sexta-feira, 30 de setembro de 2005

Carlos Paredes


«Geniais são as pessoas que respeitamos muito, Génio era Mozart.»
Carlos Paredes
CARLOS PAREDES

"Tive o privilégio de ter privado por poucas horas que fosse, com o grande Génio! Estávamos no começo da Revolução de Abril! Oferecia-se ao Povo, tudo aquilo que ele nunca sonhara usufruir, sobretudo Cultura!
Carlos Paredes, tinha sido convidado para dar um concerto (gratuitamente), na zona mais pobre da cidade. Zona piscatória. Onde os homens têm a frieza do mar e as mulheres a dureza da fome! A Lota, foi o local escolhido! Grande, muito grande! Impossível falar-se de acústica! Os pescadores gostam de música! Então encheram por completo o grande armazém!

Mais de quinhentas pessoas. Falavam alto, os gritos das crianças correndo, era ensurdecedor! As vareiras (mulher do pescador), não habituadas a saírem à noite, riam de alegria! A algazarra era tanta que nós, os da organização, pensámos duas vezes! Fazemos o concerto e ninguém ouve, ou desculpamo-nos e o Carlos Paredes vai embora! Depois de discutido, falámos com ele. Ficou indignado perante a segunda proposta: “Se não conseguirem ouvir, a culpa é minha!”.

Foi para o palco e começou a tocar, a aparelhagem de som de 3ª categoria, não se portou mal! O público, não habituado a concertos, gritava, ria, aplaudia, tudo o que fizesse barulho, era audível naquele grande armazém! Carlos Paredes, parou! Observou o público com o seu ar sereno, humilde, sorriu timidamente!

Fez-se silêncio na Lota! Ouviu-se os primeiros acordes dos Verdes Anos! O emudecimento inesperado, arrepiou-nos! O irreverente público, tinha-se rendido ao som harmonioso da guitarra! Tocou, tocou muito! Quando terminou, as palmas, os gritos de alegria, entoaram na grande Lota! Deram-lhe cravos! Cravos vermelhos!

Enquanto guardava a guitarra, com o seu ar humilde e tímido, disse:”Espero que tenham gostado, alguém se queixou da acústica?” Ele era um Génio!

GUIDA RODRIGUES

Obrigado Guida Rodrigues por este texto belíssimo, escrito na azáfama da luta eleitoral. E se puderes, transmite aos camaradas e amigos afectados pela prepotência do fascistóide Ludgero, a minha solidariedade. A luta continua!

quarta-feira, 28 de setembro de 2005

3000 crianças morrem por dia


3 mil crianças africanas morrem por dia de Malária, afirma a OMS

Segundo o último relatório em conjunto, promovido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela Unicef (Fundo da ONU para as Crianças), divulgado nesta sexta-feira no Dia Mundial da Malária, mais de 3 mil crianças africanas morrem por dia em decorrência da doença. O estudo afirma que 90% das mortes são registradas na África subsaariana e que a maioria delas é de crianças com menos de cinco anos. A droga atualmente utilizada no combate à malária, a cloroquina, não é eficaz, mas é usada por ser a mais barata.
O tratamento actual foi criticado pela ONG Médicos Sem Fronteiras (MSF), que citaram o exemplo da Tanzânia, onde o número de mortalidade das crianças caiu em 20% quando elas passaram a dormir sob redes tratadas com inseticidas. As acções governamentais denotam claramente uma preocupação maior das autoridades com economia de recursos do que com o compromisso de salvar vidas. Quase 2 milhões de pessoas morrem em função da malária por ano no continente africano, gerando um prejuízo de US$ 12 bilhões.
A melhor solução seria o tratamento à base de artesimina, recomendado pela OMS e muito mais potente e eficiente, ela é derivada da planta chinesa Artemisia annua e vem sendo usada contra a malária há mais de dez anos. A combinação da droga com a amodiaquina pode eliminar os sintomas da malária em três dias. Em KwaZulu Natal, na África do Sul, as mortes por malária em hospitais caíram 80% em função deste tratamento. No entanto, o tratamento à base de artesimina custa US$ 1,50 por dose, em comparação com os US$ 0,50 de custo da cloroquina. O custo da mudança em toda África, ainda assim, giraria em torno de US$ 100 a 200 milhões.

Este texto de Cassiano Sampaio foi colocado como comentário a um post de Sérgio Ribeiro, por Pedro Gonçalves, no blogue anónimo séc xxi. Referindo-se à foto, escreveu Pedro Gonçalves:
" Sou fotógrafo. Pelo menos faço por isso. A fotografia que mais me marcou até hoje é a de uma criança. Retrata uma menina que se arrasta para um campo de nutrição e em segundo plano vemos um abutre no chão que aguarda pelo inevitável. Kevin Carter é o nome do fotógrafo. Sul Africano. Fotojornalista habituado a cenários de guerra e a cenas de horror. No entanto esta fotografia toca-me de uma maneira muito especial. Não a consigo (nem quero) esquecer. Apetece-me dizer muita coisa mas fico por aqui. "

terça-feira, 27 de setembro de 2005

A não perder!


Aquela Noite de Natal é o mais recente livro de José Casanova. Depois de ter sido publicamente apresentado na recente edição da Festa do Avante, coube a Urbano Tavares Rodrigues falar hoje do livro na Casa do Alentejo, em Lisboa. A sala foi pequena para acolher tantos leitores, amigos e admiradores do Zé. Que escutaram, orgulhosos, Urbano Tavares rodrigues afirmar que o autor de O Caminho das Aves é já um grande escritor.
Pessoalmente, adorei o livro. E só lamento que a mesquinhez e o carácter persecutório dos que fazem crítica literária em Portugal, melhor dizendo, dos que dominam e mandam na crítica literária cá no burgo, tenham já decretado que do livro não se pode falar. Porque o que está a dar, dizem eles, é a escrita não ideológica, assim propagando o "quando oiço falar de cultura, saco logo da pistola", que caracteriza os regimes fascitas.
Cabe-nos lutar contra a censura: porque se trata de um livro belíssimo, que fala de Amor e de luta, de resistência e paixão; de confiança no futuro e camaradagem. Mas sobretudo, porque o livro e o autor merecem que se fale deles.
No próximo dia 1 de Outubro, a partir das 17H00, os que puderem e quiserem conhecer o livro e o autor, podem fazê-lo deslocando-se à livraria Som da Tinta, em Ourém.

segunda-feira, 26 de setembro de 2005

A vossa vontade será feita



A vossa vontade será feita

Eu vou tentar, prometo, que destes versos
Não saia uma canção mal comportada
Eu vou tentar não falar do que acontece
Eu vou tentar falar sem dizer nada.

Não vou, por isso, falar da exploração
Nem sequer do amor à Liberdade;
Da luta pela terra e pelo pão
E do apego à Paz da humanidade.

Vou tentar não falar do que acontece
Vou tentar falar sem dizer nada

Vocês preferem que eu vos fale
De grilos a cantar e gambuzinos?
A vossa vontade será feita
Eu calarei a fome dos meninos.

Vocês preferem que eu vos cante
Sem vos lembrar os tiros e as facas?
A vossa vontade será feita
Eu calarei o frio das barracas.

Vou tentar não falar do que acontece
Vou tentar falar sem dizer nada

Vocês preferem que eu vos fale
Com um sorriso a iluminar-me as trombas?
A vossa vontade será feita
Eu calarei o estilhaçar das bombas.

Vocês vão gostar que eu não cante
A luta de nós todos todo o ano
A vossa vontade será feita
Não falarei do povo alentejano

Vou tentar não falar do que acontece
Vou tentar falar sem dizer nada

Não falarei do luxo e da miséria
Não falarei do luxo e da canseira
Não falarei das damas, das mulheres
De tudo o que se passa à nossa beira

Não falarei do Amor, nem da Verdade
Nem do suor deixado no trigal;
Eu não ofenderei vossas excelências
Nem a civilização ocidental!

(Alfredo Vieira de Sousa, 1976)

sábado, 24 de setembro de 2005

URGENTE!

"A Constança Castelo Branco Mota da Silva Marques, de 7 anos, é neta de uns amigos da minha família, tem uma doença do foro oncológico e está em estado muito grave. Está internada no IPO, precisando de fazer um transplante de medula.Como não se tem encontrado, até agora, medula compatível (não existe também nos bancos de medula nacionais nem estrangeiros), venho por este meio pedir que: Quem tiver idade entre os 18 - 45 anos; Mais de 50 Kg; Não tiver recebido nenhuma transfusão de sangue; Faça o teste de compatibilidade, de 2.ª a 6.ª feira, das 8h - 16h, no: Centro de Histocompatibilidade do SulHospital Pulido ValenteAlameda das Linhas de TorresTelefone: 217 504 100
Obrigada Luísa Biscaya
POR FAVOR, ENVIEM ESTE PEDIDO A OUTRAS PESSOAS PARA QUE SE SALVE ESTA CRIANÇA.
23/9/05 19:46 "

sexta-feira, 23 de setembro de 2005

Antes que seja tarde!


Manuel da Fonseca

Antes que seja tarde

Amigo
tu que choras uma angústia qualquer
e falas de coisas mansas como o luar
e paradas
como as águas de um lago adormecido,
acorda!
Deixa de vez
as margens do regato solitário
onde te miras
como se fosses a tua namorada.
Abandona o jardim sem flores
desse país inventado
onde tu és o único habitante.
Deixa os desejos sem rumo
de barco ao deus-dará
e esse ar de renúncia
às coisas do mundo.
Acorda, amigo,
liberta-te dessa paz podre de milagre
que existe
apenas na tua imaginação.
Abre os olhos e olha
abre os braços e luta!
Amigo,
antes da morte vir
nasce de vez para a vida.

Manuel Fonseca, "Poemas completos", Cancioneiro da Esperança

Almeida Garrett

“E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar a miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?”
Almeida Garrett, in 'Viagens na minha Terra'

quinta-feira, 22 de setembro de 2005

Comportamento abjecto!


Fazer o quê? Um santuário de foragidos à justiça? Um monumento de exaltação aos padrinhos que em Portugal conseguiram que permaneça livre, mesmo sem estar já no Leblon? Um imenso saco azul para distribuir pelos sicários? Um novo Código que premeie a esperteza saloia e o populismo manhoso? Um cofre forte para guardar o ruidoso silêncio de Jorge Sampaio? A legenda de um País destroçado? A marca de um povo desrespeitado por estes políticos de caca?
Que nojo!

quarta-feira, 21 de setembro de 2005

A luta continua!


Queridos irmãos,
Se, como espero, persistirem na infâmia de não escutarem a dor que vos inferniza a existência, todos os segundos de todos os dias;
Se recusarem o que aceitaram para outros, só porque estes podem mais e têm dos cordéis que tudo determinam melhor conhecimento;
Se como espero, vierem apressados clamar que agora tudo acabou e no andor colocarem os bandalhos;
Se as trombetas ecoarem triunfantes calcinando-vos com a desonra da mentira;
Se os que tudo vendem ou alugam, fingirem agora ter consciência;
Quero dizer-vos, queridos irmãos de condição, que nem por um segundo duvidei dos vossos testemunhos. Sei dos que cometeram o massacre. E acima de tudo vi os vossos olhos pejados de sofrimento, de revolta, de abandono.
Nós sabemos que a verdade é outra: eles são compadres de outros como eles. E de outros ainda piores. Têm muito poder, tesouros e mundos para ofertar.
Nós somos apenas os filhos da desdita mil vezes humilhados.
Mas, se como espero, decidirem fingir que afinal não foi como sabem ter sido, nem por isso vamos desistir. A desonra é deles! Será deles a vergonha!
Nós continuaremos convictos de que valeu e vale a pena lutar!
Podem encomendar decisões, mas a vossa dignidade não compraram.
Eles são os carrascos. Vocês os heróis que o povo admira e respeita profundamente.

segunda-feira, 19 de setembro de 2005

Queixa e imprecações dum condenado à morte



Por existir me cegam,
Me estrangulam,
Me julgam,
Me condenam,
Me esfacelam.
Por me sonhar em vez de ser me insultam,
Por não dormir me culpam
E me dão o silêncio por carrasco
E a solidão por cela.
Por lhes falar, proíbem-me as palavras,
Por lhes doer, censuram-me o desejo
E marcam-me o destino a vergastadas
Pois não ousam morder o meu corpo de beijos.
Passo a passo os encontro no caminho
Que os deuses e o sangue me traçaram.
E negando-me, bebem do meu vinho
E roubam um lugar na minha cama
E comem deste pão que as minhas mãos infames amassaram.
Com angústia e com lama.
Passo a passo os encontro no caminho.
Mas eu sigo sozinho!

Dono dos ventos que me arremessaram,
Senhor dos tempos que me destruíram,
Herói dos homens que me derrubaram,
Macho das coisas que me possuíram.

Andando entre eles invento as passadas
Que hão-de em triunfo conduzir-me à morte
E as horas que sei que me estão contadas,
Deslumbram-me e correm, sem que isso me importe.

Sou eu que me chamo nas vozes que oiço,
Sou eu quem se ri nos dentes que ranjo,
Sou eu quem me corto a mim mesmo o pescoço,
Sou eu que sou doido, sou eu que sou anjo.

Sou eu que passeio as correntes e as asas
Por sobre as cidades que vou destruindo,
Sou eu o incêndio que lhes devora as casas,
O ladrão que entra quando estão dormindo.

Sou eu quem de noite lhes perturba o sono,
Lhes frustra o amor, lhes aperta a garganta.
Sou eu que os enforco numa corda de sonho
Que apodrece e cai mal o sol se levanta.

Sou eu quem de dia lhes cicia o tédio,
O tédio que pensam, que bebem e comem,
O tédio de serem sem nenhum remédio
A perfeita imagem do que for um homem.

Sou eu que partindo aos poucos lhes deixo
Uma herança de pragas e animais nocivos.
Sou eu que morrendo lhes segredo o horror
de serem inúteis e ficarem vivos.

Ary dos Santos