domingo, 9 de abril de 2006

A Nina


A Nina teve três filhotes, há cerca de duas semanas e na falta de melhor, escolheu o sofá da sala para parir . O primeiro nasceu no dia 23 de Março, e os outros dois apenas no dia seguinte. A Nina é uma gata jovem, mas apesar disso, tem-se esmerado no tratamento dos filhotes. Tem sido enternecedor acompanhar o crescimento das crias sob a supervisão da mamã.

sábado, 8 de abril de 2006

Obrigado Sérgio!

Este senhor chama-se Sérgio Ribeiro. E se coloco aqui as fotos que o fascismo lhe tirou é por vaidade: é verdade, este senhor é meu amigo.
Olho as fotografias, o seu porte digno, confiante e sinto-me forte, alegre, feliz, porque ele é nosso. É comunista hoje, como foi durante os tempos tenebrosos do fascismo. Mas não é apenas isso. Tendo, naturalmente, muito mais idade, o Sérgio continua jovem e a fazer pelo futuro tanto, que se todos fizéssemos o mesmo, esta porra de país estava diferente para melhor. Obrigado Sérgio, porque na verdade derrotaste esses miseráveis fotógrafos. E se hoje posso olhar os meus filhos tranquilo sem medo de morrer na guerra ou de ser preso por pensar diferente, devo-to a ti. E a outros que como tu, em nome do futuro, nos deram a liberdade.

PCP


.

quarta-feira, 5 de abril de 2006

Funeral do senhor Professor Artur Ferreira

O corpo do senhor professor Artur Ferreira está em câmara ardente na capela dos Jerónimos. O funeral realiza-se amanhã, para o cemitério de Benfica, depois da missa que será realizada às 15H30.

Morreu Provedor-adjunto Artur Ferreira

Tinha cessado funções na Casa Pia de Lisboa, recentemente. Acompanhou Catalina Pestana durante os últimos três anos, com ela sofrendo a dor profunda dos meninos maltratados. Sofreu mesmo muito, como tantas vezes me confidenciou. Trabalhou rodeado de abjectas criaturas, que a todo o tempo tentaram restaurar a velha ordem que engordava os pedófilos. Seres desprezíveis que tudo fizeram para boicotar a sua acção pedagógica, o seu labor entusiástico, a sua crença numa Casa Pia melhor ao serviço dos meninos pobres deste país.
O seu coração de Homem-bom não resistiu e nós, os alunos e ex-alunos da Casa Pia de Lisboa - mas também Portugal -perdemos uma fortaleza inexpugnável, contra a iniquidade e a injustiça.
Ainda na década de 80, foi uma das poucas pessoas que ousou ajudar o mestre Américo, posicionando-se corajosamente do lado dos alunos, contra os pedófilos e cúmplices. Lutou por nós, quando muitos, quase todos, preferiram fingir que não viam a barbárie.
Em nome dos ex-alunos que tanto apoiou, endereço à família enlutada sentidas condolências. E porque sei que esse era o desejo do emérito professor, solto um grito forte, determinado: A LUTA CONTINUA, PROFESSOR!

terça-feira, 4 de abril de 2006

O BILTRE

No final de mais uma sessão de julgamento, Serra Lopes disse aos jornalistas que não acredita que as vítimas do processo Casa Pia tenham ficado traumatizadas com os abusos sexuais, acrescentando que "as pessoas que se profissionalizam na mais velha profissão do mundo não ficam com grandes traumas por isso."

É esta a dimensão moral da personagem: perante a dor profunda de vítimas selvaticamente violadas, vomita barbaridades, ciente de que a ele tudo será permitido pela mesma Ordem de Advogados que persegue cidadãos por defenderem as crianças. Mas este agressor das vítimas não está sozinho, nem é original. Antes dele, um famoso psiquiatra, defensor zeloso dos arguidos, mas que surge no processo mascarado de perito, ousou dizer que "a auto-estima de uma pessoa melhora se for violada por uma pessoa famosa".

Além do mais e como refere Anne C. Salter, “A história da psicologia ao longo do último século está repleta de teorias que negam a ocorrência de abusos sexuais, que ignoram a responsabilidade do criminoso, que culpam a mãe e/ou a criança quando o abuso é, de facto, reconhecido, que minimizam as consequências. Trata-se de um capítulo lamentável na história da psicologia, mas não é apenas vergonhoso, é também desconcertante. A hostilidade contra as vítimas infantis e as mulheres adultas está infiltrada nesta bibliografia como veneno.”

Na verdade, Serra Lopes é um seguidor de Levine, só que demasiado cobarde para o assumir. Cito de novo Salter:

“No mundo de Levine, não há qualquer problema se as crianças de doze anos tiverem relações sexuais. E não se trata apenas de sexo em si que Levine recomenda no seu livro, trata-se de sexo com homens mais velhos. “Os adolescentes com frequência procuram ter relações sexuais com pessoas mais velhas, e fazem-no por razões compreensíveis: uma pessoa mais velha fá-los sentirem-se atraentes e adultos, protegidos e especiais; frequentemente o acto é melhor do que seria com um coetâneo que tem tanta perícia quanto ele. Para alguns adolescentes, um romance com uma pessoa mais velha pode parecer-lhes mais uma salvação que uma agressão”.

Na verdade, Serra Lopes, é um seguidor de RIND, só que demasiado cobarde para o assumir. Socorro-me de Salter, para ilustrar a ignomínia:

“Na perspectiva de Rind e respectivos colegas, os miúdos ou são forçados a manter relações sexuais através da violência ou então “consentem”. A implicação subjacente é que as crianças e os adolescentes se encontram em pé de igualdade com os adultos. Presume-se que ou os pedófilos adultos não tentam manipular e ludibriar as crianças para terem relações sexuais, ou trata-se de uma situação em que os miúdos podem e devem desenvencilhar-se sozinhos. Mas a primeira é um absurdo e a segunda injusta. Não fui eu certamente a única a constatar que os criminosos manipulam as crianças, nomeadamente concedendo favores especiais, dinheiro ou roupas.”

A partir de agora, entende-se bem a motivação desta personagem no processo e a razão que lhe orienta a defesa que sustenta.

sexta-feira, 31 de março de 2006

Fernando Lopes-Graça, 1906-2006

Centenário de Fernando Lopes-Graça

Nasce a 17 de Dezembro de 1906, em Tomar, no seio de uma família da pequena burguesia. Cedo o pequeno Fernando, tem contacto com um velho piano com que gostava de brincar, no hotel do pai. É através de um hóspede, o tenente Aboim, que Fernando irá estudar piano. Tendo escrito mais tarde com o seu humor tão peculiar, sobre este episódio: «Eu até entrei na música pelas mãos da tropa, e não pelas da Igreja ou da Nobreza, como nos belos tempos em que o músico era ungido do Senhor ou de Sais!».
Aos 14 anos é pianista no Cine-Teatro de Tomar, toca Debussy. Tendo-o ouvido pela primeira vez “O Mar”, dirigido por Toscanini, através de um rádio-receptor num café de Tomar.

Em 1923 ingressa no Curso Superior do Conservatório de Lisboa. Um ano após, matricula-se na Faculdade de Letras de Lisboa em Ciências Históricas e Filosóficas, tendo abandonado em 1931, como protesto contra as medidas coercivas que, durante uma greve académica, o Conselho Escolar adoptou.

Termina nesse ano o Curso Superior de Composição, obtendo a 1ª classificação para o lugar de professor de piano e solfejo do Conservatório. Não tomando posse, por motivos políticos. Algum tempo depois é preso e desterrado para Alpiarça. Sobre esta situação escreve: «Revolução e Liberdade são sinónimos, são equivalentes. São leis imutáveis gravadas na face do Cosmo, eternas e divinas como ele

Em 1937 ganha uma bolsa para estudar em Paris, sendo-lhe recusada, em virtude da sua acção politica. Pagando do seu próprio bolso vai para Paris, estuda Composição e Orquestração com o famoso compositor Koechlin. Ao fim de três anos regressa a Portugal, iniciando a sua actividade, como compositor, na Academia de Amadores de Música.

Na década de 40, dedica-se a pesquisas folclóricas, começando a trabalhar com o etnólogo Michel Jacometti, de quem se tornou grande amigo. Editando mais tarde vários livros. Forma o Coro da Academia de Amadores de Música, tendo sido o porta-voz de um grande reportório de canções tradicionais portuguesas, harmonizadas para várias vozes por Lopes Graça. Escreve música para piano, guitarra e violino, música sinfónica e de câmara. Escreve para a “Seara Nova” critica musical. Foi ensaísta, jornalista e tradutor.

MILITANTE COMUNISTA. Tendo começado por participar nas lutas da Oposição Democrática –MUD. Cruelmente prejudicado pelas suas actividades políticas; prisão, expulsão do ensino oficial, impossibilitado de saída para o estrangeiro.

Após a Revolução de Abril, assume a presidência da Comissão para a Reforma do Ensino Musical. Fernando Lopes Graça, deixou-nos um enorme legado, 18 volumes “Obras Literárias” entre outros livros, sinfónicas, melodias populares, corais, “Canções Heróicas”, “Requiem à Memória das Vitimas do Fascismo”.
27 de Novembro de 1994, durante a noite, só como sempre vivera, morre na sua casa da AV. da República na Parede, um dos maiores génios da música portuguesa. Lopes Graça, usava uma frase do seu muito amigo e também militante, Zé Gomes Ferreira: «Eu não tenho saudade do passado, tenho saudade do futuro»
(Obrigado Guida Rodrigues, pelo texto que assinala a efeméride)

quinta-feira, 30 de março de 2006

Médicos cubanos atendem mais de 1 milhão de paquistaneses

O exército de batas brancas que faz parte do Contingente Internacionalista Henry Reeve, cuja vanguarda chegou ao Paquistão, em 14 de Outubro de 2005, para oferecer ajuda humanitária às vítimas do sismo devastador acontecido seis dias antes, já atendeu 1.043.125 doentes, dos quais 439.894 nas visitas às comunidades das montanhas do norte deste país. Do total de pacientes, 48.3% são mulheres.

Nas salas de cirurgia montadas em tendas de campanha das diferentes instalações médicas cubanas nas províncias paquistanesas mais afectadas pelo sismo, os ortopedistas e cirurgiões cubanos, - pagos pelo governo cubano - já fizeram 10.920 operações, muitas delas de grande complexidade. Além disso, as salas de internamento dos hospitais de campanha cubanos, situadas em 32 lugares da região do desastre, internaram por vários dias perto de 6 mil pacientes para garantir um atendimento médico adequado.
Actualmente, inúmeros sobreviventes são igualmente assistidos por fisiatras cubanos, que lhes ministram tratamentos especializados nas feridas dos membros amputados e sessões de exercícios com o objectivo de receber uma prótese que lhes permita a reinserção social.
Do chamado mundo ocidental, além da habitual retórica compungida, o mais que sobra é indiferença. Obrigado CUBA!

segunda-feira, 27 de março de 2006

Tereso e Lourenço

Tereso e Dias Lourenço, amigos inseparáveis, camaradas e heróis nacionais. Além da luta que travaram no passado contra o fascismo, une-os, no presente, a determinação para o combate por um mundo melhor.
Fosse Portugal um país a sério e não este atoleiro rosa em que avulta a promoção do lixo, Tereso e Lourenço seriam profundamente conhecidos e o seu exemplo estudado e incutido às jovens gerações.
Agradeço à Guida Rodrigues a foto e aos dois comunistas a herança da Liberdade.

sexta-feira, 24 de março de 2006

Cântico Negro


José Régio
«Vem por aqui» - dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom se eu os ouvisse
Quando me dizem: «vem por aqui»!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe.
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: «vem por aqui»?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis machados, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: «vem por aqui»!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
Sei que não vou por aí."