
27 de Novembro de 1994, durante a noite, só como sempre vivera, morre na sua casa da AV. da República na Parede, um dos maiores génios da música portuguesa. Lopes Graça, usava uma frase do seu muito amigo e também militante, Zé Gomes Ferreira: «Eu não tenho saudade do passado, tenho saudade do futuro»
(Obrigado Guida Rodrigues, pelo texto que assinala a efeméride)